14 de junho de 2020

Cesto da Gávea

Re-qualquer-coisa

O prefixo “re” deverá ser aquele que mais uso tem tido nos últimos meses, ainda que a sua utilização tenha estado presente em tudo o que é promessa e programa eleitoral, especialmente desde que a herança socrática mergulhou os portugueses no endividamento. O homem saiu da cadeira do poder político, retomando uma vida de cidadão comum, embora com caraterísticas pouco comuns e perspetivas incertas, mas a sombra persiste na recuperação do país, expressa na necessidade de retomar a economia, refinanciar o Estado, as empresas e a dívida pública e privada, reindustrializar a produção nacional e reequipar organismos públicos, sobretudo na área da saúde. Nesta última, o reequipamento não é só em aparelhos e tecnologia, é sobretudo em recursos humanos qualificados que o nosso Ensino Superior produz e vão para o estrangeiro, onde ganham mais e têm carreiras onde o mérito é reconhecido. A invasão pandémica em curso veio pôr a nu as fragilidades de muitos setores da atividade humana, em Portugal como no resto do mundo – e não vai ser fácil regressar ao antigo “business as usual”.
Há cerca de 1 mês, a imprensa internacional divulgou números da UNCTAD, o organismo das Nações Unidas que segue os fluxos do comércio mundial, os quais indicavam que a quebra comercial global, no 2º trimestre deste ano, vai atingir 27%. A queda será sentida principalmente no setor da exportação automóvel, das peças de maquinaria e na área dos produtos petrolíferos, tudo consequências da covidiana pandemia, que já tinha feito cair 3% a economia no 1º trimestre. Segundo o jornal britânico “Guardian”, uma fonte geralmente fiável e independente, nem mesmo a retoma na China conseguiu que a indústria do país fosse além duma média de 70% da habitual, o que, tratando-se da 2ª economia mundial, tem reflexos a curto e médio prazo. As quedas de preços das matérias-primas, incluindo alimentares (“commodities”, no palrar internacional) exportadas por países mais pobres – aqueles a quem os politicamente corretos chamam piedosamente “em vias de desenvolvimento” – perderam à volta de 30% entre janeiro e fim de março passados. O petróleo bruto ou “crude” desceu 33% em março, enquanto os minérios e produtos agrícolas caíram 4%, o que permite concluir como os preços do petróleo eram e são uma exploração vergonhosa e como o agroalimentar tem preços à produção espremidos ao limite. Sabemos disso na lavoura açoriana, especialmente na fileira do leite, a exigir medidas urgentes de intervenção governamental. Apesar da equilibrada gestão política do dossiê pelo Engº. João Ponte, responsável pela  pasta agrícola regional, a dependência da produção em relação à indústria coloca barreiras difíceis de ultrapassar, uma vez que o desmantelamento das quotas leiteiras expôs o excesso de produção. Associando à quebra no turismo, antevê-se uma retoma complicada sem uma profunda reestruturação açoriana da agricultura e pecuária.   
Um dos outros “re” diz respeito à reindustrialização portuguesa, tão balada tem sido nesta época conturbada. No entanto, quanto mais se insiste no tema, menos soluções se indicam, porque falar é fácil, mas agir é difícil, não vá a previsão falhar. Vislumbra-se uma oportunidade no sentido de visão do novo coordenador da retoma, Prof. Engº. Costa e Silva, ao qual não faltarão meios vindos da União Europeia ou janelas industriais, adormecidas pelo torpor das importações fáceis, embaratecidas pelas entradas do boom turístico. Metalo-mecânica, maquinaria, fabrico de peças, o que resta da construção naval, além de muitos mais setores onde tivemos qualidade e competitividade, podem ser reavivadas, sendo suficiente uma planificação correta e objetiva. Uma das janelas de oportunidade é a conceção e fabrico de equipamento médico, percebendo-se mal como foi possível andar tanto tempo a importar “mascarilhas” do estrangeiro, quando a indústria nacional e mesmo regional o poderia fazer a tempo e horas. Nos Açores, a plêiade empresarial do século XIX/XX antecipou-se à História; adormecidos pelo “bem-bom” europeu, nós andámos a reboque dela. Culpa nossa, mas também de um sistema democrático que aposta no peso do Estado para controlar subtilmente a sociedade civil, esquecendo o preço que mais tarde ou mais cedo irão pagar. A prova está no endividamento galopante do País e da Região, onde, salvo raras exceções, é mais premiado o mérito político-partidário que o profissional. Se Portugal, agora no pós-Covid a caminho dos 135% de dívida pública, vier a receber 19 milhões de euros diários da fonte europeia, caberiam aos Açores, proporcionalmente à população, aproximadamente 2,4% (456.000 euros/dia ou mais de 166 milhões anuais, de 2021 a 2027). Ao fim de 7 anos, seriam novos 1.165 milhões, o que parecendo muito, talvez não chegue para alimentar velhos vícios. Não reenfiemos mais barretes, semelhantes àqueles compridos sacos plásticos de enfiar pela cabeça que os bombeiros de Ponta Delgada receberam para proteção antivírus. Ridícula, esta re-qualquer-coisa!

Nota de Redacção: O artigo do Professor Doutor Vasco Garcia publicado na edição de ontem saiu  com o título correcto mas com o texto que fora publicado na edição do passado Sábado, pelo que hoje publicamos a versão correcta. Pelo facto, as nossas desculpas ao nosso ilustre colaborador e aos nossos estimados leitores.

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Categorias: Opinião

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