Ermida de São João Baptista e Lagoa do Congro eram os locais escolhidos para celebrar o dia de São João da Vila

Junto à Quinta dos Curubás, na freguesia da Ribeira Seca em Vila Franca do Campo, nas imediações da estrada regional, é possível avistar uma pequena ermida que tem como objectivo homenagear o santo que todos os anos, com excepção deste ano, traz até ao concelho milhares de pessoas na noite de 23 para 24 de Junho, uma vez que se celebra a tão esperada noite de São João.
Estas pessoas, entre turistas, locais e emigrantes que escolhem esta altura do ano para regressar a São Miguel, preparavam-se para esta noite apreciar os 15 grupos de marchantes confirmados para 2020 que, com fatos coloridos e vistosos, como sempre são, iriam apresentar ao público o trabalho que desenvolveram ao longo do último ano, sem esquecer a sardinha ou o copo de vinho a acompanhar.
Assim, tendo em conta que esta grande festa – à semelhança de todas as outras – não se irá realizar neste ano, é sempre possível dar um pulo ao passado e conhecer um pouco melhor algumas das tradições que marcaram o concelho na época de São João, ainda antes de esta tradição existir como a conhecemos hoje.
Nos seus 88 anos de idade, José Cabral, homem que dedicou metade da sua vida ao ensino e à preservação da identidade cultural de Vila Franca do Campo, envolvendo-se nas diversas actividades culturais do concelho, conta de que forma a população desta vila celebrava o dia de São João, sendo esta uma tradição que cumpriu também com a sua própria família durante muitos anos, conforme conta.

São João passado junto à Lagoa
do Congro
Muito antes do ano de 1968 – ano em que as marchas populares desfilaram pela primeira vez pelo centro de Vila Franca do Campo –, a população vilafranquense celebrava o feriado municipal nas matas da Lagoa do Congro, de forma a conviver o mais possível.
Naquele dia logo pela manhã, relata o professor reformado, “a população, nas suas ligações familiares e de amizade, ponha-se a caminho da Lagoa do Congro utilizando carros de bois, carroças, cavalos e outros e animais”, sem esquecer os muitos que faziam o caminho todo pelo seu próprio pé.
Pelo caminho carregavam alguma comida que lhes permitia fazer piqueniques em conjunto, e ali “passavam um dia tipicamente regional no qual as pessoas se divertiam. Não com bailados como há hoje, mas com violas, guitarras ou acordeões. Quem sabia tocar juntava-se e passavam o dia a dançar, a pular e a cantar, o que se tornava bastante alegre e bastante divertido”, conta.
Entretanto, e enquanto a população se divertia na Lagoa do Congro, nas torres das igrejas Matriz e da Misericórdia ficavam a tocar as bandas filarmónicas do concelho, que na altura eram a Banda Lealdade e a Banda União, onde mesmo antes de a festa se começar a realizar na rua principal do concelho, eram enfeitadas várias fontes e ruas.

A ermida de São João Baptista
Nesta altura, um pouco antes de as festas se começarem a tornar um pouco mais naquilo que hoje conhecemos, a ermida de São João Baptista, das poucas que se manteve intacta depois do grande terramoto de 1522 que abalou Vila Franca do Campo, era privativa, e embora o dono do terreno em questão colocasse a ermida à disposição das pessoas, esta não estava em condições para que ali fosse feito algum ritual religioso.
Ainda assim, antes que a festa passasse a decorrer onde hoje se concentra, José Cabral realça que antigamente as pessoas também optavam por conviver perto da ermida, mantendo-se o costume de levar algum tipo de merenda para ali passar o dia em família, até porque como ainda hoje sucede, o dia de São João é sempre assinalado com uma cerimónia religiosa no interior da mesma.
No entanto, quis “o acaso” que esta ermida viesse a estar na família de José Cabral, por intermédio do filho, actual proprietário da Quinta dos Curubás, sendo-lhe estendida a possibilidade de recuperar a antiga capela que, com o apoio do pai na reconstrução da “parte artística e histórica” conseguiu fazê-lo.
“A ermida destruída de São João Baptista estava no terreno de uma pessoa amiga que tinha muitos terrenos. Havia pedras que tinham sido tiradas, outras que desapareceram com o tempo e tivemos que fazê-la de novo”, diz.
Contudo, a reconstrução do monumento viria a ser possível através de uma conversa entre pai e filho, que resultaria na procura de um local em que o agora empresário pudesse construir a sua casa e dar início à sua própria vida familiar.
“As coisas acontecem muitas vezes por acaso. O meu filho começou a pensar em arranjar uma casa, e ao falar comigo num Domingo à tarde disse-lhe que se ele andasse um bocadinho iria encontrar um terreno com os restos da ermida de São João Baptista.
Ele foi, viu o terreno e em seguida foi falar com o dono que morava aqui em Vila Franca do Campo. O homem resolveu logo dar-lhe o terreno para fazer uma casa, na condição de ele restaurar a ermida, e assim a casa foi construída em troca do terreno para ele fazer a casa e o restauro da ermida”, relembra.
De acordo com o antigo professor, aquela é “uma ermida histórica, que faz parte da história de Vila Franca do Campo”, e o pior que aconteceu à infra-estrutura foi o facto de os seus donos terem sempre “deixado que ela chegasse ao seu fim”, até ao dia em que “apenas restou um montão de pedra”.
Depois de cumprir a sua parte, ao voltar a erguer aquele monumento que se presume existir desde o século XVI, o dono da ermida entregou a chave ao filho do professor José Cabral, e apesar de este estar ainda hoje disposto a abrir o espaço para o dar a conhecer a locais e a turistas interessados em conhecer mais relativamente à história daquele concelho, a família considerou que seria mais adequado deixar o espaço à responsabilidade da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo.
Contudo, mesmo tendo a sua manutenção assegurada pela autarquia, a realidade é que a antiga capela continua a apresentar um ar de abandono, quer através da pintura já com sinais de envelhecimento, quer pelo facto de ser possível ver o interior da ermida através de uma protecção rota, ou, conforme conta o nosso entrevistado, pelo facto de chover dentro da ermida.
“Agora a ermida está por conta da câmara municipal, mas a autarquia tem sempre muita coisa para fazer, pincelam cal nas vésperas da festa e vamos andando, até porque tem já chovido lá dentro. Aquele é um lugar alto, apanha muita chuva e muito vento, quando chove bate muito ali… e é preciso não esquecer que a degradação de uma casa pequena dá-se muito rapidamente”.

Uma breve cronologia da ermida de São João Baptista
De acordo com o Sistema de Informação para o Património Arquitectónico (SIPA), a capela em causa terá sido construída no início do século XVI, inserindo-se na quinta de Jorge da Mota, Cavaleiro na Ordem de Avis, servindo alguns frades que ali celebravam as suas missas, tendo em conta que em Vila Franca do Campo não existia outra capela em condições.
Ainda no século XVI, a capela conseguiu resistir ao grande terramoto que arrasou Vila Franca do Campo em 1522, havendo no entanto relatos de que entre o século XVII e XVIII existiriam diversos ajustes a fazer na infra-estrutura, nomeadamente um retábulo novo, um missal novo e um frontal branco, notando-se em 1711 a falta de “muitas alfaias e paramentos”, cumpridos depois da visita de Francisco Barbosa da Silva.
Por seu turno, em 1789, aquando da visita de João Bento de Arruda, vigário de São Pedro de Ponta Delgada, que apontou a necessidade de diversos reparos, nada foi feito.
Mais tarde, em 1811, também o Bispo D. José Pegado de Azevedo visita a ermida, sendo concedido o prazo de um ano para a realização dos vários melhoramentos, adiantando que se tais não fossem cumpridos “não se poderia celebrar o Santo Sacrifício nem dar-se culto público”.
Contudo, como não foram feitos os melhoramentos exigidos pelo bispo, em 1834, após a lei de desamortização, o último administrador do vínculo de Jorge da Mota, o Morgado Luís Francisco Rebelo Borges de Castro, “fica sem a obrigação de aplicar os rendimentos na ermida, deixando-a ao abandono”.
Quase um século depois, em 1949, a capela é declarada como “completamente destruída”, levando a que a imagem de São João Baptista tenha sido posteriormente transferida para a Igreja da Ribeira das Tainhas.
Em 2001, dá-se então a reconstrução completa da ermida cuja manutenção pertence agora à Câmara Municipal de Vila Franca do Campo, e que amanhã, no dia de São João, não irá receber a população para a habitual missa de homenagem ao santo que vários milhares de pessoas leva ao concelho habitualmente.
Neste sentido, o padre José Borges relembra que pelo facto de a ermida de São João Baptista ser um espaço demasiado pequeno, a cerimónia religiosa que habitualmente ali decorre, realizar-se-á excepcionalmente na Igreja Matriz de Vila Franca do Campo, pelas 11h00 desta quarta-feira, tendo em conta o panorama geral provocado pelo novo coronavírus e pelos planos de contingência aplicados nas igrejas.

Vila Franca do Campo mantém
encanto para o São João
Mesmo sem a habitual agitação que por esta altura já tomava conta de Vila Franca, onde já eram visíveis as cadeiras que guardavam os lugares dos que desejavam ver as marchas populares em primeira fila, os turistas e visitantes curiosos e as barraquinhas que começavam a ganhar forma, o concelho – mesmo em tempo de pandemia – manteve as decorações alusivas à festividade.
Desde a Rotunda dos Frades até à Praça Bento Góis há cores e flores que relembram uma das maiores festas do concelho, e nem as varandas dos populares escapam, mostrando aquele que será possivelmente o desejo de voltar às celebrações habituais o mais rapidamente possível.

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