19 de junho de 2020

Chá da Cesta - 34

Ilha da Madeira - II

Não deixa de ser curioso, o facto de Lau-a-Pan e Lau-a-Teng, os dois macaenses de etnia chinesa que vieram ensinar a fabricar o chá em São Miguel, terem parado na Madeira a caminho de São Miguel. Na terça-feira, 5 de Março de 1878, em nota da Alfândega de Ponta Delgada, confirma-se a chegada do ‘(…) Vapor Luso (…) vindo da Madeira e Lisboa (…).’1 Caetano de Andrade, esclareça-se, era o Presidente da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense à altura da chegada de Lau-a-Pan e Lau-a-Teng.
Continuemos a seguir a ligação da Madeira ao chá dos Açores. A 14 de Fevereiro de 1881, Caetano de Andrade, deputado Progressista eleito pela Ilha de São Miguel, ao iniciar a defesa da indústria do chá, dando conta do interesse comum destes dois arquipélagos pelo chá, defende que o chá ‘(…) não é uma questão só dos Açores e da Madeira,’ porque ‘é uma questão de todo o país.’ Neste ponto da sua apresentação, segundo a acta, mereceu dos seus pares alguns apoiados. Encorajado pelo bom acolhimento inicial à sua intervenção, sugere, em especial, o seu cultivo nas regiões ‘do Douro e do Minho (…),’ alegando uma razão candente na altura: “que conviria muito ir substituindo por esta a cultura moribunda da vinha.’ Ouve mais apoiados. E para convencer os incrédulos a investirem no chá, remata: a ‘cultura do chá’ é fácil. Sabia-o bem pois, sendo Presidente da SPAM quando vieram os dois chineses, também fizera parte da Comissão de acompanhamento da experiência do cultivo e fabrico do chá em São Miguel. Segundo Ernesto do Canto, seu sucessor na Direcção e membro da mesma comissão designado para elaborar relatório, a maioria daqueles membros, seguindo os Chineses, aprendera (ou assim presumira) rapidamente a manipular o chá. 
Retomando o fio à meada, o deputado às Cortes Caetano de Andrade tentava, daquele modo, conquistar aliados para a proposta de apoio à cultura do chá que iria em breve apresentar. Era um projecto, segundo ele, de tal maneira importante para a economia, que partidos rivais, tais como o Regenerador e o Progressista, haviam posto as suas divergências de parte para o apoiar. De facto, declarava Caetano, lograra juntar à causa os deputados regeneradores da Ilha de São Miguel Ernesto Rudolfo Hintze Ribeiro e António Augusto Sousa e Silva. Esquecera-se de dizer que fora o Regenerador (pouco militante) José do Canto, enquanto Presidente da Junta Geral do Distrito de Ponta Delgada, quem fizera a proposta. De volta à iniciativa de Caetano, este, certamente para que não restassem dúvidas acerca da utilidade estratégica da união entre partidos, a fim de os vincular à promessa de cooperação, julgou por bem afirmar publicamente que aquilo não era ‘(…) um conluio entre nós, como o acordo entre as palavras dos srs. Hintze Ribeiro, as do sr. Sousa e Silva e as minhas não significa que nós fizeramos, fóra d”esta questão insulana, um pacto de paz.”2 A 21 de Fevereiro, Caetano de Andrade de Albuquerque intervém novamente neste sentido.
Resultado? Fosse por que razão fosse, o representante da Madeira não assinou. Para além dos deputados da Ilha de S. Miguel, a proposta apresentada foi “assinada por um deputado de cada um dos distritos açorianos, e por outro do centro vinícola do Douro.” Foram eles: João Cândido de Morais, J. F. Abreu Castelo Branco, Alfredo Cezar de Oliveira e F. do Castro Monteiro. A proposta nem sequer chegaria a ser votada: “Foi admitido e enviado à commissão de fazenda.” Nove dias depois, a 25 de Março de 1881, na sequência de uma moção de censura, apresentada pelo regenerador Fontes Pereira de Melo, o Ministério de Braamcamp Freire caiu.3 Assim sucedeu. Não houve tempo para a comissão apreciar a proposta. Ruiu tudo.
Em trabalho publicado em 1882, cujo conteúdo se refere a datas anteriores, o continental Morais, que se interessou pela introdução no continente, achava que o chá deveria beneficiar não só ‘(…) aos habitadores da Ilha de São Miguel (…) [bem assim como] (…) aos habitadores da Ilha Terceira, da Madeira e do Continente do reino de Portugal (…).’ Como sugeria que se fizesse? Publicando as suas notas, isto é, ‘(…) pondo ao alcance de todos a maneira de constituir aquelas folhas em estado de serem empregadas nos usos domésticos, e do comércio.’4 Em 1887, o Regenerador Sousa e Silva ressuscitaria a proposta: nem chegou a ser votada. Quanto ao chá na Ilha da Madeira, silêncio.
Saltemos uns anos a ver como está a Madeira neste negócio. A 5 de Maio de 1893, José António das Neves Ferreira, Ministro da Marinha e Ultramar, pede auxílio a José do Canto para introduzir a cultura do chá em Angola. Neste sentido, pede-lhe plantas, sementes de chá e instruções. Tudo isso, iria ser distribuído pelos agricultores que o desejassem.5 Por esta altura, corria a fama (justa) de José do Canto ser quem melhor em Portugal conhecia os segredos da cultura e do fabrico do chá. Fama assinalada na imprensa regional, nacional e internacional, aliás, pusera de pé com sucesso uma segunda fábrica na Caldeira Velha, na Ribeira Grande. O genro Artur Hintze era o irmão do Ministro do Reino Ernesto Rudolfo. Além do mais, fora ele quem escrevera, como vimos, a proposta de apoio ao chá apresentada por Caetano de Albuquerque, em 1881, e Sousa e Silva, em 1887.
Onde é que entra a Madeira nisso tudo? Vejamos. A 14 de Dezembro, em carta pessoal de agradecimento a José do Canto, o Ministro renova as esperanças que depositava na iniciativa angolana do chá e confirma o envio de chá para aquela colónia: “(…) As plantas seguem da Madeira no paquete Angola e ao respectivo governador-geral recomendei que me desse conta dos resultados da plantação, seus progressos e desenvolvimento (…).”6 Apenas isso, o chá foi através da Madeira. 
Mais nada? Não. Sucede que o Regenerador António Augusto de Sousa e Silva, o mesmo que apresentou o projecto do chá em 1887, foi governador civil do Funchal entre. 26 de Abril de 1894 - 9 de Abril de 1896. Só por isso? Não. Analisemos com vagar uma notícia de Dezembro de 1894. Veio no jornal de Vila Franca do Campo, na Ilha de São Miguel, por onde fora eleito deputado: ‘Chá- O Ex. Sr. Sousa e Silva, esclarecido Governador Civil do Distrito do Funchal empenha-se em admitir (?) ali a cultura do chá. Para tanto já foram requisitadas sementes e plantas da nossa cultura nesta Ilha.’7 Uma coisa é certa, a década de noventa do século XIX, conhece tentativas de cultivo e produção (umas sem sucesso) em várias partes de Portugal e Império: Moçambique, Angola, Açores. E no próprio continente Português. 
Um enorme ponto de interrogação com muitas interrogações: chegou Sousa e Silva a levar por diante o seu intento? Tentei dar os primeiros passos, até agora sem sucesso: consultei o catálogo do Arquivo da Madeira, da entrada para o Arquivo do Governo Civil do Funchal e a imprensa da época do Funchal. Falta dar os próximos passos. 
Seja qual for a resposta que se encontre, que se saiba, a Madeira não fez chá para vender, mas comprou chá aos Açores. Como? O primeiro pedido de chá da nova fábrica de José do Canto na Caldeira Velha veio em Setembro de 1892 precisamente do Funchal. Ei-lo, na íntegra: ‘(…) Amigo e Senhor,/ Informado que Vossa Senhoria tem depósito de chá produto dessa Ilha, rogo-lhe de me remeter na primeira ocasião, 1 caixa deste artigo (do preto), que é para servir de amostra, e que seja do menor preço e se a qualidade e preço agradarem pedirei mais para o futuro. Junto à remessa dirá Vossa Senhoria como deseja ser embolsado (?), Sem mais, sou com estima, De Vossa Senhoria/ José da Silva.’8 Praticamente todas as fábricas da Ilha de São Miguel mandaram chá para a Madeira, entre outros: Chá da Barrosa, Gorreana, Chá Canto, Seara, Porto Formoso.

