Lançou agora o livro de ficção ‘Nível de Voo zero’

Rodrigo Borges, o piloto que sonha com a aviação e que vive como guarda nos Serviços Florestais no Nordeste

 Foi no Inverno de 2014, quando contava 23 anos de idade, que Rodrigo Borges começou a criar os esboços do seu primeiro livro, lançado na passada semana, retratando os bastidores da aviação, “muito interessantes e ainda muito desconhecidos”, tendo como objectivo quebrar um pouco da “romantização” que é feita, muitas vezes, em relação a este sector.
Através deste livro, que para além de se inspirar em alguns dos momentos que passou com outros pilotos enquanto acumulava horas de voo ao serviço do Aeródromo de Santarém, o jovem piloto pretende que as pessoas ganhem uma nova consciência relativamente à profissão em causa, retratando “aquilo que fazemos enquanto pessoas, quais as nossas ansiedades, como são os nossos relacionamentos e como é a nossa vida”, diz.
Desde cedo que o jovem – hoje com 29 anos de idade – sonhava com uma carreira no mundo da aviação, sendo este um gosto que partilhava com o irmão 14 anos mais velho. Assim, chegado o momento de poder fazer o curso de piloto, Rodrigo Borges, ainda sem ter concluído o 12.º ano de escolaridade, foi para Tires, com o objectivo de obter a habilitação necessária para pilotar aviões.
No entanto, apesar de ter obtido o devido apoio por parte da família na concretização deste sonho, o autor do livro “Nível de Voo 0” reconhece que esta foi uma opção que implicou uma certa ginástica financeira para a família.
“Os meus pais eram da classe média, a vantagem é que o meu pai é muito parcimonioso com o dinheiro, e no dia em que eu nasci ele abriu uma conta poupança. Ao fim dos 18 anos tinha lá pelo menos metade daquilo que iríamos precisar mais tarde para o curso de pilotagem, e foi graças a isso que consegui tirar o curso”, relembra o jovem, salientando ainda que para conseguirem a totalidade do valor necessário para o curso foi ainda necessário hipotecar a casa da família ao banco.
Por esse motivo, tendo em conta o esforço que a família se encontrava a fazer para tornar o seu sonho realidade, desde cedo que Rodrigo Borges adianta ter sentido o peso da responsabilidade que, em grande parte, fez com que tivesse tirado o curso tão rapidamente, adianta.
“Não foi uma situação confortável porque apesar de estar em Tires não tinha liberdade de circular, não tinha carta nem carro. Ir a Lisboa era sempre uma grande incógnita porque o transporte para regressar era sempre difícil e com um orçamento mensal tão reduzido não conseguia andar a esticar ou a visitar os meus amigos que estavam em Lisboa. Lembro-me perfeitamente de ter algumas situações de grande ansiedade durante o curso, porque o orçamento era reduzido e tinha que durar para a alimentação durante um mês inteiro”, diz.
Embora tenha desde cedo tido a oportunidade de conviver com pessoas ligadas ao mundo da aviação, só anos mais tarde, depois de ter entretanto regressado a São Miguel, e sem ter as horas de voo necessárias para concorrer para trabalhar como piloto numa companhia aérea, é que um acontecimento ao acaso viria mudar a vida do jovem e, consequentemente, dar origem a este seu primeiro livro.
“Quando estava na Direcção Regional dos Recursos Florestais, um senhor deixou cair uns papéis que eu apanhei-os. Ele ficou muito sensibilizado e perguntou quem eu era e o que fazia, e conforme fomos falando é que me apercebi que ele era um piloto reformado da SATA, ele apercebeu-se que eu era piloto e criámos ali uma certa empatia. 
Perguntou-me se não estava a trabalhar e eu disse que não porque, para além de ser difícil encontrar emprego, não tinha também as horas de voo suficientes. Aí ele disse que me ia apresentar a outra pessoa e que se iria ver o que se poderia fazer”, recorda Rodrigo Borges.
Bastou uma chamada telefónica e o comandante que atendeu do outro lado da linha mostrou-se disponível para acolher e para ser mentor do jovem piloto que viria a partir para o Aeródromo de Santarém, onde ganharia mais experiência de voo na aviação geral, um tipo de aviação que pode acabar também por estar mais próximo das necessidades da população.
