Vila Franca vai viver o São João nas varandas e com espectáculo virtual

 Correio dos Açores – Este ano não se realiza a festa de São João da Vila’devido á pandemia. O que representa para si a ausência da festa?
Ricardo Rodrigues (Presidente da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo) Tristeza. Os vilafranquenses, e quem nos visita por esta altura, vivem com alegria as festas em honra de São João. Em contraponto com a alegria da festa, a sua ausência significa tristeza para todos nós.

Alguns vila-franquenses já têm as varandas enfeitadas com fotos de Santo popular, balões e outros símbolos. Qual o apelo que faz à população de Vila Franca para manter vivo o São João, apesar de não haver marchas?
A Câmara incentiva, naturalmente, que cada um, ao seu modo, possa festejar, possa representar aquilo que os identifica com o São João. E todos terão o exemplo que a Câmara Municipal vai dar, decorando a Rotunda dos Frades, local de onde saem anualmente as marchas, com objectos e motivos alusivos ao São João que, ao longo do tempo, representaram muito do trabalho das marchas. Ou seja, muitos pendões, muitas artes decorativas que foram realizadas em anos anteriores vão estar em exposição. A Câmara dá o exemplo de que é possível lembrar, é possível recordar, é possível vivermos alguma festa do São João, naturalmente, sempre com as regras do distanciamento físico. Se cada cidadão puder colaborar, se puder ajudar, claro que sim, torna sempre Vila Franca um local visitável com as distâncias físicas adequadas.

Está a dizer aos vilafranquenses que, se puderem decorar as suas varandas, tanto melhor…
Sim, sim, tanto melhor. Nós continuaremos a ter o feriado municipal, que é no dia 24 de Junho. Se as pessoas puderam colaborar tudo bem, nós não quisemos motivar de forma a pedir a todos que o fizessem, porque cada caso é um caso, e há pessoas, que respeitamos, que podem não estar motivada para isso. Mas claro que seria bom que todos pudessem colaborar um pouco e mantermos viva a festa como expoente dessa alegria no dia de São João.

Qual a sensação que lhe fazem chegar os responsáveis pelas marchas, os marchantes e a população em geral?
É de frustração e tristeza. Como é sabido, todo o concelho de Vila Franca se mobiliza durante alguns meses para viver e/ou participar nas marchas. São os ensaios, os encontros que se realizam, tudo isso faz parte do São João e essa falta de convívio e essa falta de contacto uns com os outros, essa alegria, tudo isso deixou de existir. Ou seja, não se realiza aquilo que todos os anos caracteriza muito o povo de Vila Franca e, por isso, há uma sensação de tristeza e frustração. Mas, naturalmente que todos compreendem as razões que estão subjacentes a essa situação.

Apesar da forma de estar festivaleira dos vilafranquenses, a pandemia passa ao lado de Vila Franca?
É verdade, mas sabe que nós somos todos muito pequenos. São Miguel, apesar de ser a maior ilha dos Açores, não deixa de ser um espaço confinado e qualquer situação que ocorra num concelho vizinho é potencialmente instigadora que também possa acontecer em Vila Franca. 
É verdade que nunca tivemos uma situação concreta que tivéssemos de gerir com alguma dificuldade, mas estivemos sempre solidários com todos e sempre na expectativa do que possa vir a acontecer. Como sabemos, o vírus não acabou, ele anda por aí. Eventualmente, não estará em São Miguel, não sei, mas anda por aí. Portanto, as cautelas e todos os cuidados são sempre necessários para manter a saúde de todos nós salvaguardada.

No dia de São João, se uma esplanada tiver um grelhador de sardinhas, está dentro da lei?
Está! Está dentro da lei, está dentro da lei o grelhador em si, não está dentro da lei se isso provocar um ajuntamento de pessoas em que não estejam salvaguardadas as distâncias físicas e as regras de higiene respiratória. Desde que isso esteja salvaguardado não há problema nenhum.

