26 de junho de 2020

Chá da Cesta - 35

Moçambique

À data da independência, Moçambique era o grande êxito português do chá: abastecia sem concorrência o mercado nacional e competia de igual para igual nos mercados internacionais. A partir da década de cinquenta, era a besta negra do chá açoriano. O Brasil havia sido a primeira experiência bem-sucedida de fabrico e cultura do chá fora da Ásia, mas não lograra alcançar os objectivos imperiais, visto que, logo depois, sobreviera a independência e a instabilidade politica e social tomara conta da nova nação. O chá fora relegado para segunda ou terceira opção, substituído pelo café e pelo açúcar. Nos Açores, face ao gigante Moçambique, o chá que arrancara em força a partir da década de noventa do século XIX, perdera há muito a corrida do chá. Isto ficou-se a dever à sua reduzida dimensão, à proverbial desunião entre os produtores, ao pouco investimento e às técnicas absoletas empregues. Mas não só: devia-se em larga medida ao apoio oficial do Governo Central ao chá Moçambicano. 
Quando penso no chá de Moçambique, lembro-me de Artur Lúcio Fernandes Magalhães e de Domingos da Ponte. Artur Lúcio, nascido em Moçambique, trabalhou nas principais plantações e fábricas de chá do Gurué. Por volta do ano de 1980, abandona Moçambique e estabelece-se na Metrópole. Em 1984, recomendado aos Serviços Agrários dos Açores por um amigo dos tempos de Moçambique, deixa o seu negócio de aviários, que entretanto montara no continente, e aceita o desafio do Governo Regional dos Açores: ensinar na Ilha de São Miguel o que de mais actual havia sobre a cultura e o fabrico do chá. A julgar pelo trabalho que desenvolveu, quer pela leitura atenta do conteúdo do relatório que apresentou em 1993 – que deveria sem demora ser publicado -, quer no trabalho de campo que efectuou, até para lá da idade da reforma, Artur Lúcio superou, a todos os níveis, Lau-a-Pan, Lau-a-Teng, Schon Sem e Lan Sam. Permaneceu 12 anos na Ilha, enquanto os chineses que o antecederam estiveram apenas, 1 ano e meio, os primeiros, um pouco mais de três anos, os segundos. E deixaram muito a desejar do ponto de vista técnico. Reformou-se em Junho de 1996, ainda em finais de 1998 estava na Ilha. Faleceu, quase anonimamente, em Oeiras, a 27 de Abril de 2001. Que herança deixa? Além do relatório e dos campos de Chá India nas Sete Cidades e na Ribeira Grande, que continuam a vicejar graças à resiliência da engenheira Clara Estrela Rego, que o acompanhou, ajudou a reabrir o Chá Porto Formoso. Por que não foi bem aceite? Os tempos eram outros. A obsessão pela pastagem cegava. Além do mais, a sua abordagem moderna ao chá divergia do método ortodoxo que vinha dos tempos dos chineses.
Apesar dos constrangimentos, como foi possível que o chá sobrevivesse? Penso ser de toda a justiça realçar a resiliência da D. Berta Hintze e dos seus colaboradores da Gorreana - Sr. José Bento e engenheiro Hermano Mota -, e a clarividência do Sr. Eduardo Wallenstein, cujos insistentes pedidos de apoio oficial, terão desencadeado a vinda de Artur Lúcio. Depois, sobreveio uma feliz conjugação de factores: a mudança de hábitos alimentares e o crescimento do turismo. 
Domingos da Ponte, nascido em Rabo de Peixe, com uma curta experiência no chá do Pico do Refúgio, foi contabilista nas principais fábricas de chá do Gurué. Na casa que construiu na sua terra Natal, mandou colocar um painel de azulejos com uma sugestiva imagem de uma plantação de chá do Gurué. Julgo que não conheceu Artur Lúcio.
Como chegou Moçambique ao chá? Moçambique, após a perda do Brasil, pretendeu ser o novo Brasil do Império colonial português. O argumento apresentado era simples: era tão fértil e rico como o Brasil. Tinha outra vantagem, ficava próximo do canal de Suez, a via de comunicação mais fácil de acesso à Europa. 
O caso moçambicano, no entanto, difere dos demais do Império. Se as áreas atlânticas do Império português devem à realidade do chá no Brasil, Moçambique, sem descartar essa influência, deverá outro tanto à influência do Império colonial Britânico na Índia e em África. As primeiras sugestões e experiências e posterior concretização têm nitidamente a ver – por reacção ou emulação - com o que se passava no mundo africano anglófono, nas províncias do Cabo, do Natal, no Malawi, ou no sub-continente Indiano, em Assam e Darjeeling na Índia e, em Ceilão. 
Em 1856, altura em que o chá na Índia Britânica dava sinais de querer arrancar de forma decisiva, um representante de Moçambique no Parlamento em Lisboa lançava a ideia do cultivo do chá. Apresentou como razões: ‘(…) que a província de Moçambique é a possessão porventura mais preciosa que nós temos (…),’ onde ‘dá-se ou pode dar-se tudo que se dá no Brazil (…).’1
Todavia, que se saiba, só por volta de 1891-92, é que ocorrem em Moçambique as primeiras experiências com o chá. Em 1891, ano em que o chá micaelense era ainda pouco expressivo, a Sociedade de Geografia de Lisboa mandava traduzir o Tratado sobre a cultura do chá, de M. Jacobsen, sócio daquela Sociedade. Este destinava-se a ser distribuído pelos sócios.2 Entre os quais, potenciais cultivadores em Moçambique. Pelos vistos, coincidência ou não com o caso de José do Canto, o chá em Moçambique arranca em 1891-1892.3 Em 1897, as potências Europeias retalhavam África, outro representante Parlamentar de Moçambique, alertava as autoridades nacionais. Moçambique, adiantava ele, devido ao seu potencial produtivo, nomeadamente quanto ao chá, a 500 metros de altitude, acirrava a cobiça de nações poderosas. Exemplificava: a Alemanha tinha os olhos postos no norte de Moçambique e a Grã-Bretanha tinha-os não só a norte como a sul daquela província.4
Em 1906, na Câmara dos Deputados, em Lisboa, surge outra referência ao assunto. Nestas circunstâncias, para incentivar o fomento de culturas em Moçambique e Angola, entre as quais, a do chá, o representante da colónia propõe a concessão de apoios no género dos dispensados por outros Impérios Coloniais Europeus em África.5 Voltando-se para o caso Português, o referido representante Parlamentar propunha, a título de experiência, e mediante certas condições, que se facilitasse às sociedades privadas, constituídas convenientemente, a aquisição por aforamento direto de áreas mais ou menos extensas de terrenos nas províncias de Angola e Moçambique.6
Em 1911, já no período da I República, José da Silva Gonçalves propôs, sem sucesso, que a cultura da piri-piri fosse substituída pela do chá.7 Mais tarde, a seguir à I Grande Guerra, em 1924-25, a Sociedade de Chá Oriental, pioneira da indústria do chá em Moçambique, obteve a sua primeira colheita: umas escassas 45 toneladas. 8 Para um período que vai até à década de trinta do século XX, temos o testemunho de Willian Harrison Ukers, um americano estudioso do chá. Para o ano de 1931, Ukers adianta que “(...) The production in Mozambique in the year ended in September, 30, 1931, according to figures from local agricultural Department of Lourenço Marques amounted to 200, 619 pounds. About 750 acres are given over to tea in the colony.”9
Em1933, a Sociedade de Chá Oriental desenvolveu mais a plantação e construiu nova fábrica, denominada Milossa, dotada com todos os modernos aperfeiçoamentos e com capacidade de produção de 500 toneladas. Em 1948, duas fábricas produzirão mais de 1.000 toneladas.10 
Comparando São Miguel e Moçambique. Em São Miguel, em 1913, apenas existiam 435 hectares cultivados de chá. Moçambique, em 1938, já dispunha de 681 hectares, três anos depois, em 1941, aumentara para o dobro (1282), e sete anos depois, em 1948, ampliara sete vezes mais. 
1 - Câmara dos Deputados, 14 de Fevereiro de 1856, p.296.
2 - Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, 10.ª série, n.º 8 e 9 (1891)
3 - Lacerda, Francisco Gavicho de, Assuntos Coloniais, A Cultura do Chá feita pelos portugueses na Zambézia, Lisboa, 1948, pp. 16-17.
4 - Câmara dos Deputados, 15 de Janeiro de 1897, p.26.
5 - Câmara dos Deputados, 19 de Dezembro de 1906, p.48.
6 - Idem
7 - Lacerda, Ob. Cit., 1948, pp. 16-17.
8 - Idem.
9 - Ukers, Willian Harrison, All about Tea, volume II, New York , The tea and coffee Journal trade Company, USA, 1935, p. 346
10 - Lacerda, Ob. Cit., 1948, pp. 16-17.

Mário Moura

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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