21 de junho de 2020

Cooperação sem vassalagem

 1- Por ocasião das celebrações do Dia de Portugal, os Estados Unidos da América, através do Secretário de Estado, Mike Pompeo, enviaram uma saudação ao Governo português na qual dizia: “Temos orgulho de contar com os portugueses entre os nossos aliados transatlânticos, enfrentando desafios globais lado a lado”. Lembrou depois o arquipélago dos Açores que, como disse, “ocupa um lugar especial no nosso relacionamento, tanto na herança de muitos luso-americanos, quanto na cooperação vital no domínio da defesa na base das Lajes”.
2- O invólucro contendo o orgulho nos aliados transatlânticos trouxe emoldurado o especial relacionamento com os Açores pela cooperação vital no domínio da base das Lajes, reconhecimento que se percebe, e que faz parte de uma Acordo de Cooperação que está descontinuado desde a redução unilateral dos efectivos e serviços dos EUA nos Açores, devendo por isso abrir-se uma nova fase para a sua revisão. 
3- Tal necessidade foi sugerida várias por nós, e foi assumida como uma necessidade pelo Presidente do Governo dos Açores, só que o Ministro dos Negócios Estrangeiros prontamente tomou partido pela conveniência de Portugal e pelos EUA e contra os Açores, como tem acontecido noutras matérias, alegando que deixaria tal encargo para o seu sucessor.
4- Portugal esteve sempre de cócoras perante os EUA quando se tratava de rever o acordo, e se tal postura se compreendia em 1973, porque o Estado Novo precisava do apoio da América na ONU para manter a política colonial em África, não se entende que no século XXI Portugal não exerça o seu direito de adequar o actual Acordo à nova realidade, quando os americanos resolveram retirar unilateralmente das Lajes, deixando questões ambientais e laborais por resolver e sem cuidarem do impacto económico que tal debandada provocou na ilha Terceira.
5- Não fora a posição determinante e justa dos três primeiros Governos dos Açores junto dos Primeiros-ministros Mário Soares e Pinto Balsemão,  exigindo a revisão do Acordo entre Portugal e os EUA, posição secundada e assumida pelos Ministros dos Negócios da época, Medeiros Ferreira, Freitas do Amaral e Jaime Gama, Portugal não teria obtido os vultuosos apoios financeiros e diverso equipamento militar resultante dos novos acordos, nem os Açores teriam conseguido usufruir da compensação financeira que legalmente lhes pertencia, e que foi essencial numa altura em que ainda não havia os fundos europeus que jorraram a partir do final da década de noventa.
6- Para camuflar os prejuízos da retirada dos americanos das Lajes, o Governo da República desdobrou-se numa campanha de marketing político pomposamente acolhida nos Açores, como um paliativo salvífico propondo a criação de novos pólos de desenvolvimento na Terceira, começando pela criação do AIR Center para o estudo dos oceanos, clima, espaço, energia e ciência de dados no Atlântico. 
7- O primeiro, e julgamos que único computador vindo da América para o efeito, foi parar para a Universidade do Minho e não à sede do AIR Center nos Açores, bibelô de que nunca mais se ouviu falar, nem se conhecem as suas proezas. 
8- Segue-se o anúncio da instalação do Centro de Defesa do Atlântico, que o antigo Ministro da Defesa, Azeredo Lopes, procurou “vender” ao Governo americano, que não achou o produto apetecível e com a qualidade necessária nele se envolver. O Centro acabou, depois, como um nado morte do qual já se perdeu o rasto.
9- Resta ainda saber o resultado final quanto ao concurso para a construção e exploração do Porto Espacial de Santa Maria.
10- Na lista dos incumprimentos da República falta ainda, entre outros, dar cumprimento ao contrato acordado que aguarda desde Fevereiro ser assinado, para reforçar o financiamento da Universidade dos Açores em cerca de 1,2 milhões de euros por ano, num total de 4,8 milhões de euros.
11- A Autonomia cooperativa não pode ser uma Autonomia submissa, nem os partidos com estruturas autónomas podem comportar-se como vassalos dos partidos nacionais, como aconteceu com o PSD/A no Governo de Passos Coelho e como acontece agora com o PS/A nos governos da geringonça e de António Costa. 
12-    Estar nas ilhas implica resiliência perante as adversidades e elas começam com a nossa condição arquipelágica. Não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo.
    
                                   

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Categorias: Editorial

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