14 de junho de 2020

O fundador do Correio dos Açores e as ligações aéreas para as ilhas (1919-1937)

Houve que construir aeroportos para virem a encorajar algo como o que viria a ser, em 1945,o pioneirismo da SATA e, na Terceira, foi a pista das Lajes a garantir o que se quis iniciar em 1930 com a da Achada. Em 28 de fevereiro e 1 de março de 1931 (pgs. 1 e 4) sob o título “EVOLUÇÃO DA AERONÁUTICA em 1930: O major José Agostinho expõe-na numa brilhante síntese”, o Correio dos Açores dá voz ao ilustre Diretor dos Serviços Meteorológicos para percorrer a evolução da aviação, dos dirigíveis aos hidroaviões e à aviação terrestre, passando pelos avanços dos apoios à navegação e pelas estruturas aeroportuárias: - o Sikorski tão famoso viu-se suplantado pelo Dornier X, pelo G-38 e, agora, na América, pelo Fokker 32 (...); de que serve poder transportar uma carga considerável com uma velocidade de 200 km por hora, se não houver a necessária segurança! (...); no ano passado realizaram-se várias experiências de ‘navegação cega’(...); uma outra conquista do ano de 1930 nos domínios da técnica do avião é a do emprego de motores diesel nos aviões (...); outro acontecimento sensação no ano de 1930 foi a Exposição de Aeronáutica em Paris (...); a velha Europa está sulcada de linhas aéreas  em todas as direções, de Estocolmo até Sevilha, de Glasgow até Constantinopla (...); um problema que a aviação trouxe consigo foi o estabelecimento de aeroportos e campos de aterragem. Só nos Estados Unidos havia, em 1930, 324 campos de aterragem nas escalas das linhas ordinárias de navegação aérea, estando 46 novos em construção (...). 
No que diz respeito direta e proximamente aos Açores, parece-nos ser de reter as seguintes partes da síntese: - as ligações transatlânticas constituem ainda uma grande dificuldade. Que influência terá tido na aviação mundial a inauguração do nosso Campo de Aviação – da Achada? O New York Times escrevia um ano atrás que o problema da navegação aérea transatlântica já estaria resolvido se Portugal tivesse preparado um aeroporto em condições nas Ilhas dos Açores. Com a Achada, entende José Agostinho que se deu um passo agigantado para a resolução dessa aspiração.
Antes da Grande Guerra, os cabos submarinos passam a ligar a Europa, desde Lisboa (Carcavelos), via Açores (amarrando na Horta), até ao Canadá e aos EUA. No fim do conflito, as comunicações por rádio começam a competir com as por cabo; a Inglaterra controla uma importante estação de rádio na base naval instalada pela US Navy em Ponta Delgada. Nessas circunstâncias facilmente se percebe hoje como a importância dos Açores, no meio do oceano, foi crescente e alvo da atenção estratégica dos principais protagonistas da política internacional, que visavam o controlo do Atlântico. 
Segundo Conceição Tavares, o Observatório Meteorológico dos Açores, estabelecido no início do século XX, teve como antecedente o Posto Meteorológico de Ponta Delgada, dirigido desde 1893 por Afonso Chaves, e a que informalmente se chamava “Observatório”: - o serviço meteorológico foi criado e desempenhou cabalmente o seu papel naquele período da história da meteorologia porque resultou de um longo processo de gestação de vários projetos internacionais para os Açores (...). (...) A continuidade regular das observações meteorológicas, a prestação diária de serviços à Europa e à América e até o empreendimento de estudos em magnetismo terrestre, sismologia e marés, ficaram, neste período, a dever muito pouco ao empenho estatal e quase tudo ao perseverante trabalho e à competência do coronel Afonso Chaves. Continuados depois pelo seu discípulo, tenente-coronel José Agostinho.
A sua eficácia foi potenciada pela rede de cabos submarinos que amarravam na Horta, permitindo ligações diárias com o Weather Bureau de Washington, estabelecendo-se um intercâmbio científico transatlântico que se viria a aprofundar nos campos da cartografia e no conhecimento dos fundos marinhos. O telégrafo, primeiro, e a rádio, de seguida, traduzem-se num salto qualitativo capaz de assegurar comunicações instantâneas entre a América e a Europa, designadamente as relacionadas com a indiscutível utilidade pública, como a informação meteorológica, ou as de interesse estratégico, relativas a operações militares. Será neste contexto que as potências internacionais da altura começam a movimentar-se com vista à obtenção de facilidades nos Açores.
Em 1936, numa carta que escreveu a José Bruno em 17 de fevereiro, José Agostinho, ao referir-se aos estudos da missão francesa, afirmava: - na realidade, tanto o Nomy como os alemães, depois dos temporais a que assistiram, devem ter ficado um tanto preocupados com os mares destas paragens. Isto é tremendo e com os temporais destes últimos dias não só teria sido impossível o tráfico aéreo com os melhores aparelhos actuais, mas seria mesmo perigoso para um avião estar dentro dum porto.
Até ao fim da década de 1920, só as baías da Horta e de Ponta Delgada contavam para a aviação que utilizava os Açores como escala entre a Europa e a América.