Está a dizer que pode haver um grelhador para sardinhas e uma fila respeitando as distâncias?
Exatamente, respeitando as distâncias, respeitando as regras da autoridade de Saúde. Se assim for, não há problema absolutamente nenhum. Quer dizer, não estamos mortos, estamos vivos. Agora, não acredito muito que, face a uma situação concreta de um local onde se faça sardinhas na grelha, ao fim de meia hora, uma hora, não esteja a descambar para uma situação incontrolável em termos de saúde pública e, por isso, não é aconselhável que se inicie esse processo. Agora, se todos se souberem manter com as regras próprias, não vejo inconveniente.

Milhares de pessoas nessa altura de São João, quer de São Miguel, dos Estados Unidos e do Canadá, deslocam-se, habitualmente, a Vila Franca para assistirem às marchas. Este ano isso não acontece, o que tem um impacto económico inevitável no comércio, na restauração, nos bares…
Claro que tem. Claro que tem um grande impacto económico. Tem um impacto económico nas áreas do comércio, restauração e similares, da hotelaria. Tem também um impacto económico em todas as actividades conexas com a própria realização das festas e das marchas, desde os electricistas até às costureiras e, principalmente, os artistas.
 Vamos realizar um espectáculo virtual com todos os artistas vilafranquenses que costumam participar nas noites de São João. Portanto, na noite de São João, de 23 para 24, vamos organizar um espectáculo virtual, a que todos podem ter acesso na net, com todos os artistas. Mas a verdade é que o virtual tem características próprias mas que, na minha opinião, satisfaz um núcleo restrito, mas não satisfaz a população em geral. Até porque a sua visualização é individualista, não cria a ideia de conjunto e de massa. Mas, de qualquer maneira, não nos esquecemos dos nossos artistas que, durante muitos anos, colaboraram com as festas de São João.
Temos vários artistas de fado, de rock, de entretenimento, e vários conjuntos de Vila Franca do Campo que farão esse espectáculo virtual na noite de São João.

Qual a programação que a Câmara faz para a reabertura da piscina natural do ilhéu?
Esta é uma área do Governo Regional. Em todo o caso, as regras já estão estabelecidas. As regras gerais do ilhéu são 200 pessoas em permanência e 400 pessoas por dia. Ora, 200 pessoas em permanência garantem um distanciamento físico adequado. O barco terá limitação de quantidade, ou seja, levará dois terços das pessoas, da lotação que está autorizado. Vai haver mais dificuldades no transporte. E vai haver barcos a partir de 20 de Junho, próximo Sábado.

Os escorregas do Aquaparque estão a ser desmantelados, no bom sentido…
Ou melhor, estão a ser reconstruidos. O investidor - empresário da Europa oriental - adquiriu a sociedade Atlânticovila há mais de um ano. E uma das premissas dessa aquisição era a reconstrução do Aquaparque e ele está a fazê-lo. Porém, há este ano limitações muito severas quanto à utilização desse tipo de infra-estruturas e confesso que, neste momento, não sei se ele vai abrir ou não, mas se não abrir compreendo perfeitamente as razões. E, portanto, estão justificados os atrasos para a abertura do Aquaparque. Em todo o caso, neste momento, sei que estão em obras, mas não sei se vão abrir ou não.

O que está a dizer é que do contrato faz parte a abertura do aquaparque este ano e não abre devido à pandemia?
Exactamente! Eu acho que ele tem razões suficientes para não abrir porque terá limitações muito fortes à entrada, não pode ter os utilizadores que desejar, até porque está limitado. Por isso, a Câmara compreenderá se ele não abrir.

A marina de Vila Franca está perto do limite de sobrelotação. Gostaria de estar perante um cenário de ampliação da marina?
Já aumentamos um pontão durante o meu mandato. A marina já tem um número bastante satisfatório de embarcações, mesmo daquelas de fora de Vila Franca, de Ponta Delgada por exemplo. Agora, não faz parte das prioridades da Câmara aumentar a marina de Vila Franca do Campo neste mandato.
Em próximos mandatos, alguém, o próximo elenco camarário poderá…

…Pode ser o Dr. Ricardo Rodrigues?...
Isso ainda não decidi. Mas não excluo que se possa aumentar a marina. Tem espaço para isso e ainda se pode aumentar mais a sua capacidade.  
 
