Sanjoaninas são únicas e sem igual no panorama festivo açoriano

Marcha dos Coriscos ‘dissolve o bairrismo, promove turismo interno, potencia a diversidade cultural e fomenta a amizade’

Alice Athayde já não está entre nós, contudo o seu nome fica perpetuado. Foi a impulsionadora e fundadora da Marcha dos Coriscos, que assinala este ano os seus 10 anos de vida e, não fosse a pandemia, promovia a sua 11º exibição nas festas sanjoaninas na ilha Terceira. Para assinalar a data, Piedade Lalanda está a fazer uma colectânea de dados para publicar um livro sobre os 10 anos da marcha. 
“Verifico que há um traço comum. Um aproximar das ilhas por uma actividade cultural em que não há diferença, ou seja os micaelenses adoptam à sua maneira a participação nas marchas, quer na indumentária quer no cuidado com que as letras são escritas. Respeitamos o tema proposto anualmente para as Sanjoaninas e no trabalho da coreografia colocamos muito rigor, dedicação e profissionalismo no amadorismo”.
A ideia de levar uma marcha à Terceira fora pensada há mais tempo por Lô Atayde, que até fez uma marcha e letra. Gostaria de levar uma marcha às sanjoaninas mas tal nunca aconteceu porque as pessoas “achavam a ideia louca”, como nos referiu a própria, sendo que anos mais tarde a ideia materializou-se após a exibição da marcha de um Grupo de amigos no Clube Micaelense, em Ponta Delgada. 
Conta-nos António Ricardo Franco que nunca acreditou ser possível em São Miguel uma actuação como a que fizeram no Clube. “No final, fui ter com a Alice Athayde e disse-lhe, em jeito de brincadeira, que só faltava fazermos uma marcha para ir às Sanjoaninas. Meia hora depois ela já tinha sete pares. Da brincadeira passamos à acção, isto é, acabamos por arranjar amigos para a marcha e no final tínhamos 96 pessoas”. Aos idealistas juntam-se nos primórdios para criar a associação José Manuel Bolieiro, Lô Athayde e Maria José Duarte. 
Como opina Lô Athayde a marcha e a letra que havia feito anos antes não a encontrou. Fez nova letra e música. A marcha compôs-se e a exibição em terras angrenses deu-se. 
“A letra estava a condizer com a nossa ida. Resolvi brincar com as diferenças existentes entre as duas ilhas. Fizemos ensaios. Partimos para a Terceira, só que íamos receosos por não sabermos qual seria a recepção, mas fomos muitíssimo bem recebidos.  Foi um sucesso, foi muito giro e até espectacular, de tal maneira que, antes de chegarmos à Rua de São João, olhei para trás e chorei, chorei… A forma como nos receberam e a alegria fez-me chorar de emoção”, recorda emocionada Lô Athayde, ideia partilhada por Carlos Ferreira que diz ser comum “as lágrimas”, dado que a emoção é tanta ao ver que as pessoas interagem e se levantam à passagem da marcha para aplaudir e interagir. “Quando descemos a rua da Sé a emoção é tanta que vamos marchando e limpando as lágrimas”, recorda Carlos Ferreira.
Até hoje, regista Lô Athayde, “as letras têm sempre muito em comum com todas as ilhas, para nos unirmos e não para nos afastarmos”, com Carlos Ferreira a acrescentar que “são autênticas lições da história dos Açores”, como a marcha que fizeram sobre o Absolutismo.
A memória da primeira edição, repetida anos após ano não sai da memória do fundador. “Foi um sucesso estrondoso”, diz António Ricardo Franco, o qual tem sido repetido durante uma década, com excepção de 2017, ano em que o grupo se deslocou aos EUA para participar nas grandiosas festas do Divino Espírito Santo da Nova Inglaterra, numa iniciativa apoiada por Roberto Medeiros e Gabriel Patrício, através da sua empresa, Patricio Enterprises. 
Contudo, a participação micaelense em terras da diáspora tem uma perspectiva cultural diferente, já que se fala de saudosismo. 
Carlos Ferreira garante que “o impacto foi muito grande. A letra que levamos tocou-lhes e fez com que muitos emigrantes falassem da importância de nos termos lembrado deles.”
Piedade Lalanda, autora das letras actualmente, sustenta que a ida aos EUA “foi uma experiência diferente do que eles estão habituados a vivenciar. “Eles têm muito desfile etnográfico e nós levamos na marcha alegria e dança. Interagimos com eles e isso fez toda a diferença naquele evento anual, que são as festas do Divino Espírito Santo de Fall River, que, como sabemos, têm a suas componentes próprias da identidade e presença que a marcha levou e teve junto da comunidade. Foi muito gratificante, embora o trajecto não seja fácil porque é a subir, sob um sol escaldante, e em Angra é ao fim do dia e a descer”.
Para além disso, a socióloga que também já foi marchante, refere que “a ida aos EUA permitiu-nos também um conjunto de contactos com a comunidade emigrante, onde houve oportunidade de cantar músicas açorianas e interagir com a comunidade que nos convidou. Foram momento de convívio e de contactos com várias instituições, entre elas a Casa dos Açores e a Casa da Madeira”. 
O Grupo também já actuou na ilha do Pico, mas o impacto não foi o mesmo da participação nas Sanjoaninas. Em São Miguel, os marchantes todos os anos participam nas Festas de São Pedro no Relvão, em Ponta Delgada, e têm tido convites para actuar em várias localidades, tendo este ano aceitado participar nas festas de São Pedro da Ribeira Grande, que, entretanto, foram canceladas.
No caso das Sanjoaninas, Piedade Lalanda sustenta a ideia de que “São Miguel conseguiu mostrar que se integrava as marchas na Terceira sem deixar de ter a sua marca e forma próprias de estar”. E a questão da cultura é importante, regista, “porque dissolve o bairrismo (ilhismo), pois é evidente que existe um despique entre terceirenses e micaelenses. E esta possibilidade de unir as nossas sensibilidades através de um evento cultural está mais do que provado que é real, que é possível, e os micaelenses contribuem muito para levar famílias, promovendo com a Marcha o turismo interno. Depois de nós, já vão outras marchas de São Miguel, e isso tem um peso grande. Os terceirenses recebem-nos muito bem porque percebem que não vamos à Terceira afrontar ninguém e sim que respeitamos o evento deles”. 