“Tempos mais tarde fui para o continente, fui directamente ter com esse comandante e comecei a trabalhar com ele. Foi uma grande escola e eu fazia de tudo, porque quando trabalhamos para empresas de menor dimensão não somos só pilotos, fazemos de tudo um pouco: desde tratar de correspondência, ajudar os mecânicos, trabalhar com os aparelhos, tudo”, explica Rodrigo Borges.
Nesta oportunidade, apreciou especialmente o facto de poder conviver com vários pilotos de várias idades, ouvindo atentamente as histórias e as experiências que cada um deles tinha para contar, tão diferentes das histórias partilhadas pelos pilotos da sua própria geração, sem contar ainda com as personalidades excêntricas dos pilotos mais velhos ou com os excessos que os marcavam.
Entre o observar e registar de forma contínua e atenta tudo o que ia acontecendo à sua volta entre os pilotos com quem ia convivendo, Rodrigo Borges refere que não lhe terá sido difícil transformar as suas notas em ficção, criando para isso o jovem piloto Gabriel, a personagem principal do seu primeiro livro.
A história em causa, refere, passa-se entre um grupo de amigos, todos eles jovens pilotos numa companhia de bandeira a nível nacional, e aborda a temática das corrupções e das greves, a rotina destes profissionais e os procedimentos que têm que levar a cabo, acabando também por incidir no estado emocional dos pilotos à medida que os obstáculos vão surgindo.
“Muitas vezes as pessoas imaginam que todos os pilotos têm o mesmo percurso, e isso não é verdade, têm todos percursos muito diferentes. Há pilotos que vêm de famílias abastadas, outros que são mais pobres, uns que vieram do meio militar e outros que vieram de um meio muito mais protegido, mas, muitas vezes, as pessoas assumem erradamente que todos os pilotos estão onde querem estar e que estão bem onde estão.
O personagem Gabriel, no livro, tem uma falta de sentido de pertença, não se sente realizado, feliz ou à vontade onde está e isso depois nota-se na sua estabilidade emocional. Começa a ter insónias, crises de ansiedade e como ele não tem a maturidade que deveria ter, apoia-se muito na bússola moral daqueles que o rodeiam, que neste caso são as pessoas com quem ele trabalha mais. (…) Ao longo do livro o que se nota é uma espiral descendente em que ingressam as pessoas quando não conseguem colmatar as suas falhas a nível intelectual e emocional”, explica o autor.
Por esse motivo, Rodrigo Borges afirma que quer nesta, quer noutra profissão, “a saúde mental deve ser exímia”, e sempre que necessário “as pessoas devem ter todo o tempo do mundo necessário para recuperarem devidamente e para poderem exercer”, ainda para mais quando há vidas que dependem do bom desempenho de uma profissão, como acontece no caso dos pilotos.
Depois desta experiência na aviação que lhe garantiu horas suficientes de voo para se poder candidatar para trabalhar com outras companhias aéreas, o jovem acabou também por ingressar na Força Aérea, onde tinha o objectivo de chegar a controlador do tráfego aéreo.
No entanto, viu-se obrigado a regressar aos Açores depois de ter sido expulso por mau comportamento, uma vez que precisava também de repousar devido a uma série de problemas de saúde que foram surgindo com a rigidez dos treinos militares, resultando inclusive numa operação de urgência. Nesse contexto, Rodrigo Borges optou então por ingressar no ensino superior, na Universidade dos Açores, onde viria a concluir a licenciatura no curso de História, sem esquecer, no entanto, a paixão e o “sentir-se vivo” que apenas os aviões lhe provocam, admitindo por isso que a sua carreira na aviação não tenha, talvez, terminado por aqui. Entretanto, enquanto não regressa à profissão com que sempre sonhou, Rodrigo Borges é guarda-florestal no Nordeste há cerca de um ano.
                                    
                                

Print

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima