Lázaro Silva, da Associação de Pescadores da Ilha Graciosa

Pescadores de São Miguel ganham 4 ou 5 vezes mais na Graciosa e são uma mais-valia na ilha

Lázaro Silva é o Presidente da Associação de Pescadores da Ilha Graciosa e assistiu ao início desta migração de profissionais da pesca. Recorda que, a partir do ano de 2008, começaram a chegar à ilha profissionais oriundos de São Miguel e começa por apontar a questão demográfica como uma das razões para esta migração. 
“Aconteceu devido à falta de mão de obra que as ilhas mais pequenas tem sentido nesta actividade. É uma actividade que carece de algum profissionalismo e em que é preciso ter gente experiente. Infelizmente os nossos pais e os nossos avós foram falecendo de forma que fomos ficando com menos pessoas”, salienta.
A grande abundância de peixe na costa e o “chamariz” financeiro resultante de uma diferente distribuição dos quinhões ou “soldadas de quinhões” (à moda da Graciosa) foram fundamentais para a escolha da Ilha Branca.
 “Começaram a perceber que o número de quinhões dividido era muito inferior ao aplicado em portos como Rabo de peixe, Ponta delgada ou mesmo São Mateus, na Ilha Terceira. Eles lá fazem 7,8,10,12 ou 15 quinhões e aqui, na Graciosa, a embarcação ganha uma ou duas, depois o mestre pode ganhar uma ou duas e o pescador por sua vez ganha uma ou uma e meia. Os quinhões são muito inferiores aos aplicados em São Miguel. Daí vem o chamariz para que os pescadores de Rabo de Peixe venham para cá. Ganham 4 ou 5 vezes mais do que ganhariam em São Miguel”, revela Lázaro Silva.
Outra das razões está relacionada com a qualidade de vida e com a menor dimensão da ilha.
“Aqui conseguem ir para o mar às cinco da manhã e regressar ao meio dia a terra, quando em Rabo de Peixe por vezes têm de fazer grandes distâncias para os pesqueiros e ter de estar 2 ou 3 noites por cima do mar. A vida que eles têm na Graciosa é muito mais saudável e dá-lhes muitos mais anos de vida. Trabalhando menos e ganhando mais com maior saúde”, afirma Lázaro Silva.
Sobre a mais valia que estes pescadores de Rabo de Peixe trouxeram para a ilha, o Presidente da Associação de Pescadores da Graciosa, afirma que “quando eles começaram a vir e na parte que toca ao trabalho, não tínhamos nada para ensinar. São bons profissionais e adaptaram-se bem às nossas regras”. 
Admite que nos primeiros tempos existiram “alguns pequenos conflitos”, mas como refere Lázaro Silva, “eles depois começaram a adaptar-se. O primo trazia o primo, o pai trazia os filhos e assim por diante. Depois começaram a integra-se facilmente na sociedade graciosense”. Apesar de muitos destes pescadores viverem na ilha de forma “flutuante”, regressando a São Miguel “durante um mês ou dois”, o Presidente da Associação de Pescadores aponta casos de integração completa na Graciosa.
“Temos 3 casos que até já casaram com graciosenses e são pais de filhos aqui”, refere Lázaro Silva 
Armador Micaelense na Graciosa

Gil Pacheco tem 51 anos “a uma semana de fazer 52”, começa por dizer. É o único armador oriundo de São Miguel, em permanência na segunda mais pequena ilha dos Açores, para onde se mudou há 14 anos. É natural de Água de Pau e teve dois “barcos pequenos” na Lagoa.
Diz que “a pesca o levou à Graciosa” e que “gostou da forma como se pescava com linhas de mão com engodo. Com menos trabalho ganhava dinheiro, agora em São Miguel está cada vez pior”, desabafa.
Conta também que a vida de pescador é incerta. “Há dias que se ganha e há outros que não se ganha, a vida do mar é assim. Mas ganha-se mais qualquer coisa aqui”, refere.
Gil Pacheco lembra os primeiros tempos na Graciosa e algumas dificuldades pelas quais passou. “No princípio vim sozinho para aqui e não conhecia ninguém. A primeira pessoa que conheci foi o irmão do Lázaro Silva. Estive a morar na Folga (pequeno porto na zona sul da ilha) quase 3 meses, naquela casinha do porto de pescas”.
Depois de “assentar” e comprar uma embarcação, a mulher e dois filhos mudaram-se definitivamente para a Graciosa. A família foi crescendo e já viu nascerem outros 6 filhos por lá.
Gil Pacheco, homem do mar, não tem dúvidas quando questionado se pretende regressar a São Miguel.
“Nunca na vida. A minha ilha é esta. Nasci em São Miguel mas para nível de trabalho a minha vida é aqui a Graciosa”. 

Luís Lobão
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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