Em reunião com a Direcção da Unidade de Saúde de São Miguel

Clínicas privadas de São Miguel com quebras a rondar os 50% pedem compensação no valor unitário da prestação de serviço

 Correio dos Açores - Em que moldes reabriu a Cal Clínica?
Dr. Guilherme Figueiredo (responsável pela Cal Clínica) - Reabrimos com as limitações que nos são impostas. Estamos condicionados a uma lotação máxima na sala de espera. Estamos condicionados por intervalos de tempo de consultas e de exames e estamos condicionados pelo rastreio preliminar feito no momento em que são marcados os exames e as consultas e, depois, no próprio dia quando o utente chega: saber se foi de viagem ao exterior, se teve contacto com pessoas que fizeram viagem ao exterior, se teve contacto com pessoas com doença confirmada ou suspeita. É este o nosso condicionamento.
Não podemos estar de porta aberta, senão entravam todos para fazerem análises, consultas e exames. Só entram os utentes que, naquele dia, tiverem exames confirmados ou se forem levantar um documento que tivesse sido combinado entregar. Mas até, neste sentido, estamos a trabalhar muitíssimo com o email e também, - convém dizer para que as pessoas saibam -, por telefone e vídeo-chamada, em resultado da experiência que estão a ter com as consultas hospitalares.
Posso dizer-lhe que, desde que começou a pandemia, talvez já fiz mais de 500 consultas por telefone. As pessoas estão, também, a aderir à ideia de se consultarem por telefone, por vídeo chamada. O Watsap tem sido muito útil deste ponto de vista. As pessoas ligam, apresentam os seus problemas numa nova consulta. E quando são consultas de continuidade é mais fácil. Fazem perguntas sobre a continuidade ou não dos tratamentos, marcação de análises ou de exames. Esta tem sido uma forma de obviar a presença e a limitação à presença. 
Não é que as pessoas não queiram ir às consultas. Elas querem e precisam e nós queremos dar as consultas. Só não o fazemos pelo conjunto das limitações que nos são impostas.

Estas limitações ainda são justificáveis ou devia abrir-se mais?
Não creio que se possa abrir mais nada. Isto não pode ser deixado ao livre arbítrio de cada prestador. Nós todos temos que cumprir as regras que vão sendo determinadas pelas autoridades de saúde e pelo governo.

Mas estas regras podem justificar-se mais ou menos consoante o contexto…
Estas regras estabelecidas justificam-se plenamente. 

As convenções entre o Serviço Regional e Saúde e a Cal Clínica estão em funcionar?
No caso da Cal Clínica temos convenções na área da fisioterapia e na área da imagiologia, ou seja, ao nível de vários exames de diagnóstico. Tudo isto foi retomado, sem dúvida. E já reunimos com o Presidente da Unidade de Saúde de Ilha de São Miguel a semana passada a mostrar as nossas preocupações.

E quais são estas preocupações?
São variadas. Nós estamos muito limitados na realização dos exames e dos tratamentos. É o caso da fisioterapia pelas restrições impostas. E temos que nos preparar a nós e aos pacientes para recebermos as pessoas com segurança. E, para isso gasta-se muito dinheiro.
As convenções foram projectadas para um determinado volume de trabalho. Nós, ao diminuirmos, consideravelmente, o volume de trabalho e, ao mesmo tempo, estarmos a gastar dinheiro nos equipamentos de protecção individual, isto baixa muitíssimo o aproveitamento que retiramos da prestação de serviço. 
Estamos a manter a mesma força de trabalho. Não estamos a despedir, até porque recorremos aos apoios do governo para esta crise como quase todos. Nem queremos despedir. Mantemos a força de trabalho. Mas, depois, temos uma actividade francamente reduzida. E a Unidade de Saúde de Ilha respondeu-nos que não tinha poder ou autonomia para resolver esse assunto...”
O motivo da nossa reunião foi mais no sentido de chamar a atenção de que, eventualmente, deveríamos receber um outro tipo de apoio. Solicitamos que nos pagassem a tempo e horas o serviço prestado através das convenções. Isto, por si, já é um apoio. Quando se acorda estas convenções, estabelece-se um prazo de pagamento, mas o prazo vai-se dilatando no tempo e este é um problema dos governos. Um dos apelos que nós fizemos na reunião com a Unidade de Saúde de São Miguel, com certa veemência, foi que nos antecipassem até o prazo de pagamento. Se estamos a fazer menos e temos mais despesa, então, ao menos, que recebamos mais cedo para podermos ter um pouco mais de liquidez e cumprirmos com os compromissos dos salários. Por exemplo, na Cal Clínica, já não temos ninguém em lay-off. Quando pudemos abrir, readmitimos todos. 
O facto de se restringir e se condicionar os intervalos de atendimento entre pessoas faz com que o horário se deva estender para termos mais tempo no dia para recebermos as pessoas. E isto obriga a que estejamos com mais trabalhadores ao serviço. Se temos uma menor produtividade, devíamos ter pessoas em layoff ou, então, dividia-se as pessoas disponíveis para que um grupo trabalhe 4 horas e outro trabalhe outras 4 horas e ficam 4 horas em lay-off. Mas, a nós, não nos convém fazer isto porque teríamos, ainda por cima, menos pessoas a atender. 

