20 de junho de 2020

Santa Clara: Os grandes jogadores de futebol do meu tempo de jogador - I


Joguei no Clube Desportivo Santa Clara nas décadas de 70 e 80, tendo jogado em todas as categorias (juniores, séniores e veteranos) e foi o único clube que oficialmente representei nos Açores em toda a minha carreira de jogador. 
Apanhei, portanto, o tempo do futebol em que se jogava por amor ao futebol e à camisola e na parte final da carreira apanhei já o profissionalismo nas competições nacionais; aliás, fiz parte da primeira equipa do clube que pela primeira vez na sua historia disputou um campeonato nacional de futebol.
E por isso joguei com grandes jogadores de futebol do clube.
Nesta revisitação ao passado começo por destacar um avançado de centro, de seu nome Fernando Jorge da Costa, conhecido no mundo do futebol como Fernando Costa Pedro.
Joguei vários anos como extremo-esquerdo com o Costa Pedro a avançado depois de ele ter regressado da guerra colonial, sendo então treinador o grande jogador internacional por Portugal Henrique ben David, cabo-verdiano de nascença.
O Fernando Costa  Pedro era um genuíno avançado de centro, nasceu para jogar a avançado de centro e marcar golos.
A primeira coisa que saltava a vista era a sua estampa atlética: alto, pernas e tronco a fazer lembrar um antigo gladiador do tempo dos romanos, músculos salientes, literalmente um gigante.
Claro que a sua estatura e força lhe davam um poder de choque com os adversários como nunca vi; ganhava todos os lances divididos pelo chão ou pelo ar ; o seu poder de fogo de cabeça não tinha igual; rematava de cabeça, dentro o mesmo já fora da área, com uma potencia e colocação que até o chão tremia como se estivesse a ocorrer um tremor de terra.
No tempo dele, que é o meu, todas as equipas jogavam normalmente, com um avançado de centro fixo, que era a referencia principal da equipa quando fazia a transição ofensiva; tendo um avançado fixo toda a equipa tem que jogar para ele, o que implica ter dois extremos bem abertos, colados à linha para fazerem os cruzamentos para o avançado de centro o que pode tornar o sistema de jogo monolítico, previsível e logo mais facilmente neutralizável pela táctica da equipa adversária.
Quando a equipa atacava, o Fernando não descaía para nenhuma das alas, mantinha-se sempre no meio  e, raramente, descaia no terreno para vir buscar jogo atrás.
Eu e ele jogávamos de olhos fechados e tinhamos varias jogadas estudadas.
Uma delas era: quando o nosso guarda-redes chutava longo pelo ar os dois centrais adversa rios se colavame ao Fernando, ele, inteligentemente, saltava e no ar penteava a bola com a nuca de forma  que ela sobrevoava os centrais e ia cair no espaço vazio atrás deles dando-me a mim a possibilidade de arrancar em velocidade ficando isolado na cara do golo, e com dois toques apenas metíamos a bola na baliza adversário.
Outra jogada era quando eu arrancava da linha do meu campo  passava pelo defesa que me marcava ia até perto da linha de fundo e o  Costa Pedro enganava os defesas, arrancava para o coração da área e, de repente, travava e recuava uns metros,  ficando completamente livre e com a baliza à sua mercê; eu parava junto a linha e em vez de cruzar para a área onde se aglomeravam jogadores, com um pequeno toque com a parte exterior do pé direito,  metia -lhe a bola e ele só encostava para golo.
Outra jogada, que funcionava entre nós ás mil maravilhas, era quando havia livres na meia esquerda; eu centrava com a bola tensa pelo ar a fugir do guarda-redes e o Fernando entrava de rompante vindo de trás e com os pés, mas mais de cabeça, rematava e ou era golo ou era grande defesa do guarda-redes contrario.
Para o campeonato nacional creio, que com o Elvense, ele fez quatro golos seguidos em 20 minutos de cabeça, nascidos de outros tantos livres que eu marquei da meia esquerda no Estádio de São  Miguel.
Outra jogada que também resultava era quando o extremo direito (que durante muitos anos foi o Floriano Machado) cruzava, o Costa Pedro, combinado comigo, atacava o primeiro poste e levava os defesas consigo, fingia que ia cabeçear mas ,no ultimo instante, deixava passar a bola para eu entrar no espaço deixado pelo defesa que ia com ele tentar impedir  o remate dele, e assim permitir que eu batesse o desamparado guarda-redes contrario.
E claro que nem tudo era um mar de rosas ;ele as vezes, temperamental como é,  brigava muito comigo e com certa razão porque eu em vez de passar queria entrar em fintas sucessivas com a bola pela baliza dentro.
Eu e ele fazíamos normalmente 99,9% dos golos da equipa ao ponto de  o treinador da altura Jõao Flores, nos querer levar os dois para o Amora que militava na altura na primeira divisão nacional  e que era treinado pelo celebre Joaquim Meirim do qual João Flores ia ser adjunto no Amora; a transferência só não se concretizou porque Meirim creio que adoeceu e ficou sem poder treinar.
