21 de junho de 2020

Arquitectura LXXIV

As eleições na Arquitectura...

 
Convencida de que estes valores se regeneram por si, deslumbrada com o desempenho de alguns dos seus membros, vangloriada pelo seu umbigo, a Ordem dos Arquitectos (OA), alheou-se dos seus membros, da repentina transformação operada a que deixou de assistir, quando o número de arquitectos crescia exponencialmente, que desacompanhado, ajudava na diluição daqueles.  
Verificando o exercício do arquitecto, cada vez mais longe daqueles valores, que me desacreditou a OA, vi-me obrigado a recusar o meu apoio a uma das listas candidatas à Seccção Regional dos Açores, nos seguintes termos: 
“Desiludido pela forma como a OA me tratou num processo de âmbito disciplinar, em que até me foi favorável, mas não correcta, afastei-me, não podendo hoje exercer a expressão máxima da cidadania, o direito de voto, não sendo membro activo. Nestas circunstâncias, , julgo não ser coerente comigo mesmo, se apoiasse qualquer uma das listas concorrentes às eleições. Lamento, deste modo não poder apoiar tantos daqueles que aqui vi darem os primeiros passos no caminho da Arquitectura. Disponível para ajudar naquilo que possa, desejo que a instituição das Secções Regionais constitua uma melhoria para o exercício da Arquitectura, e que a lista vencedora cuide convenientemente daqueles que a prestigiam, revertendo o caminho que, no meu entender, desfez uma instituição de prestígio”.
Conhecendo o percurso da instituição, hoje Ordem dos Arquitectos, desde os tempos do Sindicato Nacional dos Arquitectos, onde em 1974 me inscrevi; à sua transição para Associação dos Arquitectos Portugueses (AAP), que se dá em 1978, e por fim à constituição da Ordem dos Arquitectos (OA) em 1998, confrontado com os altos e baixos que foi tendo, onde os baixos ultimamente, como referi, tomaram muita força, é com espanto e admiração, mas também com alguma desconfiança, que vejo a instituição da Secção dos Açores.

Mas mais vale tarde 
que nunca...E porquê?

Porque quando aqui cheguei, os arquitectos aqui residentes, tinham mais ou menos auto-proclamado, o NARA, Núcleo dos Arquitectos da Região dos Açores, que não tinha instalações próprias, não nos representava formalmente e vivia de esmolas da AAP, porque as esmolas servem para calar os pobres, e por isso, quando se esvaziou a caixa das esmolas, por entre algum esbracejar, esfumou-se.
Iniciou-se então, um período de diálogo com a recém instituída OA, no sentido da criação da Delegação Regional, que passou por uma comissão instaladora, para o efeito.
A Delegação viria a ser constituída, mas sem nunca ter regulamentado poderes delegados, e na ausência dessa regulamentação, ficou sempre totalmente dependente financeiramente de Lisboa, tal como o NARA.
Instituída, com sede própria, desenvolvia trabalho consoante as vontades, não do Terreiro do Paço, mas dos Banhos de São Paulo.
Esta situação de dependência, não nos é estranha, entranha; e até me faz lembrar a dos Governos das Regiões Autónomas de mão estendida ao Governo da República.
Por isso a constituição da Secção Regional, parecendo que pressupõe contrariar aquela dependência, espantou-me e admirou-me, porque conhecendo a classe, e o seu carismático incumprimento de prazos, ainda assim, só demorou o mesmo prazo que levou a AAP à OA, vinte anos!
Mas quando questiono duas das quatro candidaturas, sobre o suporte financeiro da secção, venho a saber que ainda não está regulamentado; saber conducente à minha desconfiança.
Sabendo que o reduzido número de arquitectos aqui inscritos na OA, e as respectivas quotas, dificilmente suportarão as despesas de porta aberta, a situação sugere-me o regresso à casa de partida...tanto mais que todas as outras Secções têm um muito maior número de membros, e não quererão perder poder financeiro para suportar a das “nove ilhas adjacentes”.
E tudo passa pelo orçamento próprio, onde os nossos custos, da tal insularidade, são sempre superiores, ou mesmo muito superiores para qualquer acção que aqui se queira desenvolver, facto incompreensível, para quem atribui qualquer apoio.
A este aspecto, que não é de somenos importância, acresce a enorme equipa dos órgãos sociais, equivalente à das restantes Secções, e que não poderia ser diferente, mas que deveras desproporcionada relativamente ao número de arquitectos da Região, só dificulta a sua articulação, e onde a sua dispersão, só acrescenta ainda, mais dificuldades.
Por último a minha desconfiança assenta ainda no facto de que a eleição num quadro universal da OA, poderá distorcer o resultado regional que, ao contrário do anteriormente estabelecido e realizado, não passa a ser imposto pelos eleitores locais, mas por uma maioria exterior à Região, mal comparando, como se o Governo Regional fosse eleito num quadro de eleição nacional, onde a cor resultante seria única, facto que retirará trabalho aos Banhos de São Paulo, mas que não me parece que reforce a autonomia desejada.
No quadro dos programas de cada candidatura, semelhanças nas ementas, com pratos mais temperados aqui ou ali, alguns requentados, com ementa regional, por vezes muito difícil de dar a comer, quando por ter ficado tanto tempo em lume brando e à conversa para o lado, deixámos esturricar quase tudo!
Afónicos, desacreditados socialmente, dificilmente nos faremos ouvir, para inverter o percurso que aqui nos trouxe, e de novo adquirirmos a independência, a responsabilidade pessoal, a ética específica e a organização colectiva, base do exercício da profissão.
Que a lista candidata à Secção Regional, que venha a ser eleita, seja capaz de um novo discurso, que reponha o prestígio que a classe merece, e me possa anular a desconfiança.  
 

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Categorias: Opinião

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