Padre Davide Barcelos, pároco das freguesias da Saúde e Milagres

“Vi e senti durante todo este tempo um grande sentido responsabilidade por parte da comunidade de Arrifes”

Fale-me um pouco do si?
Sou natural da ilha Terceira, concretamente da Freguesia de Santa Bárbara. Entrei para o Seminário Colégio de Ponta Delgada, em Setembro de 1991 até 1994 e depois frequentei o Seminário Episcopal de Angra em 1994, fazendo uma paragem em 1999 e reentrei em 2000 até 2004, ano em que me ordenei sacerdote na Paróquia de Nossa Senhora do Pilar, freguesia onde a mãe é natural, no dia 18 de Setembro e presidi pela primeira vez à Eucaristia, chamada de missa nova, no dia seguinte na minha freguesia natal.
A minha primeira colocação foi como Vigário Paroquial da Matriz da Horta, onde trabalhei com o Monsenhor José Fortuna. Fui pároco durante nove meses das freguesias de Pedro Miguel e Praia do Almoxarife e em 2006 parti para a ilha das Flores onde estive nove anos como Pároco, juntamente com dois colegas, o Padre Vítor Medeiros e Ruben Sousa, terminando esta missão em Junho de 2015.
Em Julho de 2015 fui colocado nas Paróquias de Nossa Senhora dos Milagres e Nossa Senhora da Saúde, na Freguesia de Arrifes. Foi para mim, um enorme desafio, porque vinha de um lugar pequeno com pouco mais de três mil habitantes e trabalhar numa freguesia que tinha quase o triplo da população, não foi fácil. Foi uma adaptação que levou algum tempo. 
Falar sobre nós próprios não é fácil, porque implica termos a capacidade e consciência para admitirmos os nossos defeitos e as nossas virtudes. Sou Sacerdote há quinze anos e sou uma pessoa feliz. Nem tudo durante estes quinze anos foi bom, mas cresci muito e devo-o aos meus pais, Seminário e em especial à ilha das Flores, esse crescimento. 
Sou um homem de personalidade forte, convicto, criativo e trabalhador. Admito que sou um líder, dinâmico, audaz, determinado e decidido. Tenho na minha vida os objectivos bem definidos, quer para a minha vida pessoal, quer para as minhas comunidades e aplico-os sem medo, com confiança e ultrapassando todos os obstáculos até os conseguir atingir. 
Alguém me disse um dia que «sou a argamassa que une as três comunidades dos Arrifes» é um claro exagero, mas tenho procurado verdadeiramente a unidade das três comunidades, num trabalho de pastoral de conjunto, que passados cinco anos vão aparecendo alguns resultados. 
Tento ser um pároco atento às necessidades e à realidade das comunidades que me são confiadas, onde tento participar activamente na tomada das decisões, orientando e coordenando os mais diversos movimentos com o objectivo claro de unir e fazer crescer a comunidade. Estou sempre disponível para as pessoas, passando a maior parte do meu dia no Cartório Paroquial para atender quem me procure. 
Procuro ter um diálogo com todos, o que por vezes parece irreverente na forma como lido com a vivência da comunidade, mas tenho presente, o passado como um grande educador sem medo de olhar em frente e enfrentar o futuro.
Como defeitos, sou vaidoso, teimoso e admito que sou controlador. No fundo... Sou um homem feliz e que todos os dias luta por esta felicidade.

