Associação de Guias de Informação Turística dos Açores (AGITA)

Guias Turísticos estão preocupados sem saber quando voltarão a ter serviço e pedem legislação específica para exercerem profissão

No início de Março deste ano, os guias de informação turística a trabalhar nos Açores já pretendiam unir-se numa associação. Já estava formada uma comissão instaladora e estavam agendadas eleições, mas a pandemia provocada pela Covid-19 veio alterar os planos e só no passado dia 5 de Junho houve eleições para a primeira direcção da Associação de Guias de Informação Turística dos Açores (AGITA).
Os guias sentiam necessidade de uma associação e acabaram por unir-se em torno de um assunto em comum: contra a requalificação do miradouro da Lagoa do Fogo, que o Governo Regional realizar. “Nós somos muito contra esta intervenção do homem naquela beleza natural. Aquela construção megalómana, com um túnel e dentro de uma reserva natural. Daí, acabou por se formar a AGITA e levámos avante a formação da associação”, conta a Vice-presidente, Filipa Martins. 
Essa foi uma das razões, já que antes da pandemia e quando se vivia um grande desenvolvimento do turismo na Região, “sentíamos uma grande necessidade de ter uma Associação de Guias”. No passado já houve uma associação semelhante que deixou de funcionar mas nos últimos anos os guias sentiam necessidade de se unir e de alguém que os representasse. Principalmente porque sentiam “muita falta de certificação dos guias e até da própria fiscalização”, conta Filipa Martins. 
A Vice-presidente da AGITA denuncia que “qualquer pessoa chega cá, vinda de outros países, e faz de guia sem contratar um guia local. A nosso ver, a legislação teria de ser alterada e posteriormente a fiscalização terá de ser mais pró-activa”. Estas eram as principais preocupações dos guias turísticos antes da pandemia. Porque “basicamente qualquer pessoa hoje em dia consegue fazer o trabalho de guia. Porque as carteiras profissionais a nível europeu estão paradas, não estão em funcionamento para uma maior facilidade e criação de emprego na Europa”, reconhece a representante da AGITA.
Embora nos Açores exista alguma legislação, para guia intérprete, em que se facilita que haja uma formação dentro da área do turismo, o Governo Regional tem uma bolsa de profissionais de informação turística e permite que os técnicos se associem a esta bolsa. 
Mas não há uma carteira profissional activa para estes profissionais e “a fiscalização que tem havido é no sentido de ver qual a formação da pessoa na área”. Afirma Filipa Martins que com alguma formação, qualquer pessoa poderá trabalhar como guia turístico “e vemos que falta fiscalização”. Principalmente nos casos de pessoas que vêm do exterior e que simplesmente fazem serviço de guia sem qualquer guia local a acompanhar e que em muitos países é obrigatório. “Gostaríamos que na Região fosse também obrigatório”, como forma de garantir que é feito esse acompanhamento local porque “às vezes a pessoa que cá vem nem sequer conheceu a Região antes. E damos por nós na Lagoa do Fogo e estão a falar como se estivessem na Lagoa das Furnas. Isso acontece. E queremos que quem nos visita tenha um retrato fidedigno daquilo que está a ver”. 
Falta legislação mais apertada e actualizada, pois apesar da carteira profissional ser legislação europeia “o Governo Regional poderá criar legislação específica regional, para contornar esta situação, para criar e permitir que seja feito um acompanhamento pelo guia local”. Além disso, também pode ser criada a nível regional uma certificação específica para guias “para que possamos acabar com situações em que qualquer pessoa, que vem de outras áreas até, e que anda a fazer de guia”, refere Filipa Martins.
E é por essa razão que a AGITA pretende marcar presença em todas as 9 ilhas e ter a figura de “delegado de ilha”, para uma maior proximidade e resolução de problemas. 
Filipa Martins conta que a Associação já conta com 52 associados de diversas ilhas mas que ainda não conseguiram chegar a todas. “Embora não tenhamos uma delegação física nas outras ilhas, temos a criação de uma figura que chamamos de “delegado de ilha” que é uma pessoa que acaba por ser representante da Associação na ilha onde trabalha. Promove a descentralização da Associação, que para nós é algo muito importante, permite uma maior coesão, e permite a qualquer associado ter um contacto directo e pessoal com um representante da Associação. Esperamos desta forma, dar voz a todos os guias de turismo dos Açores”, explica.

