27 de junho de 2020

Cesto da Gávea

Os salva-vidas

Na passada terça-feira, 24.06.2020, teve lugar por teleconferência a reunião do Conselho Geral da FGF-Fundação Gaspar Frutuoso, destinada à análise e votação do Relatório e Conta de Gerência de 2019. Foi a primeira reunião do novo CD-Conselho Diretivo da FGF, agora sob a presidência do Prof. Paulo Meneses, ex-vice presidente do anterior CD, presidido entre 2015 e 2019 pelo Prof. Armindo Rodrigues. Foi de certo modo uma evolução na continuidade, inesperadamente colhida pela crise pandémica em curso. Felizmente, a criteriosa e eficiente gestão anterior, que aumentou em 47% os montantes contratualizados entre 2018 e 2019, atingindo o patamar dos 4,7 milhões de euros, permite encarar com confiança a missão de apoio da FGF à Universidade dos Açores. Aliás, foi com este objetivo que a fundámos em 1999, desde logo permitindo a aquisição, por verbas próprias, do antigo hospital Walter Bensaúde, na cidade faialense da Horta. Com audácia e arrojo, através da Fundação, demos a volta aos burocratas de Lisboa e o resultado é a excelente instalação onde hoje se encontra o DOP-Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores. Passados 21 anos e em várias ocasiões, a FGF funcionou como um verdadeiro salva-vidas da nossa Universidade. A comprová-lo estão as contas agora aprovadas, que mostram como só foi possível, por transferência de 200.000 euros da Fundação para a Universidade (uma espécie de transfusão da filha para a mãe, pois a Universidade dos Açores é detentora da FGF) assegurar o cabimento de verba para se abrirem os concursos para Professores Catedráticos e Associados, longamente atrasados devido ao subfinanciamento crónico pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Estamos habituados, mas nunca é demais salientá-lo.
De salientar, uma vez que falamos de salva-vidas, é o difícil e arriscado papel de socorro dos nossos Corpos de Bombeiros, os quais, conjuntamente com o pessoal de Saúde dos hospitais, centros de saúde e instituições de solidariedade social, constituem a linha de frente do combate à pandemia. A Newsletter – nome chique-saxónico dos boletins informativos— de Junho corrente do CEIPC-Centro de Estudos e Investigação em Proteção Civil, traz um importante editorial do Dr. Duarte Caldeira, antigo presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses e atual Diretor Executivo do CEIPC, que merece muita atenção. Em “Construir um sistema de gestão da crise””, referindo a necessidade que o Governo da República teve de criar 5 lugares de Secretário de Estado, 1 por cada uma das 5 regiões de Portugal continental (pressupondo uma regionalização, antes dela existir) para enfrentar uma provável conjugação de violentos incêndios florestais com o grassar da pandemia, Duarte  Caldeira não esteve com papas na língua, afirmando a “indisfarçável desordem que a certa altura se esboçou”. Detalhando a sua ideia sobre uma urgente reforma da Proteção Civil, propõe “uma nova lógica de governação, menos defensiva e autossuficiente, tendo em vista construir um novo sistema de gestão de crise”. Quando na mesma Newsletter vem um estudo que mostra como as Câmaras Municipais do continente português assumem mais de 70% do investimento público nos Corpos de Bombeiros, contra menos de 30% da Administração Central, há aqui farta matéria para ponderação. Aquisição de EPIs-equipamentos de proteção individual, alimentação, alojamento, material de desinfeção, tudo faz parte do universo de apoio municipal aos bombeiros. Nos Açores, a situação das 17 corporações de bombeiros é diferente, mas os problemas dos cerca de 900 bombeiros da Região são idênticos e nem precisamos de um qualquer Secretário de Estado da República para os resolver. Assim queiramos “municiar” convenientemente os nossos salva-vidas.
Uma das formas mais eficazes, senão a única que concita uma justificada esperança, é a aposta na Ciência, o fim da linha na qual podemos obter antivirais e vacinas dentro de prazos razoáveis. Existem atualmente em ensaios clínicos 8 medicamentos, a que se juntam mais 4 em fases pré-clínicas ou de desenvolvimento, desde os que bloqueiam a replicação do vírus, aos que evitam a entrada nas células ou aqueles que agem sobre o sistema imunitário. Quanto a vacinas, de acordo com o publicado na “Scientific American”, em abril existiam 80 empresas e instituições de 19 países a trabalhar em força para que o dealbar de 2021 possa ver comercializar uma ou mais vacinas em grande escala, o que seria um feito notável. A velocidade da aplicação ficará a dever-se dois fatores da modernidade, um tecnológico (o uso da alta computação e da IA-Inteligência Artificial) e outro biológico ou biotecnológico (a engenharia genética). Se há esperança na Ciência, é porque ela adverte igualmente da existência de mutações do novo coronavírus que vão aparecendo, fruto da plasticidade ecológica do “bichinho”. Ao que se sabe, terão já sido documentadas umas 7.500, mas nenhuma ao ponto de ser preocupação para os cientistas salva-vidas.

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Categorias: Opinião

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