As clínicas privadas estão em dificuldades económico-financeiras?
Com certeza. Nós, na Cal Clínica, temos áreas em que quebrámos mais de 50%. É evidente que há outras áreas de actividade em que, com certeza, as quebras foram maiores como os hotéis e restauração e similares. Eu reconheço que há áreas que estão bastante piores do que nós. E este é um pressuposto que gostaria que ficasse bem claro. 

No caso da Cal Clínica, antes da pandemia, qual era a média de consultas diárias?   
Posso dizer-lhe que, só na convenção e outras prestações de serviço ao nível da fisioterapia, tínhamos à volta de 150 utentes por dia. E em exames de diferentes tipos e consultas, teríamos outro tanto, à volta de 150 pacientes por dias. No total, a Cal Clínica atenderia à volta de 300 utentes ao dia. 
Globalmente temos na Cal Clínica três áreas de actividade: o das consultas, os exames e os tratamentos de fisioterapia. Nestas três áreas estamos com quebras da ordem dos 35 a 55% grosso modo.

Na reunião com a Unidade de Saúde da Ilha a resposta foi de que não era da sua responsabilidade resolver as questões colocadas pelas clínicas privadas. E, depois…
Procurámos inverter este raciocínio. A responsabilidade de decisão pode não ser da Unidade de Saúde de ilha. Mas as convenções foram assinadas com a Unidade de Saúde de Ilha de São Miguel e com outras unidades de saúde de ilha. E, portanto, este é um problema das unidades de saúde de ilha e, logo, um problema do Serviço Regional e Saúde e da Secretaria da Saúde. Logo, eles é que devem reportar a existência dos problemas, numa manifestação de boa vontade e compreensão. Esperamos, agora, a compreensão, no actual contexto, de quem tem de decidir. Não nos compete andar a bater a todas as portas.

A única reivindicação que se fez foi a antecipação do prazo de pagamento?
Não foi a única. Entendemos que devemos ter uma compensação imediata no valor unitário das prestações de serviço que fosse compensadora face à diminuição de atendimento que nos foi imposta pelas restrições. Todos defendemos esta compensação e foi isto que fomos lá dizer.
As convenções renovam-se automaticamente no final do ano e repare que faltam seis meses para que as convenções se renovem. E a serem denunciadas, têm de o ser com seis meses de antecedência. Este é, portanto, um óptimo período para se constituir grupos de trabalho – se a Unidade de Saúde de Ilha quiser e a Secretaria da Saúde entender vantajoso – para discutir uma nova convenção. Senão, ela renova-se automaticamente com as mesmas tabelas de preços.
Se nós não formos compensados agora e se não formos também a partir de Janeiro, não saberemos nunca quando o seremos. E é garantido que a pandemia vai continuar para além de Janeiro. A não ser que chegue, caída do céu, uma vacina que nos permita vacinar a todos. Mas, ninguém acredita nisso.

Com estas quebras, as clínicas privadas entram num ciclo de prejuízos…
É evidente. É impossível imaginar não ter prejuízos neste contexto. 
Este mês de Junho a prestação de serviço foi retomada com as percentagens que referi e, talvez, em Julho e Agosto melhore um pouco se não houver novos casos e nenhuma situação de alarme que torne a pessoas mais auto-defensivas e o governo possa adoptar mais restrições.
E, depois, virá o Inverno e a gripe somada à Covid-19. E julgo que esta associação vai criar um período de grande instabilidade e, senão, outra vez, de confinamento.  
                                                  

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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