Guias em dificuldades
As incertezas do futuro trazem dificuldades para quem trabalha de Verão para poder sobreviver no Inverno. “As pessoas ainda estão com algum receio em viajar, e nós guias trabalhamos geralmente com grupos de pessoas já com alguma idade e sabemos que não tão facilmente iremos retomar o nosso serviço”, explica.
Os associados estão “bastante preocupados”, não só pelas medidas de apoio actuais anunciadas que em alguns casos “são bastante escassas e precárias”. Principalmente para pequenas animações turísticas, que foram criadas para complementar o serviço de guia, como a aquisição de carrinhas para transporte, e alguns profissionais “tiveram mesmo de encerrar”. 
Para estes profissionais, refere, “não é fácil saber realmente o futuro” já que não há certezas de quando estes grupos irão voltar aos Açores. “A incerteza é algo que está na mente de todos e todos os dias se queixam de não saberem quando poderão voltar a trabalhar”, ainda por cima depois de um Inverno longo e rigoroso que terminou em Março, depois de chegarem a São Miguel dois ou três cruzeiros para fazer excursões. O turismo, e os guias em particular, já se preparavam para mais uma jornada de Verão quando “parámos e deixaram de vir turistas. Deixámos de ter facturação. A facturação é zero. Estamos a meio de Junho e as perspectivas é que para Julho e Agosto não haja nada”.
É que, apesar de já se começar a falar na retoma da economia e do turismo e o Governo Regional já ter anunciado incentivos para o turismo inter-ilhas, os guias de informação turística não poderão ser abrangidos por esse incentivo. “As medidas como foram anunciadas apelam mais à saída de um casal, de uma pequena família, e embora seja necessário efectuar uma animação turística, muitos devem optar pelos carros de aluguer porque têm de ficar três dias, vão optar por ver baleias ou algo diferente, em vez de fazer uma excursão”, refere Filipa Martins. A AGITA apoia este incentivo do Governo para fomentar o turismo inter-ilhas “que gera economia e este tipo de turismo é bom, mas para o nosso trabalho, não vai fomentar a nossa actividade”. 
É que para grupos, numa carrinha de 9 lugares ou num autocarro para fazer excursões, é necessário planeamento, “não é uma coisa que se faça em cima da hora, como as famílias que chegam alugam um carro e visitam a ilha”. Essa é a expectativa do que poderá acontecer com este incentivo anunciado, retomando assim o turismo “embora não tão forte, ainda este Verão, mas para os guias isso não vai acontecer”. Só se o Governo “criar alguns grupos, começar a fomentar alguns grupos por juntas de freguesia ou câmaras municipais de outras ilhas, para virem em grupos pequenos organizados e aí contratar guias, porque senão a nossa perspectiva de trabalho é muito diminuída”. Talvez só em Setembro ou Outubro voltem os grupos de turistas para fazer excursões, caso contrário “a expectativa será só retomar no próximo ano, na Primavera e no Verão”. 
Até lá, os casos de dificuldades vão-se acumulando. “Viemos de um Inverno longo, estávamos em Março quando íamos recomeçar a actividade e íamos começar a ter os nossos ganhos. Digamos que o que tínhamos guardado para utilizar já estava no fim, porque sabíamos que íamos retomar em Março, mas ninguém estava a pensar que esta pandemia ia atacar o mundo desta forma. E o sector parou”, recorda. E muitos dos mercados que vinham para os Açores, estão a desmarcar todas as suas viagens e remarcar para o próximo ano. 

Massificação do turismo
É por isso que enquanto o turismo está parado e agora que a AGITA está formalmente constituída e a Direcção eleita, Filipa Martins acredita que é também tempo de repensar o turismo que se pretende para os Açores. Refere que agora que o turismo “nem tão facilmente será retomado” porque ainda há muito receio associado à pandemia da Covid-19, há que aproveitar “para se pensar em tudo isso” e na massificação de turistas que já se falava em alguns locais da ilha, antes da pandemia. “É a altura ideal para ver o que estava a acontecer de mal nos locais em que estava a notar-se a massificação, como é o caso da Lagoa do Fogo, e pensarmos em criar projectos que se adequem à nossa realidade e à realidade dos locais onde queremos implementar esses projectos”, conclui.                             

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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