Proprietário de 4 hotéis, vai reabrir o Pedras do Mar a 1 de Julho

Victor Câmara diz que tem prejuízos de dois milhões de euros e que é preciso os Açores mostrem que querem turistas

 O mínimo que se pode dizer de Victor Câmara é que é um empresário turístico dinâmico e ousado. E, na realidade, ele é mais do que isso: tem-se mostrado um gestor exímio em tempo de crise. As quatro unidades hoteleiras que gere em São Miguel, que fazem parte do grupo empresarial Açorsonho, são muito recentes. Quando o empresário foi, agora, apanhado pela crise pandêmica da Covid-19, que levou ao encerramento dos quatro hotéis, estava longe de ter meios próprios gerados por esta cadeia hoteleira para suportar os prejuízos que, no seu entender, já rondam os dois milhões de euros, mas que podem ser ainda maiores. 
Recorreu a todas as medidas nacionais e regionais de apoio, designadamente para solucionar problemas de tesouraria e para a manutenção do emprego. Hoje tem todos os seus cerca de 190 trabalhadores em casa em lay-off com o complemento regional que o obriga a mantê-los, no mínimo, até Dezembro mas aberto a segurar este nível de emprego até Março de 2021 se o Governo dos Açores anunciar o prolongamento das medidas até ao final do primeiro trimestre de 2021 como, segundo apuramos, deverá acontecer.
 Victor Câmara vai abrir a 1 de Julho o hotel Pedras do Mar, localizado entre as Calhetas e os Fenais da Luz, com 40 trabalhadores, para honrar os compromissos que assumiu com os seus clientes, mesmo sabendo que as reservas actuais de 20%, - que podem ser muito inferiores no momento da ocupação efectiva -, vai representar um prejuízo em três meses. Como dá a entender, mais valeria ter o hotel fechado até ao Verão do próximo ano, tal como vai acontecer com as outras três unidades hoteleiras.  
Como se pode perceber na entrevista, há no discurso do empresário Victor Câmara, uma preocupação com a qualidade de vida dos seus trabalhadores associada a uma tremenda vontade de se pôr a economia a funcionar, encontrando-se, ao nível da saúde, as melhores soluções que impeçam a entrada de casos de Covid-19 na Região e, ao mesmo tempo, o turista se decida pelo destino Açores sem ter que pensar duas ou três vezes. “Todos temos de querer saúde e turistas. E encontrar a melhor via para que isto aconteça”.
Numa consulta que o Correio dos Açores fez por alguns empresários hoteleiros ficou a noção de que a solução que tarda a se encontrar tem de ser a mais adequada para que saúde e turismo “convivam bem” e “um não prejudique o outro”. Eventualmente, a realização dos testes na origem do turista suportados pela Região. 
Foi realçada também pelo leque de empresários ouvidos pelo Correio dos Açores a “necessidade” de a Região, enquanto destino turístico, “tomar a iniciativa e  não andar a reboque de outros” porque, “a reboque, quando avançar, os turistas já fizeram outras opções”. Aceitam que “é verdade que esta forma de agir tem riscos associados” mas que “é fundamental ter o peso certo e ser determinado no momento de tomar as decisões”.
Vamos à entrevista com o empresário Victor Câmara:

Correio dos Açores – Como está a resistir à pandemia?
Victor Câmara (empresário turístico) – Temos as quatro unidade hoteleiras fechadas. Vamos abrir agora uma a 1 de Julho, a Pedras do Mar, de 5 estrelas, nos Fenais da Luz. É uma unidade hoteleira que já está em funcionamento há três anos.

As 4 unidades hoteleiras correspon-
dem a quantos quartos?
Temos 218 quartos no Pedras do Mar, no Verde Mar e no Vale do Navio, além de 26 apartamentos no Açor Sonho Apartamentos.

Como olha para o impacto da pandemia na hotelaria açoriana e, em particular, nos seus hotéis?
É terrível. Pior não podia ser. De quatro hotéis vamos abrir um e, mesmo assim, acho que não vale a pena. Mas, pronto, vamos abrir durante três meses. Não há condições para haver turismo. 

