13 de junho de 2020

Chá da Cesta - 33

Ilha da Madeira - I

Chá na Ilha da Madeira? Convém ter sempre em mente que a Madeira era um espaço permeável à influência do Império Britânico. Saliente-se o facto de ter sido ocupada duas vezes por tropas Britânicas, primeiramente de Julho de 1801 a Janeiro de 1802, em seguida, de Dezembro de 1807 a Outubro de 1814.
E não só. A Madeira, em finais do século XVIII era muito visitada por britânicos ‘(…) estudiosos de plantas exóticas e tropicais, que ali as deixavam de quarentena no regresso das suas expedições, antes de as submeterem aos climas menos temperados da Europa continental.’1
Outra pista ligando a Madeira às Ilhas Britânicas e ao Mundo científico de então: ‘o British Museum, a Linean Society, o Kew Gardens, a Universidade de Kiel, a Universidade de Cambridge, o Museu de História Natural de Paris (guardavam no seu acervo) importantes colecções de fauna e flora das ilhas.’ Pela Madeira, ‘passaram destacados especialistas da época, sendo de realçar John Byron, James Cook, Humbolt, John Forster. Darwin esteve nas Canárias e Açores (1836) e mandou um discípulo à Madeira.’2
Isto tudo teve reflexos práticos na própria Ilha da Madeira, ‘ (…) em 1757 o inglês Ricardo Carlos Smith fundou no Funchal um dos jardins onde reuniu várias espécies com valor comercial. Já em 1797 Domingos Vandelli (1735-1816) e João Francisco de Oliveira no estudo sobre a flora apresentou no ano imediato um projecto para um viveiro de plantas. que foi criado no Monte e manteve-se até 1828.’ 
Não ficou por aí o interesse madeirense pelos jardins e plantas económicas: ‘(…) José Silvestre Ribeiro, governador civil, avançou em 1850 com um plano de criação do Gabinete de História Natural, a partir da exposição inaugurada a 4 de Abril no Palácio de S. Lourenço.’ O que fracassou dois anos depois, porém, a 23 de Setembro, daquele ano de 1852, o alemão Frederico Welwistsch, que passou pelo Funchal a caminho de Angola, propõe ‘a criação de um jardim de aclimatação no Funchal e em Luanda.’ Diga-se que Welwistsch se correspondia com José do Canto e que a Madeira servia de ligação entre das ‘colónias aos jardins de Lisboa, Coimbra e Porto.’ Outro alemão, o Padre Ernesto João Schmitz, ‘como professor do seminário diocesano [do Funchal], levou à criação em 1882 um Museu de História Natural, que hoje se encontra integrado no actual Jardim Botânico.’3
Perante este quadro, não será de admirar que, na década de 20, do século XIX, Henry Veitch (1782-1857), um ex-cônsul Britânico a residir na Ilha, tenha cultivado e, ainda que de pouca qualidade, produzido chá. Em 1854, P. L. Simmonds dá-nos disso testemunho.4 Francisco Travassos Valdez confirma-o, em obra publicada em 1861, em Londres.5 Cronologicamente, ocorre pela mesma altura em que se diz que, na ilha de São Miguel, Bettencourt Leite o tentava nas Calhetas. Apesar de toda a sua potencialidade, em 1888, ainda não se dera o passo decisivo na ilha da Madeira: “de experiências isoladas do cultivo para ornamento.”6

[Henry Veitch (1782-1857)]
Fonte: https://gw.geneanet.org/brynjulf?lang=en&n=veitch&oc=1&p=henry

Uma outra achega chega-nos de José do Canto, o que nos leva a ter de admitir outro contributo para o chá Madeirense, além de Veitch. Fidélio de Freitas Branco responde, a 21 de Maio, à curiosidade de José do Canto, que lhe escrevera para o Funchal a 3 daquele mesmo mês. Perguntara quem tinha/tivera chá na Madeira. Responde-lhe Fidélio, após ter indagado junto de diversas pessoas: “(…) G. Duff Dunbar.”7
Quem, então, Veitch, Dunbar? Ou ambos? Em que pé ficamos? Que o assunto ainda não está esclarecido. De onde terão vindo as sementes e as plantas de chá? Podem ter vindo do Brasil, mas também de qualquer área de influência Britânica. Por exemplo, havia por esta altura alguma cultura de chá na Ilha de Santa Helena. Não esquecer que os Kew Gardens em Londres tinham chá.
Um episódio que pode não querer dizer nada mais do que isso. José Inácio Machado Faria e Maia nasceu a 1 de Março de 1793, em Ponta Delgada, onde vem a falecer a 1 de Janeiro de 1881. É tido como uma dos primeiros que trouxeram chá do Brasil para São Miguel. Foi Coronel de Milícias de Ponta Delgada por Patente de 1812. Partira para a Madeira em 22 de Agosto de 1811 e dali seguira para o Brasil onde casou a primeira vez a 25 de Janeiro de 1813. Casou segunda vez, com a cunhada, em Lisboa a 9 de Novembro 1824.8 Será outra pista, no caso, a ligar a Madeira e São Miguel?
Na advertência introdutória à relação que José do Canto redigiu em 1851, das plantas que cultivava na Ilha, intitulada Hortus Cantuanus, o autor diz o que pensa da aclimatação de novas espécies: “(…) O clima de Portugal, Madeira e Açores é acomodado a toda a casta de produções vegetais. (…) O homem só, neste recanto do mundo, tem sido, há séculos, testemunha impassível de tanta maravilha: nunca ao seu artifício deveu a natureza o mais leve auxílio. (…).”9 A natureza dos solos da Ilha é pródiga e aberta a todo o tipo de introduções.10 
Não sei se são dados actualizados ou se se referem ao chá que existiu, no entanto, é gente de São Miguel a escrever sobre o chá da Madeira. Assim, em 1892, Gabriel de Almeida, refere que o chá, na Ilha da Madeira, vegeta perfeitamente 11 e, em 1895, repetindo o que escreve em 1888, Cristóvão Moniz alude ao caso do chá da Madeira.12 