PS: Em relação ao Chá da Cesta – 33: Ilha da Madeira I, saído, sexta, dia 12 de Junho, recebi, no dia 13, através do Teófilo de Braga, uma apreciação de Raimundo Quintal que, assumindo que não se importará, partilho com quem me possa ler: ‘Caro Teófilo, Li atentamente o artigo sobre o cultivo do chá na Madeira, que cita alguns documentos já conhecidos e outros que desconhecia. Se falares com o Mário Moura diz-lhe que tenho 6 plantas no Jardim do Tojal e uma dezena no Campo de Educação Ambiental do Santo da Serra. Estamos a cuidar das plantas com o objetivo de produzir chá verde de qualidade esmerada./ Bom fim-de-semana/ Raimundo Quintal.’
Boa sorte na tua empresa do chá, Raimundo, que seja desta que a Madeira produza chá. Agora ando às voltas com o Nascimento da Ribeira Grande, que muito deve a madeirenses da capitania do Hunchal, faço-te um pedido: se fores para os lados do Arquivo aí no Funchal, podes ver se há alguma coisa de chá no tempo de Sousa e Silva? E um muito obrigado a ambos pelos magníficos trabalhos de estudo, preservação e divulgação do nosso património natural, nomeadamente, no jardim José do Canto e na Mata Jardim Canto. 

Lugar das Areias, Rabo de Peixe, 15 de Junho de 2020

1 Cf. BPARPD/ACD/ALFPDL, Termos de entrada de navios, Alfândega de Ponta Delgada, 152, 1878, Vapor Luso, 5 de Março de 1878, n.º 70.
2  Câmara dos Deputados, 14 de Fevereiro de 1881, pp. 518-528.
3  https://pt.wikipedia.org/wiki/Anselmo_Jos%C3%A9_Braamcamp; 
4  Morais, Joaquim Manuel de Araújo Correia, Manual do Cultivador do chá do comércio, resumo dos apontamentos, que acerca de tão importante e fácil cultura, foram publicados no pretérito ano de 1881, Lisboa 1882.
5  Cf. UASD/FAM – ABS – JC/ Documentos não tratados/ cx. 95, Carta do Ministro da Marinha a José do Canto, 5 de Maio de 1893. 
6  Cf. UACSD/FAM-ABS-JC/Documentação não inventariada (Nestor Sousa), Carta de José António de B. das Neves Ferreira, Ministro do Ultramar, Lisboa?, a José do Canto, Ponta Delgada, 14 de Dezembro de 1893
7  A Liberdade, Vila Franca do Campo, 29 de Dezembro de 1894, p.2.
8  Cf. UACSD/FAM-ABS-JC/Documentação não tratada, Cx. 278, 188-C [Correspondência], Carta de José da Silva, Funchal, Madeira, a José do Canto Brum (?), 23 de Setembro de 1892 

Mário Moura

Print
Autor: CA

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima