Aníbal Raposo é um dos melhores músicos e compositores que existe nos Açores. É, provavelmente, aquele que interpreta, de forma mais sibilina, a alma açoriana. Sabe rodear-se dos melhores de tal forma que tem a capacidade de surpreender com cada nova interpretação.
Publicou, no dia 14, um novo videoclip no YouTube, já com um nível de audiência considerável. A letra e música é de Aníbal Raposo e as vozes são de Williams Maninho Nascimento e Aníbal Raposo. Os músicos são Williams Maninho, que também fez os arranjos, e Paulo Vicente. E a produção é de Eduardo Botelho.
Aníbal Raposo, na entrevista que concede ao Correio dos Açores, apesar de nunca parar de compor, diz sentir saudades dos concertos que impedem as medidas de confinamento por causa da pandemia. Mas aceita que “a preservação da saúde vem à frente de tudo”.
E, no dia de hoje em que se faz uma recolha em redor de São Miguel de alimentos para os artistas, Aníbal Raposo dá a entender que se deveria ter criado condições para que não fosse necessário chegar a tanto. “Ao contrário do que muita gente distraída pensa, os artistas também comem e têm família”, afirma depois de prestar homenagem àqueles que, solidariamente, decidiram envolver-se no apoio àqueles que dão dimensão à cultura açoriana.
Aníbal Raposo anuncia para este ano o lançamento do seu novo álbum ‘Falas e Afectos’, duas palavras que se identificam perfeitamente com o artista. Um álbum com um tema que compôs quando era ainda criança.
Correio dos Açores – Que forma vai ter o álbum ‘Falas e Afetos’ que vai lançar ainda este ano?
Aníbal Raposo (Músico) - Este disco contém vinte novos temas originais, alguns escritos já há uns anos e outros de criação recente.
As músicas são todas da minha autoria. Os poemas são igualmente da minha lavra e ainda da dos seguintes autores: Mia Couto (Moçambique), Vinícius de Moraes (Brasil), João de Deus e Isabel Fidalgo (continente), Gabriel Mariano (ilha de S. Nicolau – Cabo Verde), Natália Correia, António Bulcão e Urbano Bettencourt (Açores).
Uma curiosidade, inclui um tema que compus quando tinha quinze anos.
O nome que dei ao álbum tem a ver com esse contexto. Junto, num trabalho musicalmente muito eclético, as palavras de poetas dos meus afectos, provenientes de diversos países de língua portuguesa, situados no meio e nos dois lados do Atlântico e ainda no Índico.
Penso que é um disco de belos poemas que tentei vestir com música boa e variada.
É um trabalho praticamente feito a dois: eu na composição, voz e guitarra e o Eduardo Botelho na produção, execução e arranjos. Mas conto ainda com a colaboração do Williams Maninho Nascimento, do Cristóvão Ferreira, do Philip Pontes e do Fábio Cerqueira.
O trabalho de design gráfico é da responsabilidade do Paulo Bettencourt.
O que tem andado a fazer na música neste período de confinamento?
Tenho andado em teletrabalho e, nas horas vagas, a concluir em estúdio o meu novo álbum ‘Falas e Afetos’. Estou ainda a trabalhar em mais um projeto de música infantil com músicas minhas e arranjos do Mário Jorge Raposo. O núcleo duro desse projeto, que inclui gente de muitas especialidades e artes, está sediado no Porto.
Como encara a falta de concertos?
Como a música é uma parte essencial da minha vida, a falta de concertos para mim é péssima. Penso que a necessidade de espectáculos é sentida por toda a gente. Mas acabo por compreender a situação dado que a preservação da saúde vem à frente de tudo.
Devia haver apoios governamentais dirigidos aos artistas tal como para outros profissionais? Porquê?
Claro que sim. Principalmente para os que, nos Açores, heroicamente, fazem vida apenas da sua arte. Incluo todos os artistas. Na área musical, refiro-me a compositores, músicos, técnicos, empresas do ramo e demais elementos associados à promoção e realização de espectáculos. As artes são expressões fundamentais da cultura duma sociedade evoluída. Sempre pensei que o grau de desenvolvimento duma sociedade pode ser medido pela forma como trata os seus artistas.
De que forma a sociedade se pode manifestar solidária para com os artistas?
Defendo que, em primeiro lugar, cabe às entidades governamentais garantir os apoios necessários, que devem ser concedidos de forma controlada mas desburocratizada, e ainda as oportunidades de apoiar a realização e a promoção de eventos que façam surgir os rendimentos necessários aos artistas, em troca da disponibilização ao público das suas obras.
