21 de junho de 2020

Entre o passado e o futuro

Racismo e outros ismos em dias de confinamento

 
Não surgiu na sociedade mais improvável, mas na conjuntura económico-social mais verosímil.
Irrompeu subitamente num dos Estados federados americanos. O seu nome não é relevante, pois poderia ter ocorrido em qualquer um dos outros49 existentes. E, tanto assim, que a brutalidade letal da atuação da polícia americana em relação àquele ser humano de cor de pele negra haveria de repetir-se, não muitos dias depois, noutro Estado, noutro contexto comportamental com menor crueldade policial revelada, mas eficazmente letal. Nem tão pouco pode tão condenável violência ser associada à orientação política de tolerância para com a discriminação racial e doutros tipos de exclusão social que perduram nos Estados Unidos. Também aconteceram comportamentos desproporcionados, graves e letais de violência policial no tempo de Obama, ele próprio um não caucasiano e eleito presidente. O Presidente Obama condenou-os com veemência. Perante a morte de um jovem negro assaltante de um supermercado, vítima de disparos fulminantes da polícia, disse que o mesmo poderia ter sucedido com ele na sua juventude. 
Não se deve, contudo, menosprezar os passos disruptivos da estratégia de Trump de implantação do seu múnus presidencial respeitantes às principais conquistas políticas da Administração de Obama. Por exemplo, a desconstrução do novo sistema de saúde Obama Care, a negação do tratado internacional de contenção do aquecimento global e do acordo com o Irão sobre a proliferação de armamento nuclear, a consolidação da frágil lei de uso de armas nos Estados Unidos. Trump é mais do que parece ser.
Desde há cerca de um ano que Trump orienta e condiciona a política interna e externa da América a um só objetivo: a sua reeleição. Para o alcançar não olha a meios porque, para si, os fins justificam sempre os meios usados e primeiro está a grandeza e a economia. Imponderável, não se tem coibido de mendigar ajuda a chefes de Estado europeus e àqueles com quem desenvolve guerras económicas: caso dos alegados pedidos de investigação aos negócios da família do concorrente democrata Joe Biden e da denunciada solicitação ao presidente da China para reduzir taxas aduaneiras sobre certas exportações americanas com o objetivo confessado de obter votações favoráveis em certos Estados nas próximas eleições. Um tanto deprimente para a 1ª potência mundial… 
A morte do cidadão americano negro originou uma enorme, consistente e poderosa vaga de protestos nos Estados Unidos que inspirou de imediato manifestações equivalentes por todo o Mundo. Foram na sua esmagadora maioria populares, ordeiras e compreendidas, exceto por Trump que as classificou de terroristas e potencialmente perturbadoras das eleições presidenciais do presente ano. Eram, porém, e tão só, contra a persistência de comportamentos racistas e socialmente discriminatórios, a brutalidade e crueldade do polícia que friamente usando o seu joelho como um êmbolo estrangulou durante vários minutos e até à morte um cidadão detido.
Trump querendo revelar-se ao Mundo como um defensor dos valores cristãos ostentando a Bíblia nas suas mãos, mas tendo de sair da Casa Branca cercada por uma compacta e pacífica manifestação de pessoas para ter por cenário a ermida próxima, ordenou que os manifestantes fossem espargidos e dispersos por ejeção de gás lacrimogéneo e não por água benta. 
Portugal, como não podia deixar de ser, também foi alvo de manifestações congéneres de rua. Faltando a originalidade portuguesa em momento mundial de tão comovente e generalizada sensibilidade humana, os políticos entenderam desentender-se sobre uma questão existencial: na lusitana sociedade existe ou não racismo?
A direita, não, em Portugal não há racismo; a esquerda, sim, em Portugal há racismo e a prova é que a direita não o vê. 
Sem estatística que não se confunda com a própria convicção e na ausência de análise científica que dê forma à verdade política, como ensinou a pandemia, está a organizar-se, mas ainda sem autorização, uma manifestação de rua para provar que não há racismo em Portugal e é um Estado em que as minorias têm direitos, mas também deveres. Querem ainda os organizadores da “manif” demonstrar que a rua não é só dos sindicatos ou da esquerda, mas de todos. É uma casa portuguesa com pão e vinho…


 

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Categorias: Opinião

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