Como viveu o tempo de confinamento devido à Pandemia do Covid-19?
Não foi fácil viver o tempo da quarentena. Sentimos na pele a falta de liberdade, o termos de justifcar para onde íamos, os recolheres «quase» obrigatórios, o medo de sair. Houve a necessidade refazer hábitos, de aprender a viver novamente em família ou sozinho e a darmos valor aos pequenos gestos de solidariedade entre uns e outros.
O tempo de confinamento apanhou a caminhada quaresmal. Foi um tempo que vivi em silêncio e recolhimento, como na verdade deve ser vivida a Quaresma, contemplando a Cruz. Fiz silêncio, olhei para o meu passado, para a minha caminhada, para o trabalho que estava a realizar na Comunidade de Arrifes, e perspectivei o futuro. Um futuro que será diferente, porque o tempo de confinamento, para quem o levou a sério, mudou por completo as nossas vidas.
Para mim, foi forte e nunca mais vou esquecer a imagem Papa Francisco subindo, no crepúsculo do dia a escadaria da Praça de São Pedro para dirigir a bênção Urbi et Orbi ao mundo, como um sinal de esperança. Um marco que ficará na história deste pontificado e que bem representa o Papa que o Espírito Santo escolheu para estar à frente da sua Igreja.
Penso que a imagem do Papa Francisco sozinho é também a imagem de muitos sacerdotes, que ao longo deste tempo acataram as ordens da hierarquia eclesiástica, das autoridades de saúde e se remeteram ao silêncio e à oração. Quem sabe, se não foi um aviso do próprio Senhor Jesus, chamando-nos atenção, que a pastoral do muito fazer não basta e que é na oração que está o segredo de uma vida activa e participativa na Igreja?! 
Foi um tempo muito difícil, mas foi para mim um tempo precioso!

Sentiu a população preocupada, ou nem por isso? O que transmitia aos cidadãos?
A população mostrou-se, como ainda hoje continua a mostrar-se receosa e preocupada. Na verdade, de um momento para o outro, tudo parou: Empresas, vidas, hábitos, etc. trazendo ao mesmo tempo o desemprego e a incerteza. Mantive a minha presença junto da comunidade, embora não tenha durante este tempo dirigido nenhuma mensagem pessoal através de nenhum meio digital. Temos na Igreja Arrifes uma equipa de jovens, que todos os dias foi actualizado a nossa página do Facebook enviando mensagens de esperança, de coragem, onde houve um bom número de visualizações e comentários.
Da minha parte, e com base na conversa com um colega, pensei em dar um sinal à comunidade. Um sinal de esperança e de confiança. Um sinal, que não precisava de palavras ou mensagens, mas um sinal de amor maternal, colocando as imagens Nossa Senhora da Saúde e Nossa Senhora dos Milagres à porta das suas Igrejas, para que elas nos acompanhassem de dia e nos protegessem na noite. Pedindo a ambas as invocações, que ninguém do meu povo morresse deste vírus e que as pessoas pudessem sentir a presença de Deus, através da figura de Maria. Ao longo do tempo de confinamento, estado de emergência e mesmo nos dias de hoje, muitos são os que passam, choram, rezam, fazem pedidos, trazem velas, flores e contemplam. Penso que Maria é o grande sinal e a grande mensagem para quem precisa de conforto e esperança.
Com este gesto também quis simbolizar que a Igreja não estava fechada e que tinha as suas portas abertas de par em par. 

A população mostrou-se responsável perante a situação que se viveu?
Vi e senti durante todo este tempo um grande sentido responsabilidade por parte da comunidade de Arrifes. As pessoas acataram as orientações das mais diversas entidades. Basta pensar que uma freguesia grande, que tem um enorme movimento de carros nas suas ruas, este movimento abrandou e a partir de determinada hora estava completamente parada. Diria que houve muita responsabilidade e bom senso”

Este ano fica por realizar a Festa de Nossa Senhora da Saúde? E a Festa dos Milagres?
Estive reunido na passada semana com as três Comissões dos Assuntos Económicos, onde o ponto único de agenda foi precisamente as festas em honra das três padroeiras, a Senhora da Piedade, no último Domingo de Julho, a Senhora da Saúde, no terceiro Domingo de Agosto e a Senhora dos Milagres, no primeiro Domingo de Setembro.
Foi unânime que não devíamos deixar passar estes dias no vazio e sem nada, e que algo deveria ser feito, também como um sinal da presença da Igreja na vida das pessoas. Existe algumas ideias interessantes, mas temos de aguardar. 
Ao nível religioso nós vamos manter o programa, que é hábito fazer com os tríduos preparatórios e a Eucaristia solene. Não haverá arraial, nem nada que leve à concentração de pessoas, porque nós não sabemos na verdade o que ainda nos reserva o futuro, sobretudo depois reabertura do aeroporto e com a chegada de voos nacionais e internacionais. 
Deixar passar o dia sem nada de nada, no meu ponto de vista será um erro pastoral grande. Temos de ter presente, que a religiosidade popular tem o seu ritmo próprio e deve ser respeitado e que esta religiosidade alimenta o nosso povo. Agora, dependendo das circunstâncias que vivemos tentaremos adaptar as festas e outros eventos, tendo sempre por base as normas das autoridades de saúde, quer internacionais, nacionais e regionais. 
 

