O que pensam os açorianos da campanha “Viver os Açores”

É importante que passar férias em outra ilha seja mais barato do que sair dos Açores

A campanha “Viver os Açores”, da responsabilidade do Governo Regional dos Açores, foi apresentada recentemente e representa um investimento total de 1750 mil euros, com o principal objectivo de dinamizar o turismo interno na Região. 
De 16 de Junho a 31 de Dezembro deste ano, o apoio governamental poderá ir até ao limite máximo de 150 euros por pessoa no valor das passagens aéreas e de 100 euros, no caso de a viagem ser realizada por via marítima. O incentivo implica que os passageiros tenham de ficar três noites hospedados em empreendimento turístico, alojamento local ou pousada da juventude e que, realizem pelo menos três refeições, com o valor mínimo de 15 euros cada, em restaurantes da ilha de destino. Outro dos requisitos é a aquisição de uma actividade turística por pessoa, no valor mínimo de 30 euros.
O Correio dos Açores pediu opinião a alguns gestores ligados ao turismo açoriano e ao jornalista Osvaldo Cabral sobre este incentivo.. Todos enaltecem a campanha, classificando-a como positiva e destacam o facto de que esta servirá para os residentes conhecerem melhor as restantes ilhas. Mas também apontam algumas falhas e arestas a limar.
O jornalista Osvaldo Cabral chama a atenção para a excessiva burocracia inerente e para o facto de, esta campanha deixar de fora alguns segmentos da sociedade açoriana. Mário Fortuna, defende que a medida deveria dar mais liberdade de escolha e considera que  o “Viver os Açores” servirá como experiência para o arranque total do turismo na Região. O economista Monteiro da Silva elogia a medida e considera que os Açores deveriam promover melhor no exterior a pouca incidência dos efeitos da Covid-19.
O empresário Luís Rego defende que a proposta “poderia ser mais arrojada, no sentido de abranger outros segmentos da sociedade. Fernando Neves, empresário do sector da hotelaria, classifica-a como ”positiva” e refere que vai trazer movimento a algumas ilhas dos Açores, mas que terá “pouco impacto” em São Miguel. Segundo afirma, a campanha dará uma “boa imagem para o exterior” e movimentará a economia regional numa fase em que esta se encontra “praticamente parada”.
                                                                                   

A medida é boa mas podia chegar a mais açorianos

Luis Rego - Empresário: “A medida deveria ser mais arrojada e generosa...”

 “São importantes as medidas para fomentar o turismo interno e para dar oportunidade aos açorianos de conhecerem outras ilhas. Claro que gostaríamos sempre de mais, poderia ser mais arrojado como forma de permitir que fossem ainda mais açorianos a visitar as suas ilhas. Cada ilha é diferente e temos recantos espectaculares e é importante, não só para as gerações actuais como para as mais novas, criarem esse hábito. Muitas vezes não é preciso irmos muito longe e gastarmos tanto dinheiro, quando internamente temos condições tão boas ou melhores para desfrutar as férias. 
Quando digo que a medida devia ser mais arrojada é no sentido de ser ainda mais generosa e de abranger outras pessoas, outras camadas, outros segmentos menos abonados. Com maior apoio, a medida poderia contribuir para uma maior circulação de açorianos nas nossas ilhas.
Mas este é um bom incentivo para quem não tinha nada. Só que muitos mercados são mais competitivos e os açorianos conseguem fora da Região preços mais acessíveis em mercados maiores e mais competitivos. E é preciso que as outras ilhas sejam destinos mais acessíveis que outros fora da Região. 
O aluguer de automóvel é fundamental para poderem visitar e conhecer, de uma forma mais segura e em família, as outras ilhas. Há vários serviços que são obrigatórios e no caso de se dar o aluguer da viatura, a majoração poderia ser mais arrojada, poderia ter um valor mais significativo. 
Seria importante que a medida abrangesse um leque maior da nossa população.”
 

