A propósito das prisões de 9 de Junho de 1975

Como o advogado Melo Bento viveu o dia 11 de Junho de há 45 anos na cadeia de Angra do Heroísmo

 “O que estava a fazer a 11 de Junho de 1975?”, volta a questionar o advogado Carlos Melo Bento mostrando-se surpreso com a resposta do jornalista. E, depois, responde: “estava preso”, sem culpa formada. E esteve na cadeia de Angra, para onde foi levado, durante 15 dias.
E valeu a pena? Carlos Melo Bento fez o jornalista repetir a pergunta e, depois, respondeu: “ainda ninguém me tinha feito esta pergunta. Dispensava, perfeitamente, ter vivido estas horas. Foram-me buscar às 2h00 da madrugada. Foi a primeira vez que vi meu pai chorar”.
“E eu”, completou, “não tinha participado na organização nem estive na manifestação do 6 de Junho, embora concordasse com ela”.
 Carlos Melo Bento foi um dos 30 açorianos surpreendidos com o mandato de prisão no dia 9 de Junho, três dias depois da manifestação do 6 de Junho de 1975 e seis meses após ter proferido na Lagoa a conferência intitulada “Os Açores e Autodeterminação”, a convite do Círculo de Amigos local.
Como viveu o histórico advogado de Ponta Delgada o dia 11 de Junho de 1975 na prisão de Angra do Heroísmo. A este desafio, Carlos Melo Bento responde com o livro ‘Horas Amargas’, da sua autoria, que descreve os 15 dias de uma prisão arbitrária e que, de imediato, fez chegar às mãos do jornalista. 

“…Acordaram-me às 7 badaladas da Sé de Angra. O dia está de novo bom com muito sol e céu azul, aliás como todos até aqui. Estamos em 5.ª feira, não sei quantos de Junho.
Fomos tomar um pequeno-almoço, desta vez mais demorado. Lembrei-me que o Borges Coutinho, culpado pela sua mediocridade lunática, desta ridicularia toda, foi meu cliente até ao dia 25 de Abril de 1975. Salvo erro, ainda me deve 635 escudos de honorários. Disse na brincadeira, ao pequeno-almoço que ia, daqui, mandar-lhe a conta dos meus serviços… Riram-se, e foi tudo…
Por outro lado, discutimos a hipótese de apresentarmos queixa à ordem dos advogados a pedir-lhe um emissário para nos vir ouvir e defender os nossos pontos de vista.
(A constipação continua. Esta maldita cela e toda a sua humidade. Seja tudo em remissão dos meus pecados).
O dr. Abel foi de opinião (com que concordei) de tentarmos contactar o Dr. Mesquita, Adjunto do Procurador da República, afim de tentar obter uma liberdade com termo de residência que nos permitia, lá fora, ir trabalhando juridicamente pelos que cá ficassem.
Embora julgue que uma diligência não anule a outra, vamos tentar saber, ao almoço, pelo Gustavo Moura, se o Dr. Mesquita fez parte da comissão e, caso afirmativo, fazer-lhe o pedido.
Entretanto, corre que Tomás Caetano, cidadão canadiano, vai apresentar protesto junto da sua Embaixada a pedir a pedir a intervenção daquele país no seu caso. Parece que ele esteve detido 24 horas em Ponta Delgada sem comer nem beber.
Ás vezes, penso que é inútil escrever este Diário, pois que se calhar acabam por mo roubar. Mas, enfim, é uma tarefa tão absorvente que nem sequer penso em abandoná-lo.
Hoje, no pátio, assobiamos o hino do Senhor Santo Cristo e do Espírito Santo. Este último é tido como o Hino dos Açores tal é a sua generalização em todas as ilhas.
Muitas vezes, ao assistir às brincadeiras dos soldados, entre si, com as armas nas mãos, me ponho a considerar o perigo de haver algum acidente mortal que venha carregar de mais negro esta nossa tragédia.
Quando eles ficam, por momentos, sem oficial ou aspirante, tornam-se em autêntcas crianças que são. Sempre gostava de saber qual a ideia que de nós faz o comandante do B.I. 17que nem se dignou visitar o presídio militar e ouvir as reclamações que temos para apresentar. Julgo que era esse o seu dever, o qual, atentas as circunstâncias em que nos encontrámos, devia tornar-se, para ele, ponto de honra.
(…)
Se quisermos saber porque motivo não deixam os soldados, de cá, falar connosco, devemos raciocinar à base do facto de esses rapazes serem todos Açorianos.
Estou, porém, convencido convencido de que todo este arraial de gonzos e fechaduras, destinados a provocar o pânico, vai pela base face à impecável disciplina que todos têm demonstrado, além de um fantástico e sobrenatural bom humor. Toda a gente ri, às vezes, até, alarvemente. Mas, não é o riso nervoso do mártir, é o riso franco do homem livre.
De resto, livre é a nossa fantasia que voa arrebatada pelas asas da ilusão: nosso território são estas minúsculas pedras alagadas que nossos avós descobriram, por acaso, no imenso oceano, que ninguém queria povoar e de que nós agora não queríamos afastar-nos.
Ora, toda a gente sabe que os que estão aqui presos, em tão imundas circunstâncias, são pessoas sérias que têm como único pecado amarem de sobremaneira a sua terra e os que nela vivem, e defenderem os interesses de todos.
É, portanto, um perigo que eles descubram que nós não somos as feras que lhes pintaram mas, afinal, os seus aliados naturais.

