“Haverá famílias que estarão ‘à beira de um ataque de nervos’ e a quem um certo distanciamento físico e geográfico faria muito bem”

Correio dos Açores - Depois de três meses de confinamento as férias devem continuar a ser uma prioridade ou passam para segundo plano?
João Ribeira, Neuropsicólogo - Se alguma coisa se provou com esta fase de confinamento é que o facto de estarmos longe do local de trabalho não nos retira o esforço e o cansaço. Em muitos casos, particularmente no caso das famílias com filhos, estes até aumentaram e eu diria que as pessoas precisam muito de férias, de descansar e de desconfinar adequadamente.

O que acha do incentivo feito aos açorianos para passarem as suas férias no arquipélago?
Acho muito bem. Se fizermos férias nos Açores e não formos para fora, à partida estamos a ajudar a manter contida a situação. Porém, sendo mesmo uma necessidade abrir portas a quem nos quer visitar de fora, a questão fica um pouco invalidada.
Acho que estimular as férias cá dentro é muito interessante mas, ao mesmo tempo, vindo pessoas de fora, por mais testes que se façam, nunca estamos verdadeiramente seguros. Podem acusar-me de incitar ao medo ou ao receio irracional, mas eu acho que a experiência com esta doença nos tem dito que não é um teste – infelizmente – que resolve o problema.
Há tempos de incubação do vírus que são variáveis, há pessoas e organismos que são assintomáticos mesmo tendo o vírus, e eu muito honestamente acho bem a medida de fazer férias cá dentro e pretendo aproveitá-la para que a minha família conheça melhor as ilhas dos Açores, mas acho que o seu propósito fica mais ou menos em causa com a vinda de pessoas de fora.
Por esse motivo todas as entidades hoteleiras, da restauração e de entretenimento deveriam reforçar ainda mais todas as medidas de segurança e de protecção das pessoas porque isso é essencial.

Acredita que as férias e o desconfinamento devem ser feitas em família?
Haverá famílias que estarão “à beira de um ataque de nervos” e a quem um certo distanciamento físico e geográfico faria muito bem. Não tenho nada a opor a que se façam férias em família e que as pessoas continuem em família.
Se já convivemos em casa com a família, fazermos férias com essa mesma família não aumenta em nada o risco de contágio. Mas dependerá muito de cada caso, embora particularmente em mães ou pais que ficaram muito tempo com as crianças em casa, algo a que não estão habituados, imagino que estejam com muita vontade e até necessidade de passarem um tempo sozinhos, mas depois fica sempre a questão da reorganização familiar necessária.
Férias em família é sempre positivo, e é preciso lembrar de que até aqui nós não estivemos de férias. No confinamento estivemos em família, muito mais tempo do que aquele a que estávamos habituados, mas não foram férias.
Obviamente que fazemos excepção daqueles casos em que o confinamento tenha sido fonte de stress e de desgaste. Neste período intensificaram-se muitos problemas, nomeadamente situações de violência doméstica e de abusos.

O que aconselha que as pessoas façam para se sentirem seguras nas suas férias?
Nesta fase é muito mais difícil, o que me parece que as pessoas possam realmente fazer é aquilo que está no seu controlo, isto é, adoptar todas as medidas de protecção adoptadas até aqui, nomeadamente o uso dos equipamentos de protecção individual, o manterem o distanciamento social, manterem as regras de etiqueta respiratória, e escolherem os sítios onde vão de acordo com as condições que estes oferecem.
(…) É a única coisa que está ao nosso alcance, e também está mais do que provado que se todos usarem máscara o risco de contágio é muito mais baixo, que se nos afastarmos uns dos outros a taxa de contágio é muito mais baixa e assim sucessivamente.

Ao nível das actividades que devem ser privilegiadas nas férias, há quem defenda que o exercício físico é fundamental.
É sempre fundamental. Mas se nos desmotiva entrar num ginásio cheio de gente, então devemos escolher um ginásio que tenha menos pessoas e que tenha lugar para as pessoas estarem com mais espaço à sua volta, porque é importante não esquecer que se estivermos a fazer exercício físico aumenta-se a área de segurança que existe entre as pessoas.
Terá que ser feito à luz de novas considerações, (…) tudo o que são desportos colectivos ou aulas de grupo têm que ser reequacionados de forma a que ocorram com a máxima segurança. Talvez as pessoas devam privilegiar os desportos que são feitos ao ar livre, sem muitas pessoas e que permitam manter as medidas de protecção.

Há alguma coisa de normal nesta “nova normalidade”?
Normal é aquilo que é estatisticamente mais frequente, ou seja, considero que a expressão “novo normal” faz sentido porque realmente esperamos que se tenham mudado uma série de comportamentos e que as pessoas tenham adoptado novos comportamentos de interacção social, de utilização dos espaços comuns, de utilização dos espaços de férias como as zonas balneares e de diversão, etc.
Mas quando se começou a falar de desconfinamento, aparentemente e segundo o que vemos nas notícias todos os dias, as pessoas pensam que voltámos à antiga normalidade. E isto é perigoso. 

