Reforma de qualidade em São Miguel, mas longe dos filhos e dos netos

“Não pensem que a América é um rebuçado”, diz casal lagoense que decidiu emigrar no fim da década de 60

À semelhança do resto dos Açores, o lugar da Atalhada, no concelho de Lagoa é também marcado por várias histórias de famílias que, ao longo da década de 60 e 70, optaram por emigrar para o Canadá ou para a América do Norte, procurando ansiosamente por melhorias nas suas condições de vida e por uma estabilidade que, no caso concreto do arquipélago, dificilmente chegaria.
Muitas destas famílias continuam divididas entre a ilha em que nasceram e o país que os acolheu e para o qual contribuíram ou continuam a contribuir, fazendo com que muitos conheçam alguns dos familiares apenas através das novas tecnologias ou das fotografias que, nas ocasiões mais especiais do ano, vão chegando aos correios uns dos outros, assim como a habitual troca de postais que ocorre no fim de cada ano.
Há também, como é sabido, vários casais que resolvem – depois de longas décadas a contribuir para o crescimento do país que escolheram para viver – regressar à ilha de onde são naturais, deixando para trás os filhos que, embora açorianos, optaram por dar continuidade às suas vidas do outro lado do mundo, onde acabam muitas vezes por casar e por ter os seus próprios filhos que.
É este o caso de Maria da Trindade e de Manuel, seu marido, que depois de mais de 40 anos a viver em Fall River, no estado de Massachusetts, resolveram retornar e passar os dias da sua reforma no pacato lugar da Atalhada, junto ao mar com que sempre se habituaram desde crianças, deixando para trás os três filhos, os netos e também os bisnetos que os 84 anos de idade lhes permitem ter.
A história deste casal começou ainda nos anos 50, altura em que os dois vizinhos começaram a namorar mesmo com a falta de aprovação da família de Maria da Trindade que receava o insucesso da relação. No entanto, depois de um curto namoro, viriam a casar na Atalhada, lugar onde começariam a sua vida a dois, até ao nascimento do primeiro filho.
De acordo com a mulher, hoje com 84 anos de idade, “embarcar” nunca lhe tinha passado pela cabeça, explicando que esta era uma ambição de Manuel que “delirava muito com isso” e que acabaria por ter a sua família emigrada também.
Chegou então o mês de Março do ano de 1969, ano este em que o casal contava já com os seus três filhos que tinham dez, sete e quatro anos de idade na altura, sendo este o mês em que Manuel rumou para Tiverton, cidade em Rhode Island, onde durante seis meses ficaria em casa da irmã até amealhar o suficiente para conseguir alugar um apartamento para a mulher e para os três filhos, desta vez em Fall River, numa comunidade composta essencialmente por outros açorianos.
Manuel, também hoje com 84 anos de idade, começou de imediato a trabalhar como operador de máquinas numa fábrica que era reconhecida pelas “lindas caixas de embrulhos”, as preferidas dos ricos na altura do Natal, contam, e também pelos simples caixotes de papel e até por malas de viagem, entre outros.
Manuel recorda ainda a alegria que sentiu ao saber que iria receber o seu primeiro pagamento em dólares americanos, apenas 1,70 dólares por cada hora de trabalho, mas que ao fim de uma semana lhe renderia uma média de 57 dólares, dinheiro esse que viria a ser mais do que suficiente para, semanalmente, cobrir as despesas da renda, da alimentação e da ama dos dois filhos mais novos.
Maria da Trindade teve, no entanto, que esperar seis meses até ter autorização para sair dos Açores com os seus três filhos, embarcando assim num rumo completamente diferente em comparação com o que tinha pensado inicialmente para a sua vida de casada, que nesta comunidade pequena e nesta época se traduzia a permanecer o mais próximo possível da família, mesmo depois do casamento.
Ainda assim, conta a mulher, a ideia era a de mais tarde poder também chamar a mãe para que esta pudesse passar parte da sua vida nos Estados Unidos da América, à semelhança do que aconteceria com a família do lado de Manuel. No entanto, quando esta oportunidade surgiu a mãe de Maria da Trindade recusou deixar a sua terra natal, o que afligiu a filha profundamente.
“Ficámos 33 anos nos Estados Unidos da América e não voltássemos estaríamos emigrados há pelo menos 50 anos. Tornei-me cidadã norte-americana logo após os dez anos, tudo para conseguir chamar a minha mãe mas ela depois não quis vir”, conta, explicando que como esta tinha ainda um filho ao seu cuidado, embora maior de idade, o Estado português não permitia que esta mãe deixasse o filho sozinho.
    Na América, onde não havia “pezinhos descalços” como frequentemente se encontrava em São Miguel ainda nos anos 60 e 70, a vida era mais confortável, afirmam, mas era também sinónimo de muito trabalho e, também, de investimentos para fazer render aquilo que se ganhava.
