Valter Ponte frequenta o 2º ano do Mestrado em Ensino da Música e colabora com a Orquestra da ESMAE

“As bandas filarmónicas têm sido mais do que simples escolas de música do povo, são autênticas escolas de vida”

Correio dos Açores: Conte como despertou para a música.
Valter Ponte: Comecei na música um pouco como a maioria dos instrumentistas de sopro em Portugal. Aos 12 anos, comecei a frequentar uma das bandas filarmónicas do concelho de onde sou natural, neste caso a Banda Lealdade, de Vila Franca do Campo. Integrei por iniciativa própria, mas também um pouco pelo meu pai, através do gosto demonstrado pela música e pela Lealdade em especial, onde já tinha sido executante.

Fale-nos da sua carreira musical.
Inicialmente, comecei os meus estudos musicais na Banda Lealdade, tendo, aos 18 anos, concorrido para o Exército Português, de modo a integrar a Banda Militar dos Açores, onde passei seis anos. Foi nesta fase que consolidei e adquiri conhecimentos que me permitiram pensar seriamente num futuro na música, o que me fez concorrer alguns anos mais tarde ao Ensino Superior. Em 2015, fui transferido para a Banda Militar do Porto e iniciei os meus estudos na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo. Actualmente, encontro-me a finalizar o Mestrado em Ensino da Música, integrado na ESMAE e na Escola Superior de Educação.

Qual o primeiro instrumento musical?
Foi uma escolha difícil, porque estava dividido entre clarinete e trompete. Mas sempre toquei clarinete, são quase 17 anos ligados a este instrumento, com algumas breves passagens em instrumentos da família. No meu segundo ano na banda, tive alguns meses a tocar clarinete requinta, instrumento um pouco mais pequeno que o clarinete soprano, mas pertencente à mesma família e funcionando da mesma forma.

Quais os mentores de referência na sua carreira de músico?
As minhas grandes referências são os meus professores de instrumento, que me permitiram aprender uma arte tão nobre como a música e um instrumento versátil, mas também pela ligação humana e pelos valores transmitidos. Numa fase inicial, o Mário Pacheco foi o pilar da minha formação. Foi com ele que aprendi as primeiras notas e que desenvolvi o gosto pelo clarinete. Tempos mais tarde, o Carmino Melo assumiu os destinos da Banda Lealdade e foi com ele que cresci a todos os níveis. Foi uma pessoa que me colocou desafios, na tentativa inata que os superasse, seja na Lealdade ou na Banda Militar, onde foi meu professor na especialidade. Por fim, o meu actual mentor e figura do panorama do clarinete no nosso país, António Saiote. Pela personalidade, pelo que representa, mas acima de tudo por ter acreditado em mim. É um professor que incute o pensamento crítico e reflexivo constantes, algo importantíssimo para o crescimento musical e pessoal. 

Prefere ser executante de uma orquestra ou de uma banda filarmónica?
Na minha opinião, ter a possibilidade de tocar em conjunto é algo que desfruto com muita naturalidade, até porque as funções de clarinetista em cada um dos agrupamentos são distintas. Nas orquestras, o clarinete muitas vezes assume um papel solístico ou realizando pequenos agrupamentos de música de câmara em plena obra, enquanto nas bandas filarmónicas, e de uma forma geral, o clarinete desempenha uma função mais direccionada para o colectivo. A nível social, é cada vez mais necessário tocarmos em colectivo, independentemente do agrupamento em causa.

Que concerto destaca neste seu percurso?
Considero todos os concertos que realizei com o mesmo grau de importância, mas talvez possa destacar um em diferentes situações, por terem sido marcos ou pontos de viragem no meu percurso. Os meus recitais finais de licenciatura e mestrado foram marcantes, por terem sido acompanhados pela Elsa Silva, uma pianista de excelência, mas também por estarem na plateia muitos amigos e familiares que estavam lá propositadamente para me ver. Em agrupamento de música de câmara, destaco o concerto na Casa da Música com o Trio Lacos, composto por oboé, clarinete e fagote, inserido no Festival Internacional Harmos. Com a Orquestra da ESMAE é muito difícil, porque tive a oportunidade de tocar grandes obras do repertório para esta formação. Mas posso destacar o último que colaborei, onde foi possível tocar uma das obras mais icónicas de Stravinsky, como é “O Pássaro de Fogo”. Em banda foram muitos, mas talvez destaco o concerto inaugural da Banda Sinfónica de São Miguel, devido ao repertório e à génese do projeto.

Qual o papel das bandas militares na sua carreira musical?
A minha passagem pelas bandas militares dos Açores e Porto foram fundamentais, na medida em que desenvolvi competências que dificilmente iria adquirir noutra instituição, uma vez que o meu percurso só passou pelo ensino oficial de música numa fase tardia. Tive a sorte de ter colegas de grande nível em meu redor, tendo sido possível entender como poderia evoluir e aumentar os meus níveis motivacionais. A componente mental foi igualmente essencial para conseguir superar-me, através da perseverança e resiliência que fui obtendo através das experiências ao longo destes 7 anos no Exército Português.