Em que sentido?
Se antes falávamos do medo e dos seus efeitos perniciosos, que levam a comportamentos mais extremados, a verdade é que o medo é também protector. O que está a acontecer agora no continente português, que está infelizmente com um dos piores números da actualidade em termos de covid-19, aconteceu justamente por causa de um desconfinamento mal feito, na minha opinião.
(…) Do ponto de vista psicológico é extremamente importante haver uma estabilidade, um caminho que se possa fazer com princípio, meio e fim. Passámos de uma fase em que estávamos em casa, sem poder sair de todo, depois passámos a poder ir ao supermercado mas com máscara e com todos os cuidados de distanciamento e, de repente, falamos em desconfinamento mas não sabemos definir o que é uma multidão, um ajuntamento ou quem pode estar nos bares, nas praias ou nos parques.
Isto gera uma grande dificuldade e uma enorme desorganização psíquica nas pessoas e na população em geral. As pessoas não sabem muito bem como agir e então agem como estavam habituados anteriormente.
Tivemos três meses de confinamento, de aprendizagem da nova normalidade, mas tínhamos décadas de um comportamento anterior. Portanto, perante a desorganização e perante um novo desconhecimento é onde estamos de novo, e o desconhecimento parece ser cíclico.
(…) Isso gera desorganização, e com a desorganização vem o novo receio. No início tínhamos medo do desconhecido mas agora é um bocadinho a mesma coisa. Até as pessoas que são mais conscienciosas em relação a este assunto estão com medo outra vez.

O que tem falhado para que as pessoas se sintam mais seguras ao desconfinar?
O que me parece é que não há uma directriz estável e constante para este desconfinamento e o chamado “novo normal”. O que eu imaginava depois destes três meses é que as pessoas continuassem a utilizar máscara na rua, que fossem aos locais de máscara posta. Felizmente, a grande maioria dos espaços comerciais obriga a utilização de máscara à entrada, mas se estivermos num café e numa esplanada e não se estiverem a respeitar os espaços e o distanciamento correcto, de que adianta usar a máscara ao entrar?
(…) No estado de emergência e de calamidade havia regras mais duras e claras, por isso as pessoas comportavam-se de acordo com as regras, agora flexibilizou-se a situação e agora cada qual segue o seu caminho.

Será a informação divulgada suficiente para consciencializar as pessoas?
Cuido que não, infelizmente. Nós, do ponto de vista cultural e educacional – e custa-me dizer isto –, somos incumpridores por natureza e isso é evidente nos comportamentos de risco, seja na sexualidade, no consumo de drogas e álcool ou nos excessos em relação aos limites de velocidade. Por mais informação que haja somos um grupo populacional tendencialmente incumpridor. 
Por mais informação que se dê, parece haver uma boa parte das pessoas para quem isto não é suficiente. Há o chamado pensamento mágico, muito típico da adolescência, no qual se pensa que só acontece aos outros e que não usar máscara não fará mal nenhum.
(…) Por isso não acredito que apenas a informação chegue. Penso que teremos que acompanhar a informação com medidas mais coercivas de cumprimento dessas regras.

Sendo director técnico do lar Residência Segura, considera que os idosos estão a lidar bem com o desconfinamento?
São muitas, muitas décadas de determinados comportamentos e passámos três meses de confinamento. Dentro da estrutura residencial os idosos adoptam os comportamentos diferentes, mas saindo lá para fora fica a dúvida.
(…) A grande vantagem de um lar de idosos é que este é um ambiente estanque, fechado. Como cá dentro quem controla as regras somos nós, é muito menos difícil que essas regras sejam cumpridas.
Todos andamos de máscara dentro do lar, e os nossos residentes não estranham que as pessoas andem de máscara. Custa-lhes muito, mas nesta fase estamos a permitir uma visita por semana, mesmo em desconfinamento, justamente porque queremos prevenir um cenário que pode ser desastroso para este grupo de pessoas.
Ninguém está livre de que aconteça algo como aconteceu na estrutura residencial para idosos no Nordeste. Todos os funcionários deste lar saem para diversos sítios, por isso nenhuma instituição está livre de uma situação semelhante.

O mesmo cenário de desconfinamento pode ter impactos diferentes nas pessoas?
(…) Quando aqueles que são mais conscienciosos e que continuam a adoptar as medidas de protecção estão à espera de chegar a um local – a um restaurante, por exemplo – e encontrar um reflexo dessas medidas de protecção e não as encontram, ficam na incerteza em relação ao que deve ser feito.
Mas outras pessoas pensarão exactamente ao contrário, pensarão “até que enfim” ou “isto é tudo uma invenção e aqui está a prova”.
Aqueles que cumprem as medidas de prevenção acabam por ficar de certa forma prejudicados por aqueles que não cumprem, seja por irem a um espaço e não o encontrarem como esperavam, seja porque sentem insegurança e não conseguirem estar nesses mesmos espaços.
 

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