Se aparece hoje, com os seus formosos vinte anos, o Fernando Costa Pedro, iria ser um caso sério como avançado no futebol português e estaria num Sporting num Benfica ou num Porto com êxito formidável.
``E claro que ele iria ser uma boa dor de cabeça  para os treinadores actuais e porquê?
Porque o futebol mudou como tudo na vida e a maioria das equipas hoje em dia, não jogam com avançados de centro fixos: o avançado centro hoje descai para as alas com frequência. dando talvez maior versatilidade, dinâmica e imprevisibilidade á equipa.
Com o Costa Pedro em campo o treinador tinha que montar a equipa em função dele o que também não é tarefa por aí além.
Quando veio o treinador inglês Mr TED SMITH para o Santa Clara, treinador inglês que tinha treinado o Benfica com a gloria de ter ganho o primeiro grande troféu internacional para o clube, a Taça Latina contra o Bordeus de França.
Ele comparava muitas vezes eu e o Costa Pedro ao Stan Mortensen e ao Stanley Mattews, glorias imortais do futebol inglês e mundial; falava muito mal o português; a mim, por exemplo que no futebol ganhei a alcunha de Melão chamava-me sempre Malau e e ao Costa Pedro era só o number nine (o número nove).
O grande Henrique Ben David adorava  Fernando Costa Pedro. Este, por exemplo, do Costa Pedro não era muito amigo de treinar durante a semana, mas ao domingo era sempre titular; se qualquer outro jogador não treinasse com Ben David ao leme não jogava no domingo.
O Costa Pedro com ele jogava sempre nem que fosse de muletas.
Depois o Fernando, pelas razões fisicas e técnicas atrás descritas,  intimidava os adversários; tinham medo dele e com razão. Isto levava muita porrada; mas bastava o Fernando chegar ao pé dos caceteiros  e admoestá-los que os tipos nunca mais me tocavam; o Fernando tinha uma força brutal, mas tinha também uma garra, uma genica e uma ferocidade inigualáveis.
Num jogo à noite no Jácome Correia houve uma invasão de campo com os jogadores todos a fugirem para as cabines. O Fernando ficou praticamente sozinho em campo com aquelas feras todas, e fez rente à multidão de adeptos enraivecidos e eu espreitando pela janela do balneário só via era o Costa Pedro a dar cada soco de ferir lume , fazia com eles o que fazia com a bola, ia-os metendo todos dentro da beleza com a potencia dos murros que lhes dava e escapou sem um arranhão daquela pancadaria toda.
Tenho varias vezes ouvido comparações entre o Costa Pedro e o Pauleta enquanto avançados; acho isso perfeitamente descabido pois o futebol como a vida não é linear (nem sempre dois mais dois são quatro).
E claro que o grande, o enorme Pauleta, se aparecesse no meu tempo e do Fernando não faria , por falta de oportunidade, a  fenomenal carreira que fez.
E não era por isso que deixava de ter o talento inato de goleador que tem e que Deus lhe deu.
O Costa Pedro hoje com o treinador certo, chegaria decerto à Primeira Divisão, agora, quão longe iria só deus pode saber.
O Armando Fontes chegou à Primeira Divisão e provavelmente hoje como avançado ainda marcaria mais golos do que aqueles que marcou naquela altura.
Um homem é ele e a sua circunstância.
No tempo de jogador do Costa Pedro não havia televisão nos Açores, e isso é fundamental porque a televisão dá visibilidade ao jogador e essa visibilidade atrai a cobiça dos clubes, é ela que abre as portas para voos mais altos dos jogadores nascidos nos Açores.
Para um jogador açoreano mediano, hoje em dia, é fácil contratar um agente ou empresário dos jogadores que o coloca facilmente no mercado do futebol.
O futebol é hoje, simultaneamente, um desporto e uma indústria ou mercado global , uma indústria que movimenta bilhões para além de ser para muitos a grande religião do mundo.
Alguma vez o Hugo Almeida ou o Eder (o nosso herói de França) chegariam à seleção nacional portuguesa de futebol como chegaram se jogassem no tempo do Costa Pedro em pelados duros, com chuteiras com travessas e com bolas pesadas como chumbo?
O Mr. Henrique Ben David Que Deus já tem consigo nunca trocaria no meu tempo o Costa Pedro pelo Hugo Lameida ou o Eder.
Mas valeu a pena; jogamos o jogo por amor ao futebol e envergámos a camisola vermelha por amor ao Santa Clara.
  Bem sei que o retrato que neste escrito esbocei da qualidade do Fernando Costa Pedro como avançado de centro é um retrato imperfeito, que muito ficou por dizer.
Da minha parte resta-me agradecer-lhe o muito que ele fez por mim enquanto jogador de futebol e que foi uma honra, que agradeço ao destino ter jogado ao seu lado, no nosso Santa Clara vários anos, com a gloriosa camisola vermelha vestida de águia ao peito.

Et unum pluribus (um por todos e todos por um). 
 

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Categorias: Opinião

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