Cancelamento deixa tristeza
O cancelamento do evento angrense, à semelhança de outros que não se realizam nos Açores, provocou “uma grande tristeza e um desgosto” nos marchantes que olham para esta festa como a oportunidade de estreitar os laços culturais entre as duas ilhas, promover a amizade e a alegria entre comunidades ilhéus. Aliás, todos são de opinião, de que a marcha sobrevive porque nasceu e continua a ser feita pela amizade. A prova disso são os mega jantares para angariação de verbas, que nos últimos anos têm juntado cerca de mil participantes. A amizade entre todos é muito importante para fazer vingar um projecto desta natureza já que o mesmo dá muito trabalho e necessita da dedicação de todos. 
Luís Freitas (Presidente da Associação Marcha dos Coriscos) diz que após o cancelamento foi feito um vídeo com uma mensagem a Angra, garantindo a Marcha dos Corisco que “se tudo corresse bem para o ano estaremos lá. Este vídeo teve centenas de partilhas, na sua maioria de pessoas da Terceira, e uma grande parte destas comentaram que até então não tinham percebido que o sentimento dos Coriscos para aquela festividade era tão grande. Houve pessoas a dizer que lhes tinham chegado as lágrimas aos olhos ao ver a nossa mensagem. Também há comerciantes que já nos convidaram a aparecer nos seus estabelecimentos no próximo ano para nos oferecerem produtos locais. Também nós não tínhamos a percepção de que havia tanta emoção com a nossa presença. O próprio presidente da Câmara Municipal de Angra fez questão de agradecer formalmente. 
O facto de não participarmos este ano deixa um grande desgosto em todos nós”, sublinha Luís Freitas. Até porque acaba o carnaval e já estão todos a postos para dar o seu melhor. Ao longo de quatro meses fazem no mínimo 20 ensaios (cerca de 2 ensaios semanais de duas horas cada). Por esta altura, a marcha já estava rumando para a ilha Terceira, para dar corpo a uma marcha que este ano tinha um traje desenhado pela estilista Sandra Medeiros. Antes, a autoria dos trajes foram feitos, por ordem, pelos estilistas António Carreiro, Isabel Roque e Margarida Sousa. A agulha, linha e dedal para dar corpo aos trajes estão nas mãos das costureiras Maria José, Alzira e Flávia, da Ribeira Grande, que executam para as mulheres, e para os homens Ana Domingues Almeida,de Água de Pau, que fora costureira pessoal da falecida Alice Athayde e pela mesma convidada para executar os trajes masculinos, mantendo-se no activo até hoje. 
A coreografia da marcha esteve primeiro mas mãos de Laurinha Brandão e hoje cabe a Mena Botelho e Jorge Botelho. João Oliveira é o maestro. 
Luís Freitas diz que “no início de Janeiro fica fechada a constituição da marcha. Sendo a mesma constituída em primeiro lugar pelos actuais marchantes, depois pelos antigos, e só depois é que há ou não aceitação de novos marchantes. A marcha é constituída por cerca de uma centena de marchantes, todos os anos”.
Da parte da entidade promotora – a Câmara Municipal de Angra - a participação dos micaelenses nas festividades são “um hino a Angra”, tal como já o referiu o Presidente edilidade anfitriã, e como recordam os também nossos entrevistados, com Luís Freitas, a defender a ideia de que “é justo dizer que os Coriscos têm tido a oportunidade de contribuir para aquele que é um momento com tradição e de relevo da cultura açoriana, através da sua alegria e amizade”.   
       

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