Outro testemunho mais tardio, no caso um estudioso continental da flora, em trabalho saído em 1948, repete a existência oitocentista de chá naquela Ilha.13 Seguindo o que fora dito anteriormente, Mendes Ferrão repete ainda o que já se sabia: que houve cultivo de chá na Madeira no primeiro quartel do século XIX, e que tal ocorreu numa propriedade denominada Quinta do Jardim da Serra, propriedade do cônsul inglês Henry Veich (ou Veitch). Veicula ainda que, o que já outros haviam dito, que das folhas colhidas chegou a fabricar-se chá preto. Adianta um dado actual: a cultura do chazeiro na Madeira desapareceu completamente.14 Outra pista, vem em entrada publicada no volume II do Dicionário da História de Portugal, dirigido pelo historiador madeirense Joel Serrão. A publicação vai de 1963 a 1971, cujo autor é identificada pelas iniciais F.C. da C. (provavelmente o historiador e antropólogo micaelense Francisco Carreiro da Costa). Aí repete-se o que Cristóvão Moniz já dissera.15

Lugar das Areias, Rabo de Peixe, 6 de Junho de 2020


1 Soromenho, Ana, Um certo Olhar, in Revista do Expresso, 17 de Agosto de 2019, p. 58.
2 Vieira, Alberto, As Ilhas Atlânticas. Para uma visão dinâmica da sua História, p. 250.
3 Vieira, Aberto, As Ilhas, a cana de açúcar e a História do meio ambiente; https://silo.tips/download/as-ilhas-a-cana-de-aucar-e-a-historia-do-meio-ambiente
4 Simmonds, Ob. Cit., 1854, p. 94.
5 Moniz, Cristóvão, Ob. Cit., Maio de 1888, p.32.
6 Idem
7 Cf. UACSD/FAM-ABS-JC/Documentação não inventariada (Nestor Sousa), “Carta de Fidélio de Freitas Branco, Funchal, a José do Canto, Ponta Delgada”, 21 de Maio de 1886
8 Rodrigues, Rodrigo, Ob. Cit., 2008, vol. 4, p. 2347; Albergaria, Eduardo Soares de, Ob. Cit.,2013, p.101.
9 Cf. UACSD/FAM-ABS-JC/Documentação não tratada/Cx.156, [Hortus Cantuanus: relação das plantas cultivadas na IIha de S. Miguel por José do Canto], 1851.
10 Na extensa lista de plantas, da qual apenas se respiga algumas, completa-nos a achega: “(fl. 10 v.) (…) protea (…) (fl. 15 v.) (…) (fl. 19 v.) (…) 91 coffea /97 arábica/ árvore do café (…) (…) azálea (…) (fl. 21 v.) (…) pittosporum (…) (fl. 39 v.) (…) Hidrangea /Hortensia (…) (fl. 42 v.) (…) poinsettia (…) (fl. 45v.) (…) metrosiderus (…) (fl. 46 v.) (…) eucaliptos (…) (fl. 67 v.) maracujá (…) (FL. 69 V.) hibiscus (…) (fl. 70 v.) (…) camélia (não a sinensis) (…) (fl. 92 v.) (…) plátano (…) (fl. 98 v.) (…) araucária (…) (fl. 99v) (…) acácia (…) (fl. 104 v.) bancksia, bouganvílea (…) (fl. 108) criptoméria Japónica (…).”
11 Almeida, Ob. Cit., 1892, p.4.
12 Moniz, Ob. Cit.,, 1895, p.32.
13 Lacerda, Ob. Cit., 1948, pp. 16-17.
14 Mendes Ferrão, Ob. Cit., 1992, p. 160.
15 Costa, Idem, Francisco Carreiro da, Chá, in Dicionário de História de Portugal, Joel Serrão, vol. II, Porto, 1963-1971, p. 47.

Mário Moura

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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