O que pensa do trabalho feita pela Lira Açoriana?
Qualquer projeto que dinamize a música jovem nos Açores é algo que deve ser acompanhado com muita atenção. O facto dos jovens músicos açorianos poderem trabalhar com maestros de renome e com formadores de qualidade torna-se importante para o desenvolvimento artístico, tal como é igualmente relevante estes jovens conhecerem a realidade dos colegas de outras ilhas do arquipélago e trocarem experiências. Em Portugal Continental existem agrupamentos de jovens para banda sinfónica, mas nenhum se assemelha aos contornos adpotados por este projeto. Fui membro em duas fases muito distintas e em ambas considero que saí mais capaz. Porém, acho necessária a existência de mais actividades que permitam aos músicos dos Açores poderem obter mais formação de forma mais regular, adequada aos diferentes níveis, permitindo, assim, motivar todos os músicos.

Qual tem sido o papel das filarmónicas no ensino da música nos Açores?
Ao longo de séculos de existência, as bandas filarmónicas têm sido mais do que simples escolas de música do povo, são autênticas escolas de vida. Se escuto os músicos com mais anos nas bandas a falarem de histórias passadas, é porque muitos deles também o fizeram como eu e assim sucessivamente. Já assisti a várias situações onde a banda era o porto seguro para os mais jovens ou onde um miúdo mais tímido conseguiu fazer amigos. A filarmónica nunca será apenas a banda, há uma vertente social muito forte e será importante nos próximos anos fortalecer esta tradição secular.

Qual o instrumento da sua eleição?
O clarinete, naturalmente. Pelas propriedades físicas, sonoras, pela ligação afectiva e emocional desde o começo.
Já foste dirigido por maestros de grande nome. Fala-nos destas experiências no teu percurso musical.
Creio que todas estas experiências foram gratificantes, porque cada maestro tinha a sua forma de ver e pensar a música ,tal como formas distintas de gerir um grupo de trabalho. Na minha óptica, é a partir das diferenças que podemos obter o nosso gosto pessoal e assim ter a oportunidade de escolher como podemos fazer a nossa própria música no futuro. Em cada momento tentei cumprir, na perspectiva de aprender e desempenhar o meu papel da melhor forma possível.

Que projectos tem para o futuro na área da música? 
No imediato, tenho como objectivo principal terminar o Mestrado em Ensino, encontrando-me actualmente na reta final. Ainda este ano ambiciono realizar um projeto que está associado ao meu projeto de investigação, algo ainda por definir face às actuais circunstâncias. Posteriormente, gostaria de leccionar e, em simultâneo, colaborar com alguma regularidade com alguma orquestra ou agrupamento de música de câmara.

Como caracteriza o património cultural dos Açores, em termos de filarmónicas, relativamente ao resto do país?
Os Açores têm a média mais elevada de filarmónicas por habitante em Portugal, o que faz com que tenhamos responsabilidades acrescidas sobre o modo como devemos preservar o que os nossos antepassados nos deixaram. Em muitos casos, temos filarmónicas centenárias, com um espólio e história riquíssimos. Acredito seriamente que os arquivos musicais de muitas instituições contêm exemplares únicos de manuscritos musicais e obras originais de compositores açorianos. Decerto será do interesse dos municípios locais em apostarem na preservação deste património, que em muito poderá contribuir para a ilustração da história, não só da instituição, mas também de figuras importantes que habitaram e colaboraram com estas instituições. A tradição das filarmónicas nos Açores ganha um outro tipo de contornos devido à forma como estas enfrentaram as adversidades, muitas delas provocadas por fatores resultantes da insularidade. Também a lacuna na diversidade de instituições de aprendizagem na música (comparativamente ao Continente, onde é encarada com naturalidade a passagem da escola da banda para o conservatório ou escola profissional), faz com que valorize o músico açoriano e o trabalho feito nos Açores.

Vivendo no Porto, tem saudades dos Açores?
Não existe um dia em que não esteja ligado aos Açores. São Miguel foi o local onde cresci, onde a minha família habita e tento estar em contacto com as notícias locais. Consegui vir para uma cidade que considero ser a minha segunda casa, habitando um lugar muito especial na minha mente, mas os Açores estarão sempre no coração.

Contas regressar aos Açores para o ensino da música?
Se existir a possibilidade, não fecho as portas a um eventual regresso para o ensino do clarinete, embora reconheça que seja uma decisão que não dependa de mim e da minha competência. No entanto, e no que depender de mim, gostaria imenso de regressar.

Como viveste esta pandemia?
Infelizmente tinha acabado de regressar dos Açores quando a situação se complicou em Portugal continental. Como tal, passei o confinamento em casa no Porto, onde permaneço desde então, em redor dos projectos que tenho actualmente em mãos, aproveitando para estudar e para falar com a família e amigos. 
          

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