O confinamento levou a que se fizesse uma reprogramação de eventos que estavam previstos para o Açor Arena. Este vai ser mesmo um ano para esquecer?
Sim, vai ser para esquecer. E neste particular porque vamos fazer obras no Açor Arena. Obras de melhoria e de conservação do imóvel. Nunca tinha sido feito e vamos fazer esse investimento. O contrato de empreitada já está assinado. Em meados de Julho o Açor Arena deve entrar em obras. Trata-se de um investimento de cerca de 450 mil euros.

A que é que se deve o endividamento do Açor Arena? Está resolvido? A gestão já está em velocidade de cruzeiro?
No dia 18, ou seja, amanhã far-se-á a escritura de mitigação da sociedade e de internalização do activo e passivo da infra-estrutura na Câmara Municipal. Neste momento, o passivo deve andar à volta dos 11,5 milhões de euros. O activo é o edifício propriamente dito e o financiamento foi acordado com o FAM (Fundo de Apoio aos Municípios).  

Já disse que era uma tristeza não haver São João da Vila em presença, não haver marchas, não haver festa, não haver arraial. Embora haja espectáculo virtual, os próximos dias vão ser de recordação de outros anos?
Sim, vamos vivendo dessa imagem. Mas, mais propriamente difícil será a noite de São João. Claro que agora todos os preparativos já estavam a acontecer. A abertura das festas teria sido feita no fim-de-semana passado e, agora, é ir contando os dias no sentido negativo do termo… a ver se podemos esquecer esse período.

Nessa altura já estava preocupado em acertar o passo…
Exactamente. As marchas já tinham de estar todas organizadas. Nós quando cancelamos, terá sido no início de Março, algumas marchas já tinham adquirido tecidos, já tinham feito as suas aquisições. E é verdade, este está a ser um período difícil, principalmente para os marchantes, pessoas que fazem desses três meses uma actividade muito criativa, solidária, muito amiga, muitos encontros, grande camaradagem e isso não existiu e não vai existir este ano, naturalmente, com pesar e uma frustração. 
Mas, pronto, julgo que todos entenderam a razão. Não se trata de uma questão de Vila Franca do Campo. Eventos desta natureza foram cancelados nos Açores, em Portugal, na Europa, no Mundo. E essa parte solidária, por um valor maior que é a saúde pública e a saúde de cada um de nos, é perfeitamente entendida. Apesar da tristeza, há uma razão mais forte que sustenta a decisão. Temos pena, mas é uma incapacidade, uma impossibilidade, uma contrariedade. A expectativa é que, para o ano, a gente consiga fazer força em duplicado para pôr as marchas na rua e continuar o São João da Vila como todos gostamos. 

Quer acrescentar algo que considere importante?
Deixar uma palavra de esperança aos vilafranquenses e a todos aqueles que apareciam em Vila Franca no São João. Uma palavra de esperança no sentido que vale a pena esse esforço, vale a pena termos estado confinados, vale a pena nós termos tido a energia e a solidariedade de mantermos os Açores e São Miguel numa linha correcta de limitações. Agora é ir com responsabilidade, mas também com energia, levantando lentamente todas essas limitações, mas ao mesmo tempo também garantindo a segurança e as regras a que todos estamos obrigados, no sentido de continuarmos tranquilos e ultrapassarmos essa fase difícil na expectativa de que a curto, médio prazo, possa ser descoberto um medicamento ou uma vacina que nos faça voltar a uma vida normal tão breve quanto possível. E por isso mesmo, também, essa esperança que o esforço valeu a pena e que para o ano estejamos aqui cheios de energia e em força para poder festejar.    

 João Paz/Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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