Arranca hoje oficialmente a época balnear nos Açores

Guiniense é o primeiro africano nadador-salvador em São Miguel e diz que nos Açores “se sente em casa”

 Paulino Moreira, 27 anos, é natural da Guiné-Bissau. Aterrou em Lisboa há 6 anos sem qualquer intenção ou perspectiva de um dia enveredar pela carreira profissional que o trouxe aos Açores.
É nadador-salvador, pela “primeira vez na vida”, e tem um contrato com a Associação de Nadadores Salvadores da Costa Norte até ao final do mês de Setembro. 
Para início de conversa, começa por confessar que conhecia muito pouco da Região onde se encontra actualmente. “De facto não conhecia. Já tinha ouvido algumas pessoas falarem que era bonita, mas quando cá cheguei, vi que era uma coisa maravilhosa. Verde, natural e gostei imenso”, admite.
Paulino Moreira. que está pernoitar no quartel de Bombeiros da Ribeira Grande, refere mesmo que foi “muito bem recebido” e que, desde que cá chegou, sente que “está em casa”. Considera também que as pessoas “são mais tranquilas e mais sociais”. 
A vinda para os Açores deu-se quase por acaso e aconteceu através de uma simples pesquisa na internet. “Encontrei a Associação de Nadadores Salvadores. Depois, optei por falar com o responsável que é o Sr. Marco Medeiros. Começamos a falar e eu percebi que esta era uma boa associação, uma associação proactiva. Conversamos e hoje estou a trabalhar cá como nadador- salvador”, conta.  
Paulino Moreira recorda a sua chegada a São Miguel, durante a época de pandemia de Covid-19, e quando as medidas restrictivas estavam bem presentes. Agradece o apoio incondicional que Marco Medeiros, responsável pela Associação de Nadadores Salvadores da Costa Norte, lhe prestou durante os primeiros tempos.  

“Esta é uma terra maravilhosa”

“Quando cá cheguei tive de ficar dois dias num hotel. Estava tudo controlado, com polícia e não havia como sair do hotel. Fiz o teste, deu negativo, e contactei o Marco que esteve sempre disponível desde o primeiro dia. Ele foi-me buscar e vim para a Ribeira Grande”, lembra.
Sobre a sua terra natal, a Guiné Bissau, Paulino diz que a situação de pandemia “está mais ou menos controlada por lá”. O primeiro nadador-salvador africano da Associação de Nadadores Salvadores da Costa Norte diz que, comparando as duas realidades, o seu país “não tem nada a ver” com os Açores.   
“Esta é uma terra maravilhosa, mas a Guiné, no meu país, acho que lhe falta muitas coisas para fazer, para trabalhar e para ficar como deve ser. Muitos problemas e a instabilidade política que não é fácil…”, afirma.
Sem grandes “possibilidades de ir ao mar” enquanto vivia na Guiné Bissau, Paulino Moreira emigrou para Lisboa há cerca de 6 anos e foi na capital portuguesa que as circunstâncias o empurraram para o gosto pela natação e, mais tarde, pelo curso de nadador-salvador.
Enquanto trabalhava num ginásio e incentivado por alguns colegas, Paulino conta como foram dados os primeiros passos. “Houve um senhor inglês que veio dar aulas à piscina e então eu fui com um colega, o Ivo Vieira, só como experiência. Na primeira vez que eu entrei na água foi como se fosse uma pedra”, recorda entre sorrisos.
“As coisas foram evoluindo durante um ano” e com o incentivo que foi recebendo na piscina, da parte de colegas e dos professores, Paulino Moreira, perseguiu o sonho de se tornar nadador- salvador. E essa pretensão acabaria mesmo por se tornar realidade. De Novembro do ano passado a Janeiro deste ano, concluiu o curso, em Telheiras, “antes mesmo desta situação de pandemia”.
Questionado sobre as zonas balneares da costa norte da Ilha de São Miguel, responde que “esta aqui, a praia de Santa Bárbara, é uma das praias mais perigosas”. 

O primeiro resgate foi o baptismo…

A trabalhar na Ilha de São Miguel desde o início do mês de Junho, Paulino Moreira recorda já um primeiro momento marcante. “Estou cá há uma semana e já fui fazer um resgate com o meu chefe, o Marco. Fomos com a moto de salvamento para a água e admito que fiquei um bocado em pânico, foi a minha primeira vez. Mas depois de 5 ou 10 minutos comecei a ganhar coragem. Foi uma primeira experiência, nunca tinha trabalhado como nadador salvador. Na escola aprendemos tudo em teoria e depois na prática as coisas são diferentes”, admite.
O responsável pela Associação de Nadadores Salvadores da Costa Norte, Marco Medeiros, acompanhou Paulino Moreira durante a conversa e conta também como se desenrolou este salvamento.
“Foi um alerta que tivemos através de um banhista da praia que estava a avistar um surfista em alto-mar que tinha perdido a sua prancha. O alerta foi-nos dado já depois de a praia estar fechada e quando estávamos a chegar ao quartel. Ele (Paulino) estava cheio de adrenalina e um bocado nervoso, mas depois portou-se muito bem. Foi uma experiência que, para ele, se calhar, vai ser levada para o resto da sua vida”, afirma Marco Medeiros. 
Apesar de ser o primeiro nadador-salvador africano da Associação de Nadadores Salvadores da Costa Norte, Paulino Moreira afirma não ter sentido qualquer tipo de discriminação racial desde que chegou aos Açores. 
“ Fui recebido de uma forma simples, de uma forma boa. Eu estou aqui no meio dos colegas e é uma coisa impressionante. Ninguém me tratou mal, ninguém falou mal comigo nos bombeiros. Estão sempre a brincar comigo e eu sinto me aqui como se fosse em minha casa. Estou aqui à vontade para brincar com os colegas e tenho muita coisa a aprender com eles também”, refere.
Paulino acrescenta que este tipo de discriminação e “preconceito”, infelizmente “acontece em qualquer parte de mundo”.
Quanto ao futuro, e quando terminar o contrato de trabalho que o liga à Associação de Nadadores Salvadores da Costa Norte, não tem a certeza daquilo que irá fazer, mas não fecha a porta à sua permanência nos Açores.
”Quando acabar o Verão e se aparecer alguma oportunidade de trabalho eu posso ficar aqui. Eu acho que este é um sítio maravilhoso”, destaca.      

 Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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