Como é que foi o regresso às cerimónias presenciais e ter de ver os fiéis afastados entre si?
Além de pecar por ter sido muito tardio, a retoma das Eucaristias com a assistência dos fiéis, na comunidade de Arrifes, decorreu sem grandes problemas e até diria com normalidade. Preparámos o que havia a preparar, mas sem grandes alarmismos ou sem grandes explicações até porque o nosso povo já estava vivendo todas as normas respeitantes a espaços fechados há mais de um mês. 
Registou-se uma fraca participação, que foi normal, por parte dos fiéis nas seis celebrações, que estão agendadas para o fim-de-semana, notando-se medo e onde muitos peferiram continuar a seguir a Eucarisitia pelos mais diversos meios digitais ou pela televisão.
Contudo, há medida que o tempo vai passando as pessoas vão regressando e começamos a ter Eucaristias com a participação normal. Aliás, registo como muito positivo este aumento.

Com a pandemia, aderiu às novas tecnologias? Serão no futuro uma ferramenta a ter mais em conta?
Ao longo do tempo de pandemia, muitas pessoas da comunidade pediram que transmitisse as Eucaristias em directo, pelo Facebook ou outra plataforma digital. Os nossos próprios bispos sugeriram que os sacerdotes usassem de todos os meios, inclusive os digitais para chegarem ao seu povo. E tivemos uma enorme oferta, pela rádio, televisão, canais privados na MEO, pelo meios digitais, concretamente pelo Facebook, com todo o tipo de oferta, onde na verdade penso que se tentou «converter o número de visualizações em fiés».
Eu concordo com o Bispo António Cantero, Bispo de Turuel e Albarracín «todo este bombardeamento levanta muitas questões, não parece que tratamos os crentes como se eles não soubessem rezar e devessem depender apenas do clero para fazê-lo. Será que com tantas missas nas televisões, as pessoas não se tornam passivas a assistir? Ou será que queremos justificar o nosso sacerdócio? Será que os serviços religiosos das televisões e rádios não são suficientes? Até agora o foram».
Eu estou em sintonia com o Padre Duarte Melo, quando ele diz na entrevista dada ao vosso Jornal, no dia sete de Abril «que toda esta situação é descartável, é frio, é uma coisa polida, toca-se com o dedo e não se sente. É um filme...» Sei que para muitos cristãos foi uma boa solução, mas, é um filme!
Não estou aqui a criticar ninguém, mas durante este tempo todo vimos de tudo, quase uma banalização do sagrado. E por isso, concordo com D. António Cantero «com tantas missas parece que alguns sacerdotes têm medo do vazio, se não são vistos ou ouvidos, e esquecemos que uma das tarefas principais do sacerdócio é a oração. Há que medir o quanto há em todas estas audências, um desejo insuperável de protagonismo». Eu, por opção própria, não aderi! Quis viver este tempo de quarentena, de Estado de Emergência comigo próprio e com o Senhor. Aproveitei para meditar, contemplar, rezar, idealizar e sonhar. 
Concordo, que todas as ferramentas digitais colocam-nos desafios interessantes para a pastoral, para as reuniões, mas a Eucaristia, que é o que temos de mais sagrado, quer-se presencial, sentindo e vivendo o grande mistério que Cristo nos deixou como um momento de encontro e partilha, onde não posso ser um visualizador, um passivo, assistente, mas alguém presente, activo e participante.
Sempre ouvi dizer que era preciso lutar contra o comodismo, que deviamos trabalhar e usar todos os meios para que os jovens estivessem e participassem activamente na Igreja. Vem esta pandemia, fecha as Igrejas durante três meses, vêm as transmissões Online com todo o tipo de conteúdo e qual é o resultado, o aumento do comodismo, porque muitos vão pensar: «porque preciso ir à Igreja se posso assistir comodamente no meu sofá?» E, acabamos por ajudar a que este comodismo cresça e temos de admitir que vamos ter consequências graves para o futuro da Igreja.
As Eucaristias pelo Facebook ou outros meios até podem ter sido uma resposta, mas continuar com as transmissões, depois de termos as nossas portas abertas é convidar ao comodismo e absentismo.

