“A pobreza sente-se e cheira-se. A maior dor fica é na alma e não no corpo”, diz quem é pobre e um dia ajudou os pobres

Os números da pobreza nos Açores, ou em qualquer parte, não têm rostos, mas números. Nesta Região, com belezas naturais estonteantes e convites aos turistas mundiais para passarem dias férias em ilhas paradisíacas, habitam milhares de pobres, e dentro desta pobreza há uns mais pobres do que outros mas que não deixam de ser pobres. Tanto assim é, que num dos trabalhos do sociólogo Fernando Diogo, também professor universitário, não há dúvidas de que “a pobreza nos Açores apresenta um valor alto, envolvendo cerca de um em cada três residentes”. Se só este dado já era o bastante, o também professor universitário diz que “o que podemos observar é que os Açores têm, de longe, a maior percentagem de população residente com o estatuto de beneficiário do RSI. De facto, o valor dos Açores representa mais do que três vezes a média e é verdadeiramente singular no contexto nacional. Se a taxa de pobreza dos Açores se situa nos 117,3% da nacional (dados do IDEF), no caso do RSI a taxa açoriana corresponde a 375% do seu equivalente para o conjunto do país. Por isso, esta questão merece algum aprofundamento”. E se os números se revelam assustadores, imagine-se, se for possível, pensar/sentir como quem convive diariamente com a pobreza. “Ninguém tem ideia do que um pobre sofre. Sofre porque não dinheiro para comprar comida e se consegue alguma comida sofre porque não tem dinheiro para comprar o gás. Mas se tem tudo isso, por alguns dias, sofre porque não pode pagar a luz e a água. Enfim, se um pobre consegue dinheiro para alguns bens, sempre falta para outros tão importantes como comer”, diz José, nome fictício, que vive frente ao mar, “o melhor que a natureza dá e cujo horizonte permite sonhar com dias melhores”. Não se pense que se fala de um pobre que não trabalha, fala-se sim de um pobre que ganhava um ordenado médio e que perdeu o emprego, antes da Covid-19, situação agravada pela pandemia. 
“Parece que foi ontem que fui à minha primeira entrevista de trabalho, mas já lá vão mais de uma dúzia de anos, que fazia parte dos quadros da empresa para a qual dediquei parte da minha vida. Assisti a tantos episódios de pobreza, e sempre tive o cuidado de dentro das minhas posses financeiras, colaborar com os que mais precisavam, nomeadamente com o Banco Alimentar.  Em momento algum imaginei que viesse um dia precisar dele também. Sinto que, o meu caso é um tanto ou quanto diferente dos denominados pobres, pois sempre fui dono de uma vida relativamente estabilizada, mas tal como eles hoje preciso de ajuda do Banco Alimentar”.
A Covid-19 veio alterar de todo a minha vida, deixei de ter qualquer tipo de rendimento e nos dias de hoje o mais difícil é mesmo ter esperança de voltar a arranjar emprego na minha área. Foram-se todas as esperanças. O desespero começou a comandar o meu dia e antes de cair no abismo total procurei ajuda, não junto da família, porque é pequena e a viver semelhantes dificuldades, mas sim ajuda das instituições ajudam pobres e sem-abrigo. Uma das minhas bases foi-se por água-abaixo e o orgulho tive-o que o engolir a seco. Cheguei ao ponto de ter de pedir ajuda para poder sobreviver, tive direito por parte do ISSA a apoio à renda e uma pequena verba para alimentação e higiene pessoal. Mas todo o resto continua mesmo a faltar! Como pagarei a água e a luz, sim, porque o serviço de cabo já mandei suspender.
Sinto-me a fazer uma caminhada em direcção ao desconhecido, o impacto que esta pandemia provocou na minha vida foi de tal maneira brutal, que já solicitei apoio psiquiátrico e vou sendo apoiado por esmolas dos meus mais chegados que com pena me vão apoiando e tentando elevar o meu ânimo.
Se esta pandemia não fosse global, estaria a viver novamente a era das grandes emigrações dos açorianos para outras paragens, mas até neste sentido também não é possível almejar algo de positivo noutros países.
Sempre ouvi dizer que depois da tempestade vem sempre a bonança, mas até ao momento continuo sem saber o que vem depois de uma doença que é um «tsunami mundial». Esta pandemia não veio abalar mais a vida dos pobres, veio destruí-los completamente, mexer fortemente com os alicerces da classe média e abalar seriamente a alta-roda financeira. Por agora, o governo está a conseguir acudir quase todos para não morrerem de fome, como vai ser o futuro se uma nova vaga chegar”, pergunta José, um homem manifestamente descrente quando à distribuição da riqueza.
“Vive-se uma era de esperança e fé e de apoio alheio, de resto não sobra mais nada”, opina José para quem a maior dor não é a falta de comida, porque a recebe de várias instituições, é perceber que a Covid-19 também fez com que a comida devido, ao fecho dos restaurantes, era mais à base de sopa e de pão recheado com queijo ou fiambre. “Ninguém passa fome, é verdade, mas sente-se a pobreza pelo tipo de comida que comemos. Sente-se a pobreza pelo tipo de produtos de higiene que compramos, porque não há dinheiro para mais. A pobreza sente-se e cheira-se. A maior dor fica é na alma e não corpo”, remata José, que mesmo numa situação difícil garante que o governo tem feito tudo o que é possível para ajudar, mas é certo que é impossível acabar com a pobreza, porque mesmo quem trabalha e ganha o ordenado mínimo é pobre”, garante, defendendo que o que tem de haver é um programa bem estruturado, envolvendo vários especialistas, para ajudar os pobres a conviver com a pobreza. “A não ser assim vamos ter muita gente com problemas psicológicos, porque enfrentar a pobreza dia após dia dói, e muito”.
     

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