“Com 57 dólares conseguíamos alimentar a nossa família inteira durante uma semana e ainda dava para pagar a renda de casa, porque o dinheiro da minha mulher ficava no banco”, conta Manuel. “Para além disso, comprei dez apartamentos lá para meter à renda e podia ter comprado mais. Não comprei mais porque não quis, vinham até ter comigo para me contarem de negócios, mas os rendeiros que tinha já eram um quebra-cabeças suficiente”, relembra.
Enquanto isso, Maria da Trindade encarregava-se das lides domésticas, como seria de esperar, e ao mesmo tempo conciliava o seu trabalho numa fábrica de roupa, onde a sua função durante os 28 anos em que lá trabalhou, saindo apenas na hora da sua reforma, se resumia a colocar punhos nas camisas, uma função de que gostava, embora possa parecer repetitiva para muitos, diz.
À chegada, relembra, o receio deste mundo novo, onde temia não estar à altura e não conseguir aprender nada, fez com que logo à saída do avião desejasse regressar a São Miguel com os filhos mas, em vez disso, encheu-se de coragem e permaneceu durante quase 20 anos, até que a oportunidade de regressar por um curto período de tempo fosse possível.
“Em São Miguel estava inquieta para conhecer a América, mas ao chegar, se eu pudesse, subiria nem que fosse para a asa do avião e fugia de volta para casa, porque assim que cheguei tive receio de nunca conseguir aprender nada”, recorda.
O regresso de Maria da Trindade à Atalhada em específico viria a acontecer pela primeira vez no ano em que a sua mãe sofreu um acidente, necessitando de auxílio, e por isso resolveu vir em conjunto com os dois filhos mais novos, deixando para trás o marido e o filho mais velho, não sabendo no entanto localizar no tempo este acontecimento.
“Começámos a vir mais a São Miguel quando os nossos filhos já estavam a fazer a sua vida. Quando a minha mãe teve o acidente regressei pela primeira vez, mas o meu marido não veio nem o meu filho mais velho. Quando cheguei ele disse-me que nunca mais iria sem ele, porque foram seis semanas a comer latas de atum”, relembra o casal entre risos, tendo Manuel regressado apenas em 1988, precisamente 20 anos depois de partir.
Entre as festas que mais relembravam o casal da distância que havia da restante família, ou pelo menos daquela que não teve a mesma oportunidade para emigrar, estava o Natal, o Senhor Santo Cristo e, mais ainda, a festa da paróquia da Atalhada, em honra de Nossa Senhora das Necessidades.
“O Natal era sempre passado lá, mas sempre com saudades de São Miguel. No dia do Senhor Santo Cristo chorava imenso, e no dia da procissão da Atalhada ainda mais chorava. Dizia ao meu marido para voltarmos para a nossa festa mas ele dizia sempre que não havia dinheiro para estas coisas. E era assim que se vivia”, conta.
Apesar de afirmarem que se voltassem atrás no tempo, sabendo o que sabem hoje e o trabalho que viver num país estrangeiro dá, Maria da Trindade e Manuel voltariam a emigrar num abrir e fechar de olhos, alertam para o facto de a América “não ser um rebuçado”, uma vez que o estilo de vida não é tudo.
“Não pensem que a América é um rebuçado. A pessoa que se desorientar está feita. Se trabalharmos muito bem, mas há americanos que não têm uma serrilha no bolso, era comum virem ter comigo às segundas-feiras a perguntar se tinha um dólar para eles poderem ir tomar café”, relembra Manuel, referindo que era comum que alguns homens estourassem o seu rendimento nos cafés ou nas festas de fim-de-semana, hábitos com os quais cortou por completo desde que emigrou para “poder ter alguma coisa”.
Recordam ainda que mesmo sendo de uma nacionalidade diferente e falando uma língua diferente nunca foram mal tratados por ninguém, mas que o seu quotidiano era passado entre o trabalho e a vida familiar, não dando margem de manobra para grandes socializações sem ser, ocasionalmente, com alguns vizinhos, havendo inclusive alturas em que Manuel trabalhava até aos Domingos.
Os dias em que não havia trabalho eram, de facto, poucos. Dos anos que passaram nos Estados Unidos relembram um grande nevão que ocorreu no ano de 1978, durante a presidência de Jimmy Carter, em que a grande parte das pessoas acabou por ficar uma semana em casa sem poder sair para trabalhar.
“Uma vez, em 1978, houve um grande nevão… eu em casa preparada para sair para o trabalho e caiu um monte de neve em cima de mim. Ficámos uma semana em casa. Tão contente que fiquei naquela semana e ainda por cima o governo pagou-nos tudo”, conta.
Noutra ocasião, Maria da Trindade foi alertada por uma das vizinhas para um grande temporal que se aproximava. Ligou de imediato para avisar o marido no regresso a casa, e mais tarde todos os trabalhadores viriam a ser dispensados.
No entanto, “a caminho de casa o carro ficou preso na estrada e o meu marido teve de vir a pé para casa. Só pensava “Ai, Nossa Senhora das Necessidades, trazei aquele homem para casa”, conta a mulher, comprovando que o seu pensamento estava “sempre na Atalhada”, nunca falhando um dia em que não pensasse nos seus e naquilo que estariam a fazer consoante a diferença horária entre os dois locais.        

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