Está confiante no futuro?
Sim! Eu divido o ano de dois mil e vinte em duas partes. 2020 A até ao dia 16 de Março e 2020 B após o dia dois de Maio. Há que ter presente, que a nossa realidade e a nossa forma de viver não será mais a mesma. Há quem pense, que tudo será como antes, mas na minha opinião não será. Aliás, foi algo bem vincado pelo Presidente da República e por D. Tolentino Mendonça nas comemorações do dia 10 de Junho. Mas, nem tudo é mau na vida e não devemos apenas implementar medidas por medidas. Devemos sim, aproveitar esta enorme oportunidade para implementar novas medidas, começar a construir um futuro onde os homens e mulheres possam novamente perceber, que tudo está direccionado para que haja um viver mais autêntico, mais solidário e próximo, onde Deus não pode ficar de fora da vida das pessoas e onde todos devem ter uma participação muito mais activa e participativa na comunidade.
Cito D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga «O momento que vivemos é de grande ponderação e responsabilidade. Que a nossa intervenção seja pedagógica. Temos o dever de elucidar os cristãos e de o fazer com paciência e perseverança».  O futuro trás também à própria Igreja um apelo à mudança, é preciso fazer uma reflexão séria sobre o papel da Igreja no mundo. Tomar consciência dos defeitos e corrigi-los. Espero sinceramente que na Igreja açoriana, o Sínodo não seja mais uma coisa bonita para o papel, mas que nada diz nem ao clero, nem ao povo.
Esta é uma oportunidade de ouro para a Igreja mudar!

Como ocupa os seus tempos livres?
Ocupo os meus tempos livres, na oração, lendo um bom livro, vendo televisão, gosto de um bom filme de comédia ou acção, uma boa série, passo algum tempo com os meus animais. Tenho dois cães e dois gatos que são os meus companheiros de jornada e confidentes, e por último com os amigos, num bom convívio e com uma boa conversa. Também gosto de passear pela ilha na contemplação da natureza, que nos ajuda também a interiorizar a beleza da criação.

Que mensagem gostaria de partilhar com os cidadãos e com os leitores dos jornal Correio dos Açores?
Em primeiro lugar que vivemos novos tempos, novas oportunidades, novas mudanças!
Surge agora um novo tempo, onde julgo ser necessário um conjunto de desejos pessoais, profissionais e até pastorais, que seriam muito bons serem transformados em realidade. Sei que é fácil esboçar no papel uma ideia e muito difícil, pelo contrário, construí-la no dia-a-dia sobre a realidade quotidiana do ambiente pluralista, conflituoso e competitivo, que nos rodeia e em que nos tocou viver. Mas, há que fixar metas claras e exigentes e apontar para longe, para muito longe, se não quisermos ficar paralisados numa vida pessoal, profissional e pastoral rotineira e vulgar, que em nada fomente a edificação da minha vida pessoal e comunitária. É preciso uma nova forma de ser e estar no mundo, renovada, com objectivos preferenciais bem definidos, que nos interpelam continuamente, para não ficarmos satisfeitos dentro dos parâmetros da superficialidade.
Espero sinceramente e de coração aberto, que estes novos tempos correspondam ao apelo feito pelo Papa Francisco: «Também connosco, hoje, Jesus quer continuar a construir a sua Igreja, esta casa com alicerces sólidos, mas onde não faltam rachaduras, e que tem contínua necessidade de ser reparada. Sempre. A Igreja sempre tem necessidade de ser reformada, reparada.


 

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