José Carlos Almeida, artista plástico, autor do Monumento aos Combatentes

“Não me considero um artista de grande projecção, mas aqui nos Açores acho que tenho o meu lugar...”

 Antes de ser artista plástico, teve outra profissão?
Fui bancário. Trabalhei no Banco Comercial dos Açores, no Banif e depois quando o Banif passou para o Santander reformei-me e agora estou completamente livre para fazer aquilo que me dá na gana. Se calhar, essa situação devia ter sido ao contrário. Eu devia, durante aqueles anos que trabalhei, estar livre a fazer aquilo que queria e agora podia ir trabalhar para o banco. Agora faço aquilo de que gosto e que me dá na cabeça.

Quando é que percebeu esta sua vocação, este seu dom?
Desde sempre, desde criança, desde que eu me lembro. Nasci nos Arrifes, numa freguesia rural e há 50 ou 55 anos, era mesmo rural. Não se tinha conhecimento, nem possibilidade de seguir qualquer via artística, nem nunca ouvi falar de nada disso na altura, mas eu lembro-me que em criança já fazia uns desenhos. Quando fui para a escola primária a professora evidenciou essas características que eu tinha e que para mim eram normais. Eu não achava nada de extraordinário, não valorizava absolutamente nada. Mas a professora valorizou os meus desenhos e enviou alguns para Lisboa, para uma exposição escolar que havia na altura. A partir disso comecei a perceber que tinha algum jeito. Também enquanto criança era eu que construía os meus brinquedos. Sempre tive muita facilidade em fazer trabalhos manuais. Depois da escola tirei o curso de electricidade. Não me dediquei ao desenho porque também não houve motivação, não havia orientação para isso e só depois, muito mais tarde, quando fui para a tropa, em Lisboa, é que comecei a ter mais contacto com essa área. Comprei uns livros de desenho e comecei a interessar-me mais.

Tudo por sua iniciativa?
 Sim. Até porque eu sou um autodidacta e não tenho formação académica nenhuma, embora tenha tido contacto com alguns artistas como o Aristides Âmbar ou a Luísa Constantina. Não tenho formação académica, mas como era muito interessado fui comprando livros, fui visitando exposições e depois há o mais importante disso tudo que é a pessoa ter esse dom. Sem isso não vale a pena.  

De todas as formas de arte, qual é a sua preferida? 
Durante algum tempo dediquei me mais à pintura, porque era a mais acessível. O desenho acaba por ser a base de todas as artes visuais. Eu faço desenho, pinto aguarelas, faço pastel, faço paisagens eu sou muito diversificado, mas no entanto se tivesse de escolher optaria pela escultura. Isto porque a escultura engloba, de alguma forma, todas essas áreas e para mim o mais importante são as formas, o volume, o contacto, e isso tudo levava-me a escolher a escultura.

Tem feito muitos bustos, as pessoas contactam no muito?
Em bustos, aqui nos Açores, devo ter uns 20. Depois tenho a estátua do cardeal Humberto Medeiros nos Arrifes, tenho o Monumento aos Combatentes ao pé do hospital de Ponta Delgada, tenho uma outra escultura no Centro de Saúde de Santa Maria e tenho também, a Porta dos Povoadores, na Povoação. São estes os trabalhos públicos com alguma dimensão. Depois em pequenos trabalhos tenho muita coisa que fui vendendo a particulares. 

Explique-nos um pouco do seu processo artístico?
Dentro da escultura fui experimentando vários materiais. Comecei pela pedra que era o mais acessível para mim na altura. Bastava ir à praia, trazer uma pedra rolada e trabalhá-la. Não era preciso comprar nada a não ser as ferramentas que mesmo assim, no início eram um pouco rudimentares. Depois passei para o barro, para o bronze, para o mármore e agora, nos últimos tempos, tem sido também a madeira. Hoje em dia tenho caminhado mais para uma área que não digo que seja abstracta, porque eu não me considero um artista abstracto, sou um figurativo. Mas eu sempre tive essa inclinação para aproveitar as formas e, mesmo na pedra, eu procuro não estragar muito as formas originais que a natureza me dá, ou seja, o material é que me vai indicar o que é que quer que eu faça.

Não vai à procura de um material específico?
Nesse aspecto tenho as duas formas de abordar. Uma é encontrar uma pedra ou um tronco de uma árvore olhar para aquilo e ver nele qualquer coisa. A outra é procurar uma pedra ou um tronco que traga algumas condições de forma, para eu poder realizar o trabalho que tenho em mente. Acontecem as duas coisas. 

O seu processo criativo tem essas duas vertentes…
Sim, mas obviamente que nos bustos e nas estatuas é diferente porque temos de fazer aquilo que nos é proposto. Quando é uma escultura livre, a própria forma do material é uma fonte de inspiração e já nos orienta. Eu procuro não estragar muito a forma original. Porque muitas vezes essas formas, quando são naturais, têm uma força muito grande, são coisas quase inesperadas. De repente a natureza dá-nos uma forma que seria muito difícil nós criarmos por nos próprios. Nesta forma de trabalhar eu também me sinto um pouco limitado no sentido de não ir a pormenores que não tenham interesse. Esse tipo de limitação coloca-nos um certo travão e faz com que se criem coisas mais inesperadas e esse processo, esse encontrar, também faz com que me vá surpreendendo com as formas que vou encontrando quando estou a trabalhar o material.
 
