Correio dos Açores falou com hoteleiros de São Jorge e Flores

O tempo em que o turismo açoriano vai viver três Invernos seguidos

 Com a paragem de praticamente toda a actividade económica nos Açores, em consequência da pandemia de Covi-19, o sector do turismo, um dos que vinha conhecendo maior expansão nos últimos anos na Região, sofreu quebras avultadas. Vários apoios a nível nacional e regional continuam a ser criados para impedir que as empresas tenham de fechar portas e de dispensar trabalhadores. Nos Açores, o Governo Regional lançou, há cerca de uma semana, a Campanha “Viver os Açores” com a intenção de impulsionar o turismo interno que, segundo a Secretário do Turismo, Marta Guerreiro, está dentro das expectativas criadas. O Correio dos Açores inicia hoje uma série de contactos com empresários hoteleiros e de restauração das ilhas onde o programa pode ter mais impacto. A equipa de reportagem do nosso jornal começou por conversar com dois responsáveis hoteleiros nas ilhas de São Jorge e das Flores para perceber os impactos da crise da pandemia no sector e que perspectivas têm para o futuro da actividade turística nas duas ilhas. Os dois empresários juntam ao cenário de vazio até agora no turismo, a expectativa da dimensão que pode atingir o turismo interno com o programa  “Viver os Açores”.

“Devem ser diminuídas 
as restrições de acesso” 
aos turistas, diz Sandro Almeida

Sandro Almeida é Administrador Executivo de duas unidades hoteleiras na ilha de São Jorge (Hotel São Jorge Garden e Hotel Caravelas) e também da Agência de Viagens Oceano, com sede na Vila de Velas.
O empresário recorda o momento do encerramento e as medidas que tiveram de ser implementadas.
“Em Março houve uma grande avalanche de cancelamentos das reservas nas semanas seguintes ao encerramento e não havendo trabalho, fomos obrigados a encerrar e a entrar em lay-off até final deste mês de Junho. Tivemos de mandar todos os trabalhadores para lay-off”, afirma. 
Já a preparar a retoma da actividade, Sandro Almeida revela que a reabertura das unidades hoteleiras está a ser feita “de forma faseada”.  
“Estamos só a iniciar processos de limpeza, de organização para abrirmos em pleno a partir do dia 1 de Julho. Embora estejamos abertos neste momento, não temos praticamente clientes. Estamos só a fazer a reorganização, a limpeza e a manutenção do edifício uma vez que esteve praticamente 3 meses fechado”, adianta.
Sobre o futuro, revela que as reservas a partir do dia 1 de Julho não são ainda muito animadoras.
“Não temos praticamente nada. Uma, duas ou três reservas de pessoas que vem em trabalho, em serviço, por questões profissionais. Turismo não. É uma quebra de praticamente 100%”, diz.
Sandro Almeida classifica as medidas de apoio criadas pelo Governo Regional como sendo positivas e considera que a Campanha “Viver os Açores”, implementada na semana passada, poderá ter procura por parte dos maiores mercados da região, como as Ilhas de São Miguel e Terceira, mesmo apesar das dificuldades porque passam alguns açorianos. 
“Entendo que é um bom programa e que terá de certeza procura. Não digo que seja muito relevante porque actualmente existe algum desemprego, muitas pessoas em lay-off e entendo que as pessoas tendem a retrair os seus custos e os gastos, dando prioridade a outros. Mas acho que haverá uma percentagem de açorianos que optará por este pacote e irá utilizá-lo nos próximos meses”, afirma.
O empresário revela igualmente que, através da agência de viagens pertencente ao Grupo, ainda não foi concretizada qualquer reserva, mas que tem surgido “pedidos e informações” sobre a Campanha.
Sandro Almeida apela ao Governo que, depois de ter criado um vasto leque de serviços de apoio às empresas e ao desenvolvimento, diminua as restrições de acesso à Região.
“Devem ser diminuídas as restrições de acesso para que a economia se possa desenvolver. Não desbloqueando completamente, mas diminuído os testes que o Governo tem implementado de protecção e segurança de cada passageiro. Para que quem tenha resultado negativo possa circular à vontade e não com testes ou sobre testes que impedem a livre circulação de passageiros”, considera o empresário.

 “Vamos passar três invernos
 seguidos”, constata Rogério Medina

No extremo ocidental do arquipélago, na ilha das Flores, Rogério Medina é o proprietário de uma das unidades hoteleiras localizadas em Santa Cruz das Flores, o Hotel Servi-Flôr. O empresário reabriu as portas durante o mês de junho e revela preocupação com a época alta do sector que habitualmente decorria durante o verão.
“O movimento está muito fraco. Eu diria que está a 3 ou 4%. Abriu-se o restaurante e o bar. A parte de alojamento também está aberta mas isto está muito fraco mesmo. Aliás as reservas que tínhamos foram canceladas. Noventa por cento das reservas que tínhamos para este verão já cancelaram”, desabafa.
Rogério Medina teve de optar pelo lay-off dos seus 8 trabalhadores durante dois meses, e agora, diz ainda ter alguns “a 10 e 20%. Só assim é que se consegue aguentar”, afirma.
O empresário que tinha no mercado externo a fatia principal do seu negócio admite que a Campanha “Viver os Açores” tem aspectos positivos, mas que não servirá para colmatar as perdas acumuladas.
“Está a aparecer algum movimento, através de algumas consultas, de saber como são os preços. Está a aparecer algum movimento, mas muito pouco, isto é uma coisa insignificante”, adianta.
Rogério Medina não está optimista quanto ao futuro do seu negócio e, face ao aparecimento de novos casos nos Açores e ao aumento de pessoas infectadas no País, confessa não saber como se poderá dar a volta a este cenário.
“Estamos perante uma situação em que não sei o que se poderá criar. É um pau de dois bicos. Se fecharmos novamente a entrada nos Açores para voltarmos “a limpar” o que é que fazem as empresas? Ou morremos da doença ou morre-se da fome, vamos ter de escolher”, afirma.
 O empresário florentino considera mesmo que os próximos tempo serão muito duros para o sector hoteleiro. 
“Vamos passar três Invernos seguidos. É o inverno que acabou agora em que não vem ninguém. É este inverno que começou em março, em que há bom tempo mas não há clientes e depois, chega-se a Outubro e volta-se a não ter clientes devido ao mau tempo. Está muito complicado”, reconhece Rogério Medina.     
                                                   

Luís Lobão
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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