O ritmo a que a Região está a reabrir ao turismo é o correcto?
Deve-se controlar, de facto, a capacidade dos serviços de saúde. Para atender as pessoas. Mas, pelo que dizem todos os especialistas na matéria, temos uma situação pandêmica e temos que saber viver com o vírus. Se nós fecharmos este ano, como vai ser para o ano? O vírus não vai desaparecer. Por isso, entendo que as medidas são suficientes mas, se calhar, apertadas de mais.

Tem todos os trabalhadores em layoff?
Temos cerca de 190 trabalhadores e estão todos em lay-off. Vou chamar agora uns 40  para o Pedras do Mar.

Como estão as reservas para este Verão?
Muito mal. Dos quatro hotéis estou a pôr todos num e, mesmo assim, com 20% de ocupação. E, destes 20%, provavelmente, só 5% é que se vão concretizar. Muitos deles não vão aparecer na altura.

Está pessimista…
Não estou pessimista. Estou realista. Estes são os dados que eu tenho. Eu queria ser optimista mas, de facto, não sabemos o que é que se quer. Por um lado quer-se turistas. Por outro lado, não se quer…

O que está a tentar dizer?
Em média, o turista fica 3.2 noites nos Açores. Quem vem do Norte da Europa fica 7 dias e quem vem de Portugal continental fica entre um a dois dias. Se, neste momento, temos os turistas de Portugal continental, se vêm por um a dois dias, não vêm para ficarem fechados num hotel, com os resultados das análises a levarem 50 horas e 70 horas.

Em 2019 que ocupação média teve nos seus quatro hotéis?
Tive uma ocupação de certa de 70% ao longo do ano. E, no Verão, tivemos sempre números a rondar os 95% de ocupação e tivemos situações de overbooking.

E como se reage quando se passa de um ano com uma média de ocupação de quatro hotéis na ordem dos 70% para praticamente zero?
Estamos a ter prejuízos muito elevados. Quando se abre um hotel com taxas de ocupação de 20%, os prejuízos são muito elevados mesmo. Só funcionámos sem prejuízo com mais de 60% de ocupação.

Sendo a ocupação prevista para o Pedras do Mar de 20%...
A questão é mesmo assumirmos os compromissos que temos. Mas, de facto, não vale a pena. Aliás, eu desde o início entendi que só abriria para o Verão que vem. E, mesmo assim, vamos a ver. Temos de criar alguma unidade na acção para não estarmos na mesma no próximo ano. Este futuro, a curto prazo, é que já me preocupa.

A dinâmica da promoção turística dos Açores com os olhos em 2021 já deveria ser maior do que está a ser?
Esta é uma competência da Associação de Turismo dos Açores, ao Governo dos Açores e também compete a nós. E posso dizer-lhe que já estou a trabalhar com vários operadores já para o ano. A altura é esta de começar a trabalhar o ano que vem.

Já contabilizou os prejuízos?
Certamente que ultrapassarão os dois milhões de euros de prejuízos.

Recorreu às medidas nacionais e regionais para fazer face à pandemia, nomeadamente, as destinadas a resolver problemas de tesouraria?
Sim, recorri a todas as medidas. E têm sido bastantes. Estamos a manter pessoas em casa e a estamos a assegurar o mínimo de funcionamento dos próprios hotéis, com custo de manutenção.

Tem condições para manter os trabalhadores até Dezembro e, mesmo, até ao final do primeiro trimestre do próximo ano, se o Governo dos Açores estender os apoios para a manutenção do emprego?
O layoff, em princípio, pode estender-se até fins de Julho. Depois, não se sabe o que acontecerá. Mas, certamente, a nossa ideia é fechar as quatro unidades hoteleiras em Outubro até Março de 2021. Não estamos a despedir ninguém. Temos de manter o nível de emprego até fim de Dezembro.

Se o Governo dos Açores mantiver medidas de apoio à manutenção de emprego até ao final do primeiro trimestre de 2021, vai segurar os trabalhadores?
Sim, e o Governo dos Açores tem feito todos os possíveis para manter o nível de emprego e também para ajudar as empresas a suportarem os custos.

E os apoios governamentais têm vindo ‘a tempo e horas’? 
Sim, todos eles.

O nosso desejo é que tudo corra pelo melhor nas actuais circunstâncias…
Sim, sim… para nós todos!
                               

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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