No Correio dos Açores de 24 de agosto de 1929, o tema de fundo é: - os AÇORES Rendez-vous de aviadores - (...) se o Estado se não apressa a estabelecer no arquipélago bases de aviação e aeródromos em condições de receber os aviadores que aqui vêm ter o seu rendez-vous necessário, as grandes potências da aviação mundial, ou nos impõem à força uma organização aérea, voltando a agitar a ameaça da internacionalização, ou nos liquidam, pondo-nos perto da porta as poderosíssimas armações flutuantes(...).Na solução deste problema já se manifestou a Terceira, numa visão lúcida dos seus interesses, construindo um bom campo de aterragem para aviões. Mas é claro que isso não basta.  Os Açores precisam de uma base aérea bem apetrechada, de modo a cumprirem a alta função a que os destina a sua esplêndida situação geográfica. É obra que só ao Estado incumbe, organizando na ilha que a isso melhor se prestar, na que para esse fim melhores condições oferecer, o Aeródromo dos Açores, depois do que nas outras ilhas, mesmo nas mais pequenas, deverão ser preparados simples campos de socorro, de que se utilize um avião que que não possa atingir o aeródromo. (...).
Dificilmente se podia retomar o tema, que já tinha sido abordado pelo Barão Caters, por O Século e pelo próprio Correio dos Açores, com maior sentido de pertinência, convicção, síntese e acutilância!
O Correio dos Açores de 1 de setembro de 1929 é dominado pela coluna da 1.ª página “AEROPORTOS NOS AÇORES pelo DR. LUIS DE BETTENCOURT”, a revisitar todo o processo relativo à construção de um aeroporto nos Açores, referindo-se às diferentes opções das Juntas Gerais de Angra do Heroísmo e de Ponta Delgada, tendo aquela assumido a responsabilidade da construção do Campo da Achada, e optando esta por entender que o investimento caberia ao Governo e não às Juntas Gerais ou aos municípios. 
Vale a pena resumir numa ideia central o conteúdo deste artigo, tão ponderado e bem expresso, para além da interessante e oportuna questão de ali conter o despacho de Cifka Duarte de nove meses antes: - tal como na Terceira já se sabia, antes do aval de Cifka Duarte, que o sítio mais conveniente para construir um Campo provisório era na Achada, também em S. Miguel se sabia que o local mais adequado seria em Santana. A diferença foi que, na Terceira, a Junta Geral resolveu arriscar e avançar – para tal contando, não só com a aprovação oficial, mas sobretudo com os lobbies terceirenses, como é o exemplo de Fernando Borges, enquanto, por outro lado, em S. Miguel, onde não faltariam também lobbies micaelenses, a opção foi pela prudência, na convicção de caber ao Estado a incumbência de assumir tamanho custo no respetivo orçamento. O encargo pode hoje parecer mais irrelevante, mas, na altura em que se discutia ainda se o desenvolvimento económico dependia assim tanto da aviação, não era despiciendo que o Campo da Achada fosse um baldio fácil de expropriar, mas os das Lajes e de Rabo de Peixe (Santana) fossem constituídos por terrenos produtivos, de expropriação problemática, tanto pelo custo envolvido como pela resistência dos proprietários e das populações que ali encontravam o seu sustento que não parecia ter sucedâneo no campo de aviação a instalar. Por outro lado, a necessidade de um aeroporto não podia ser endossada só para S. Miguel ou para a Terceira, tratava-se de um benefício para a aviação internacional e cabia à Nação reconhecê-lo.
É neste artigo de Luiz de Bettencourt que aparece transcrito, como mencionado anteriormente, o parecer de 8 de janeiro de 1929, de Cifka Duarte, em nome da Aeronáutica, que serviria de justificação para a Junta Geral de Angra avançar para a construção da Achada: - (...) Os aeroportos devem ser feitos pelas próprias Câmaras Municipais das localidades, únicas que podem no futuro tirar compensações pelas verbas pagas pelas várias empresas, tal e qual como sucede com os portos do mar. É pois aos Açores que compete dedicar-se a esse problema e efectivá-lo quanto antes, pois que se estão construindo já outros absolutamente próprios para a travessia do Continente às Ilhas. (...).
Em 14 e 15 de setembro, o jornal de José Bruno Carreiro publica uma entrevista com Cifka Duarte, aquando da passagem, de barco, por Ponta Delgada, do Inspetor da Aeronáutica, a caminho da Terceira para verificar localmente as obras a decorrer na Achada. “OS AÇORES e a aviação transatlântica – O Correio dos Açores ouve o Sr. Comandante Cifka Duarte, inspector da aeronáutica portuguesa, sobre este magno problema (o responsável do Conselho Nacional do Ar confirma que vem, há um ano, acompanhando a construção do Campo da Achada)”. “A ILHA DE S. MIGUEL POSSUI UMA EXCELENTE E VASTA REGIÃO PARA UM GRANDE CAMPO DE AVIAÇÃO - afirma ao Correio dos Açores o Comandante Cifka Duarte”. Por outro lado, poucos dias depois, conforme consta na edição de 8 de outubro do jornal, este proferirá, conciliador, em Angra: “O CAMPO DE AVIAÇÃO DA ACHADA, NA TERCEIRA é o indicado para o aero-porto internacional dos Açores, declarou o Tenente-Coronel Cifka Duarte, em três entrevistas concedidas à imprensa de Angra”(...) “Nas outras ilhas devem ser construídos campos de refúgio e socorro” (...) “As vantagens do Campo da Achada” (...) “Uma ‘sorte grande’” (...) “Os Campos de socorros nas outras ilhas” (...) “As características do Campo”(...) “A posição dos Açores na aeronavegação internacional”(...). Trata-se da reprodução, pelo Correio dos Açores, das declarações produzidas em Angra, designadamente ao vespertino A UNIÃO, nos dias 19, 21, 23, 24 e 25 de Setembro, pelo representante da Direção da Aeronáutica, encarregado de acompanhar e dar parecer sobre o Campo de Aviação em construção.

José Adriano Ávila

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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