Depois, e em complemento, cabe à sociedade em geral apoiar os seus artistas, estando atenta às diversas iniciativas que estão a ser levadas a cabo por pessoas disponíveis e solidárias. Presto aqui a minha homenagem a essas pessoas que, com o seu trabalho gratuito, têm acudido a casos muito graves. É que, ao contrário do que muita gente distraída pensa, os artistas também comem e têm família.
O que propõe fazer no futuro?
Fazer mais música, poesia, pintura e cuidar bem das minhas plantas até ao fim da minha vida. Nunca parar de fazer o que me dá mais prazer e alegria. E, claro, repartir a minha arte com a minha família e com o público.
Hoje há recolha de alimentos por toda a ilha de São Miguel para apoiar12 artistas que vivem em dificuldade
A união audiovisual vai recolher hoje alimentos numa volta à ilha de São Miguel, sobretudo, para 12 artistas que vivem em dificuldade em resultado das medidas de confinamento impostas para travar a pandemia da Covid-19.
Nesta recolha de alimentos, à frente vão as bicicletas e uma carrinha, em três percursos diferentes, para cobrir a ilha toda, e recolher alimentos para os artistas.
Ricardo Cabral é um agente cultural neste momento também sem actividade da sua empresa, pois os espectáculos em que iria trabalhar como o Tremor, PDL White Ocean, entre outros, foram cancelados. Destaca que, dentre os 12 artistas registados como estando em dificuldades, dois casos mais críticos, em que na mesma casa tanto a mulher como o marido estão sem trabalho.” São casas onde não há praticamente rendimento nenhum. Há o caso de um DJ que está parado e a mulher é cabeleireira. Ela já retomou a actividade, mas esteve em lay-off. Passaram por muitas dificuldades. O outro caso, é o de um músico e uma pintora, ambos ficaram sem poder trabalhar, o que também lhes trouxe dificuldades acrescidas”.
Como agente cultural e promotor de eventos, Ricardo Cabral também tem nos casamentos uma actividade complementar, assim como muitos DJs e músicos, só que este ano nem com este rendimento suplementar podem contar porque, como diz, os matrimónios foram adiados para 2021. Mas o próximo ano é uma incerteza. “É preciso que nós consigamos chegar lá. Na China, não havia casos de Covid-19, e agora já estão a fechar as actividades porque já começaram a aparecer novos casos. Tudo é uma incógnita”, completou.
Independentemente da rota solidária que vai haver hoje em São Miguel, quem pretender ajudar com alimentos esta comunidade de artistas pode contactar com Ricardo Cabral, através do número 962404833. “A pessoa contacta comigo, marcamos uma hora no armazém que tenho na Avenida Dom João III, e estarei lá para receber os artigos, que depois serão entregues aos que mais precisam. Temos tido alguns particulares a entregar alimentos, o que muito agradecemos. Há pessoas que têm preferido dar dinheiro para comprar géneros alimentícios, também aceitamos, e igualmente agradecemos”, regista o nosso interlocutor.
“Neste momento, o que todos querem é começar a trabalhar e pagar a suas contas”, remata Ricardo Cabral.
“Apoios que não dão
para nada...”
O Governo decidiu que não há realização de eventos ao público até às 00:00 do dia 1 de Julho. Sem poderem trabalhar não realizam dinheiro, o que para quem não tem um pé-de-meia e vive das actividades sazonais as dificuldades acresceram. Tal como outros trabalhadores tiveram direito ao apoio excepcional da Segurança Social na ordem dos 180 euros, mas nem todos como nos conta Ricardo Cabral. “Só tiveram apoio, como é sabido, os que não têm dívidas ao Estado (Segurança Social e Finanças), mas mesmo assim com o apoio dado o profissional tem de pagar a mensalidade à segurança social, ficando com muito pouco para si, na ordem dos 100 euros, ou menos. Ora, para pagar renda, água e luz e alimentação é certo que esta verba não chega”. Numa plataforma oficial no Facebook foram recolhidos quase cinco mil euros de donativos, os quais foram distribuídos pelos 12 artistas, em dificuldades, para pagarem as suas contas mensais. Mas mesmo sem covid-19 o drama das famílias continua.
Os Açores não apresentam, actualmente, qualquer caso positivo activo de infecção pelo novo coronavírus SARS-CoV-2 mas quando a Região teve casos, num total de 147, viveu-se no arquipélago, à semelhança de outros territórios, as medidas de confinamento obrigatório, o que levou ao encerramento de muitos estabelecimentos e consequentemente muitos trabalhadores a recibo verde ficaram sem trabalho e outros em lay-off. No geral, a situação vivida foi idêntica para todos, mas com a retoma manifesta-se diferente para diferentes sectores de actividade. Uns têm trabalho, outros não, e aqui incluem-se os artistas.