21 de junho de 2020

Coisas do Corisco

O problema da água nos Açores (1)


Esta pandemia que nos tem dado cabo do juízo, é a demonstração cabal da nossa falta de preparação para situações como esta que decorre com este novo vírus. Mas pior que essa impreparação, o que nos sobra como lição, é a teimosia humana, assente na procura de razões para discórdias, em vez da entre ajuda e consenso para a sua resolução.
Só que as nações e os seus governantes não pensam assim; assim como não pensam noutra coisa que não seja, na sua ganância, tirando partido das situações por mais graves que sejam.
E é nesse jogo, cheio de perigos, que o nosso planeta, se expõe, vilipendiado nos seus recursos, atropelado nos limites do seu consentimento, e exausto pelo contínuo roubo a que se submete.
Por exemplo, vejo a todo o momento, os cientistas, defensores da ecologia, alertarem a humanidade para os perigos que advirão para o mundo, fruto do aquecimento global proveniente das maciças emissões de CO2 descarregadas diariamente na atmosfera. Contudo, não vejo grandes contestações, ou reclamações, como também não vislumbro os grandes passos, que têm que ser dados para que o maior e mais importante recurso do nosso planeta se mantenha saudável e com um futuro risonho à frente, como é o caso daquele que se prende como milagre da criação e da vida: a ÁGUA. 
Desde há muitos anos, a esta parte, que tenho vindo a alertar as nossas instituições para a falta de cuidado existente com a conservação da nossa natureza, que apelidei da nossa galinha dos ovos de ouro, e para a forma desleixada como temos destruído muitos dos nossos recursos hídricos com o propósito de se aumentar as áreas de pastoreio e a consequente produção leiteira que hoje nos traz muitas dores de cabeça pela ginástica que é necessária para se retirar da pecuária os dividendos que outrora se pensava serem facilmente possíveis.
Em resume trocou-se a natureza e a sua harmonia pela atracção enganosa do subsídio nas danosas arroteias efectuadas, na sua maioria sem critério; trocaram-se as valiosas turfeiras, recheadas dos seus macios e avermelhados musgões, cheirosos a clorofila, ricos armazéns de águas puras e frescas que alimentavam durante todo o ano as nossas pequenas ribeiras; extinguiram-se importantes veios de água, e muitos riachos, fervilhantes de vida, paraísos da frescura, sob a sombra das encostas polvilhadas de conteiras; enfim destruiu-se um valioso tesouro hídrico nos matos das Ardes, Camorrão e Areeiro, em S. Miguel, planando-se toda aquela enorme área, polvilhada de importantes turfeiras, para se produzir muitos milhões de litros de leite, que hoje afogam a débil economia açoriana.
O trágico é que, decretando-se a morte de muitas das nossas turfeiras, e de cruciais matos nas escarpas que ladeavam as nossas ribeiras, extinguiram-se importantes lençóis freáticos, que abastecíamos nossos cursos de água naturais durante todo o ano, assim como as inúmeras nascentes que nos forneciam águas de uma pureza única.
Note-se que muitas dessas criminosas arroteias foram executadas sem qualquer estudo de impacto ambiental, ou qualquer parecer de critério por parte dos técnicos agrícolas que poderiam ter evitado o deboche que foram as inúmeras movimentações de terrenos levadas a cabo nos Açores. Em resumo, hoje em dia, na ilha Terceira a falta de água no verão é já problemática, e em São Miguel também já se grita a sua falta, quando o tempo corre seco no Verão.
Pode-se dar a volta a muitas dessas aberrações sucedidas com as arroteias levadas a efeito nos Açores. Para já, uma das grandes medidas será repovoar urgentemente, com florestas, todas as encostas íngremes que alimentam as nossas ribeiras e onde se infiltrarão muitos milhões de m3 de água que alimentarão as turfeiras que, por sua vez, abastecerão, os lençóis freáticos e as nossas nascentes.
Mas, no panorama internacional, aquilo que é muito trágico, é o facto do problema mundial da água, continuar a ser um projecto a longo prazo quando requer uma urgência enorme antes que se tomem tarde de mais, as medidas urgentes que têm que ser tomadas, no imediato, para se inverter a tremenda crise que os recursos hídricos mundiais passam.
Quanto a mim, a resolução dos problemas hídricos mundiais, passa pela aliança estreita das nações uma vez que os seus maiores cursos naturais de água para consumo directo humano, ou para regadio, passam por várias regiões ou países, não sendo, por isso, um bem privado de uma nação, mas de vários países ou mesmo até de alguns continentes. Também por isso, sendo a água potável um recurso universal, teria que haver uma comparticipação, como se de um imposto se tratasse, para os estudos, e para a reconversão, e concretização, daquelas que deveriam ser as estruturas que permitissem a utilização da água para consumo humano, ou para irrigação agrícola.
Em face do acima exposto, o problema da água poderá deixar de ser um problema para se tornar numa realidade exequível cuja solução está, fundamentalmente, no entendimento, e na cooperação, entre as nações.
É exactamente sobre o Alqueva, a reconversão agrícola que urgentemente se impõe nos Açores, assim como aquela que será a solução para se travar a desertificação e reconstituição dos recursos hídricos mundiais, que vamos abordar nos próximos artigos, como uma sugestão que, no meu ponto de vista, tem pernas para andar, resolvendo muitos dos trágicos problemas que inúmeros países vivem, principalmente em África.
                   

Continua no próximo artigo
 

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Categorias: Opinião

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