A natureza é a sua inspiração?
É a principal inspiração. A própria natureza humana também. Vivemos na natureza e ela é a mãe de tudo.

No processo criativo de que já falou, por vezes também terá por vezes algumas dificuldades, alguns bloqueios?
Mesmo nessa forma de trabalhar e no caso concrecto da madeira, eu tenho alguns trabalhos que por vezes ficam mais de um ano parados. Não fico obcecado com uma peça. Eu tenho um sistema de trabalho em que, por exemplo, trabalho umas horas e depois, ou fico saturado ou não estou concentrado, e páro. Tenho sempre 2 ou 3 trabalhos em mão. Não fico obcecado e até gosto de colocar de lado alguns trabalhos. Quando regresso, começo a ver outra coisa e na escultura, tanto em madeira como em pedra, quando tiramos uma parte da peça já não há volta a dar. Portanto, há que ter uma convicção, uma intuição daquilo que se está a fazer. Eu trabalho muito por intuição.

Esse é o seu trabalho mais abstracto, mas também realiza muitos bustos e estátuas?
Sim, também é interessante. Eu não coloco de parte o retrato. Para fazer um busto, um retrato de uma pessoa em escultura, não é fazer uma cópia e acabou. É preciso captar a expressão da pessoa e transmitir para o papel ou para a escultura, não é fácil.

Faz isso através de fotografias que lhe enviam?
De uma forma geral, os bustos são de pessoas que já faleceram. A maior parte das vezes trabalha-se com fotografias, muitas vezes antigas e de fraca qualidade, que nos dificultam imenso o trabalho. Veja bem, uma coisa é uma fotografia em duas dimensões. O busto é em três dimensões. Tem de se fazer uma interpretação da profundidade. Na fotografia vê-se de um ângulo e na escultura tem de se observar todos os ângulos. É preciso interpretar muito bem as formas e ler as sombras. É um trabalho muito complexo.
O que é que sente quando vê uma obra sua exposta em locais públicos? 
É um bocado estranho e não sei se as pessoas vão compreender. Obviamente que sei que fui eu que as fiz, mas é algo que não me pertence. É um pouco como os nossos filhos. Sabemos que são nossos mas que tem uma vida própria. Dá-me mais satisfação o trabalho que estou a realizar no momento do que aquele que está feito. 

Há algum trabalho seu em particular de que goste mais, ou de que se orgulhe mais?
Há várias formas de responder a esta pergunta. Claro que existem trabalhos que têm mais projecção a nível social do que outros. Mas eu não tenho uma preferência especial por nenhum trabalho, sinceramente não tenho. Eles são todos diferentes. O Monumento aos Combatentes tem a sua particularidade e a sua técnica de construção, a Porta dos Povoadores já é completamente diferente, tem outro método de trabalho. Comparar estes trabalhos é muito difícil porque são todos distintos. O que me interessa mais é o que estou a fazer agora. 

Falemos então do futuro, o que é que está a idealizar? 
Não tenho nenhuma programação, nem objectivos definidos. No presente quero corresponder à minha inspiração, à minha motivação e a minha preocupação é principalmente com isso. Ir fazendo coisas e é natural que quando se tem trabalho realizado, que apareça uma exposição. Quero continuar a fazer aquilo que me vai aparecendo de uma forma natural e intuitiva.
Como vê o estado da arte nos Açores?
De uma forma geral e não falo de todos, os artistas são individualistas. Preocupam-se mais consigo do que com o todo. E eu, embora não esteja fechado completamente sobre mim, sou um pouco individualista. Trabalho sozinho e não pertenço a nenhuma comunidade artística. A arte é uma coisa viva que tem a sua dinâmica. Tem momentos menos activos e outros ao contrário. Cada um tem de fazer a sua parte e se aparecer alguma coisa para projectar no exterior, essa coisa irá aparecer de certeza. Sou um amador e não me considero um artista de grande projecção, mas aqui nos Açores acho que tenho o meu lugar. Sou alguém que não vive exclusivamente da arte e compreendo que as pessoas que são profissionais, que vivem da sua arte, precisam por vezes de apoio. Mas não são os apoios que fazem os artistas, servem para os seres humanos viverem, para subsistirem. 

Se pudesse voltar atrás, tinha feito da arte a sua carreira em exclusivo?
Sim, sem dúvida. Para se ser um verdadeiro artista é preciso ter algumas coisas importantes. Uma é a vocação, a outra é a inspiração e a motivação e finalmente, um bocado de sorte no meio e na sociedade onde vive. Gostaria de ter vivido só da arte mas se calhar não tive a motivação suficiente para me impôr a esse desafio. Não fui capaz de escolher a vida artística e de correr esse risco. Se tivesse conseguido fazer da arte a minha vida, teria sido perfeito, teria sido “ouro sobre azul”. Não consegui mas também não me martirizo por causa disso. 

Luís Lobão

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima