19 de junho de 2020

Derrubar a ignorância disfarçada de vanguarda


Os censores dos costumes e dos usos, da linguagem, das artes e dos talentos, da literatura e dos livros, das estátuas e dos comportamentos individuais e coletivos, das atitudes e da ironia, do escárnio e do sarcasmo, dos provérbios e dos adágios populares fruto da mesma sabedoria, das tradições e das opções que não ferem ninguém, da culinária e do vestuário de variadas cores e formas, dos cartazes que são só um amontoado de sintaxe e estilística, e das cores de rosa e azul, vermelho e amarelo, carregam agora não um lápis azul da censura e reprovação prévia, mas um profundo sentimento de que são mais conhecedores, mais inteligentes e mais iluminados do que os restantes. 
Estes censores trazem consigo um revisionismo histórico muito peculiar, seletivo e discricionário, tratando de descobrir antifeministas, racistas, xenófobos e meliantes por todas as ruas, centros comerciais e instituições, praças e coretos das aldeias e cidades do país. Nas redes sociais, são eles que dominam e distribuem regras, epítetos e prebendas conforme os princípios inclinados e para as claques que estão sempre contra ou a favor dos censores, dependendo o aplauso se são os nossos ou os que se situam no extremo oposto. Mas sempre inócuos em argumentos e com a velha e estafada prática de que se não comungas da minha opinião, então és racista, xenófobo, assassinado, de extrema-direita e por conseguinte fascista, capitalista sanguessuga, ou um agente dos serviços secretos do mais sanguinário regime democrático e tens um gosto especial em ver a brutalidade policial a acontecer em direto, de uma maneira demorada e pouco dócil.  
Ou pelo lado inversamente extremo, se estás no outro grupo de uma barricada que apenas existe nas democracias, então por certo és um esquerdalha, um neocomunista que luta pela ditadura do proletariado travestida de liberdade, um arruaceiro em preparação e um desordeiro e anarquista convicto por gosto, desconhecimento e alienação. No fundo, estes censores são acusados de prestar vassalagem aos mais conhecidos déspotas deste e do outro mundo, adoradores de todos os mais conhecidos carniceiros, habituados a resolver os conflitos com a ponta da espingarda ou através de uma corda apertada, acompanhados por um peculiar gosto em assistir a agressões a polícias e adorar edifícios em chamas e assaltos a lojas de roupa da moda. 
De um lado e do outro, e são ambos feios, o que interessa é desqualificar o oponente com epítetos e etiquetas cuja semântica pretende deixar a outra parte fora de combate, com medo que se cole à pele e com isso à razão alheia, sem se conhecer os períodos históricos, os factos, as pessoas envolvidas, o contexto histórico, as dificuldades de decisão do seu tempo, a escassez de comunicação, as lideranças e os subordinados, os olhos da época e os olhos de cada época, o tempo atual, as coisas más e boas, as incoerências atuais e passadas, o caminho para aqui chegar e o que ficou para trás e quem para trás ficou com o caminho porque não se vislumbrava outro.
No meio, muitos decisores políticos com cada vez maior dificuldade em dizer não, em assumir decisões pouco populares ou definitivas, fazendo seus os receios dos restantes. E com isso, os extremos crescem e os partidos moderados perdem simpatizantes, eleitores e capacidade de intervenção diante de censores de ambos os lados que se autoproclamam como as únicas soluções para as crises que criam. Uma dessas crises, levou agora a que um busto de Charles De Gaulle fosse vandalizado no norte do país gaulês que ele próprio ajudou a libertar no segundo conflito mundial, já depois de ter sido prisioneiro na primeira grande guerra. Esse mesmo, De Gaulle.

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Categorias: Opinião

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