Mário Fortuna - Economista: “Este modelo gera uma burocracia considerável”

 “É uma boa medida. Esta é uma medida que as Câmaras do Comércio já tinham sugerido: Desconfinar os Açores entre ilhas, numa primeira fase, em preparação para aquilo que há-de vir também relativamente ao mercado nacional e ao mercado internacional. A medida, na sua concepção, pelo seu espírito, está correcta. Só que é preciso impulsionar mais o consumo. Temos algumas reservas relativamente à forma como ela está montada. Deveria dar-se mais liberdade aos viajantes para escolher. De resto, a medida vai no sentido que se pretendia para o re-arranque e para a retoma do turismo nos Açores.
É suficiente para dinamizar o turismo interno na dimensão que ele tem. E é preciso sempre ter em linha de conta que o turismo interno representa uma percentagem relativamente baixa em relação o total do turismo. Não temos grandes ilusões de que o turismo interno nos leva até a um certo ponto, mas não nos leva até ao ponto que seria necessário para retomarmos o conforto económico nos Açores. 
É uma medida importante sobretudo para exemplificar que os sistemas funcionam, para testar os sistemas. No nosso entender é um pré-teste para a retoma completa do turismo dos Açores. As reservas que nós temos são mais sobre a forma de operacionalização deste objectivo, de apoiar e de facilitar as viagens. As Câmaras de Comércio tinham sugerido um modelo bastante mais simples e que se baseava, sobretudo, na componente das viagens. De qualquer forma, melhor é ter alguma coisa a não ter nada. Este modelo pode, eventualmente ainda, ser melhorado para ser mais eficiente e para não gerar tanta burocracia. Este modelo gera uma burocracia considerável e obriga as pessoas a fazer um reembolso inicial. As Câmaras de Comércio vão apresentar soluções...”

Monteiro da Silva - Economista: “Considero esta medida adequada ao turismo interno”

 “Entendo que este é um programa adequado porque basicamente está direccionado especificamente para o turismo interno e, de facto, tem condições para desenvolver quer as unidades hoteleiras, quer as unidades de turismo local, quer a restauração, quer até os rent-a-car. 
Portanto, é uma forma directa e clara de subsidiar, praticamente sem burocracias, os instrumentos que nós temos nos Açores para receber bem os turistas, todos os turistas regionais. Da minha parte, concordo e considero muito adequada esta decisão. 
Não digo que seja uma medida suficiente porque vai durar muito tempo ainda para reanimar o turismo. 
Estas medidas relativas ao turismo interno, não são claramente suficientes porque vamos ter muita dificuldade, penso eu, para voltarmos a tornar os Açores novamente atractivos para o turismo nacional e para o turismo internacional. Penso que isso vai ser adquirido, mas vai demorar o seu tempo.
 Mas esta medida, para o turismo interno, parece-me perfeitamente adequada. 
Agora, é importante, acima de tudo e quanto a mim, promover o facto de os Açores terem muito pouco incidência, até ao momento, dos efeitos da Covid-19. Isso é que devia ser mais realçado em termos nacionais e internacionais. 
Não é naturalmente só com o turismo interno que vamos resolver o problema. Mas esta é uma medida adequada e penso que vai ter efeitos muito positivos porque, pelo menos se direccionarmos o turismo interno para as 9 ilhas dos Açores, penso que vai ser uma boa medida, uma medida que eu considero adequada.”      
 

Osvaldo Cabral - Jornalista: “Quantas famílias têm dinheiro para viajar?...”

 “A campanha faz todo o sentido, agora o modelo escolhido para incentivar os açorianos a visitarem as outras ilhas parece-me um monstro burocrático. O que não é novidade na máquina da Administração Pública regional. É muita papelada junta e um princípio que me parece errado: ter de pagar tudo à cabeça e depois esperar no fim da viagem por mais dez dias para receber, no máximo, apenas 150 euros!
O Governo Regional e o da República queixaram-se do modelo do subsídio de mobilidade e criaram um Grupo de Trabalho (sem resultados) para melhorar o modelo, e agora o Governo Regional cria um modelo pior para nos mobilizarmos entre as ilhas. Quantas famílias é que têm disponível os montantes para pagar os altos preços da viagem, do alojamento, do rent-a-car e refeições e esperar para mais tarde que lhe devolvam 150 euros? Isto parece-me criado apenas para o funcionalismo público, porque as famílias do sector privado, que ganham mal, estão em lay-off ou são precários, não dispõem de rendimento para pagar de uma assentada. Era preferível entregar o incentivo directamente à SATA e esta baixar as tarifas e quem reservasse alojamento e viatura receber um vocher de desconto no acto de pagamento também à cabeça. 
O mercado interno é uma ínfima parte do nosso turismo. Como se pode comparar quase 1 milhão de turistas do exterior, que nos visitaram no ano passado, com um mercado de 240 mil almas, em que nem metade viaja, porque não está no activo? Vai ajudar, certamente, mas não resolve nada!”
 

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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