Dor sem fim, imenso penar, grita alma desconcerto;
Podes vir ilusão que te acompanho como um louco neste caminho.
Mãe porque sorris assim?
Terra, mãe porque me criaste e para que fim?
Ouço lá fora as visitas que vêm quebrar a solidão da cadeia.
O pio chilreante dum pássaro engaiolado como nós.
Pobre diabo não saber talvez o que é a liberdade, por isso o cativeiro te seja porventura menos penoso.
Maldita sorte a nossa, triste a nossa condição.
Óh Deus liberta-nos.
Tu tudo podes.
Não nos faças expiar o que não é culpa nossa.
Os montes, os ventos, os vendavais tudo domias.
Acode então e abre-me esta porta.
Deixa-me respirar o ar puro da Liberdade.
Deixa-me abraçar os meus filhos, os mesmos que me destes a criar.
Que faço então?
Deixo-os sem rebanho sem pastor?
Qual o meu fado?
Que caminho e ventura me estarão guardados pelo destino?
Antevejo a multidão ululante que grita hozanas!
Sobre a terra meu sonho acabou, deixa-me tormento infinito. Proscrito.
Vejo-me exilado de meu país, livre enfim, mas sempre preso.
Que corda me trás assim arrastando correntes imensas de desejo.
Mais pesadas que o chumbo mole ou o aço duro?
Mas no exílio não existe liberdade.
Só tristeza, solidão, saudade.
E a vida não espera suspensa do tempo do exílio que regressemos.
Tudo morre e tudo muda.
Até a esperança é outra e, para o exilado, a Pátria morre por evolução.
Não! Antes na Pátria preso que lá fora á solta!
Quando regressa (se regressa) já não é a Patria igual que ele vê.
É gente estranha.
Nosos costumes.
Novos desejos.
Ele está deserdado da Pátria.
Apátrida e perdido”.
(…)
Carlos Melo Bento escreveu o diário na prisão de Angra e ponto final. Depois disso, há 45 anos, nem mais uma linha sobre o sucedido. Isto porque, como explica agora o advogado, quando deixei a prisão, não senti força anímica para escrever mais do que escrevi na cadeia”.
“Agora, não pergunte o que é que eu fiz depois de sair!... O que é preciso é ter fé”, concluiu.
                                                                   

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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