14 de junho de 2020

Entre o passado e o futuro

Agora, os Açores primeiro

Depois da suspensão da economia e confinamento obrigatórios, do medo e da incerteza generalizados, tanto mal por uma causa que não originámos, somos simultaneamente testemunhas e vítimas duma catástrofe económica sem precedentes. As circunstâncias difíceis exigem agora, no nosso próprio interesse, que com determinação e muita coragem rapidamente nos convertamos em obreiros do renascimento da realidade social e económica interrompida ou destruída. 
“Uma história de perda é uma proposta de restauro”, escreve Snyder, reputado historiador americano. O passado ensina que não há crise sem uma causa, uma saída e uma lição. 
A causa desta vez foi uma pandemia anquilosante e letal, não o estouro duma “bolha económica”. Gerou restrições sociais e económicas improváveis. Reclama medidas de recuperação inovadoras. 
A saída consiste na injeção de liquidez na economia e no lançamento de um programa social público que evite o aprofundamento das desigualdades e o alastramento das situações de pobreza. A lição indica o caminho da cooperação internacional com a categoria de urgente e universal. Se não for efetiva no âmbito do relacionamento multilateral e institucional o projeto de restauro da economia perdida será fragmentário, contingente e de efeitos medíocres. Só a cooperação internacional permitirá que a retoma seja um processo de execução potenciador, continuado e célere. A quebra do relacionamento económico internacional desenvolvido intensamente nas últimas décadas agudizará as dificuldades no reatamento da atividade económica, erguerá novos muros e estimulará “guerrilhas económicas” que levarão muitas décadas a cair e a desaparecer. Agora, mais do que ideologia, precisa-se de cooperação económica, de planeamento e concertação internacional no âmbito do G7, G10, G20, ou o que for. Mas deles especialmente.
Nos Açores a paragem abrupta da atividade económica foi longa com efeitos cruzados e negativos relevantes. Cresceram as dificuldades e as incertezas em todos os domínios, especialmente nos mais nevrálgicos: fileira leite/laticínios no qual se eterniza a questão do preço do leite e que ameaça perturbar ainda mais o setor; turismo de alojamento tradicional e local, a bomba de injeção de liquidez na economia regional que se avariou; a restauração responsável pelo emprego novo ainda está em pânico; o comércio local caiu; as exportações diminuíram; os transportes marítimos e aéreos tremem; a transportadora regional de capital importância para a economia e coesão açoriana agravou a sua periclitante sustentabilidade; novos investimentos foram cativados. 
Agora, urge repensar, planear e executar. A recuperação é mais do que um objetivo regional é uma obrigação que recai sobre todos, que só se extingue pelo seu cumprimento.
Os Açores necessitam de dois planos: um plano operacional de aplicação e efeitos imediatos e um plano estruturante e de legislatura subsequente. 
O primeiro tem objetivos de curto prazo. É um modelo socioeconómico de reação à crise, integrador e orientador da recuperação imediata dos segmentos ou setores de atividade mais atingidos e de recuperação urgente. Deve prever a origem e a alocação dos recursos financeiros, os instrumentos de execução e as medidas calendarizadas.
O segundo tem objetivos a médio prazo, para uma legislatura, suportado por um modelo regional de desenvolvimento económico, proteção da economia, defesa do ambiente e da biodiversidade.
Tem de considerar a economia do mar dos Açores, as pescas que carecem de orientação estratégica e a indescartável rede de comunicações por cabos submarinos, hoje em fim de vida, que é demasiado importante para ser gerida por uma empresa privada; não descuraras múltiplas aplicações da geotermia como fonte de energia alternativa e limpa; recuperar a posição geográfica da ilha de Santa Maria no âmbito da nova estratégia nacional para o espaço; valorizar a agropecuária num quadro de cooperação estável e institucional entre produção e indústria; definir uma solução estrutural, orgânica e operacional para as duas “SATAS” baseada no seu mercado natural; integrara atualização da lei das finanças regionais e a substituição dos avales do Estado pela mutualização da dívida da Região.
Vivemos uma oportunidade única para retirar os Açores da cauda do índice nacional do desenvolvimento regional sem afetara sua posição de topo no índice de qualidade ambiental. É o momento para cada um se questionar sobre o que pode fazer mais pelos Açores. 


 


 


 

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Categorias: Opinião

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