28 de junho de 2020

“Açorianos vencem na Luz”

A história com ‘alma santaclarense’

 Ao vencer o Benfica por 4-3 no Estádio da Luz o C.D.Santa Clara escreve mais uma página na sua rica história. E, são muitas as leituras para os dois clubes, do mesmo campeonato, mas de dimensões diferentes.
Senti uma alegria enorme. Levei mais de 25 anos a relatar, em cima de paredes, em tribunas sem condições, à chuva, ao vento ao frio, tardes inteiras de domingo; foram anos a acreditar que um dia merecíamos mais. Na rádio, na imprensa na TV. Com o “meu” Santa Clara, aprendi a conhecer melhor este povo, esta cidade, esta ilha, os Açores. Aprendi a ganhar e a perder e a subir todas as divisões possíveis numa carreira modesta mas plena de entusiasmo; anos e anos a relatar e comentar os jogos de ilha, jogos açorianos, na 3ª, a 2ª e na 1ª divisão nacional.
Ganhar em casa de um grande em Lisboa é também o símbolo da humildade, da organização, do crer e saber, e sublinha a projeção externa de um potencial interno. É uma forma de compensar investimentos e dizer no plano nacional quanto vale a força regional e autonomista num país descrente e distraído.
Terça-feira à noite um golo do Santa Clara em Lisboa, foi mais que o apagão do Benfica; foi o vulcão da ilha que acendeu a Luz.
Para mim, a memória de uma saudável herança. O orgulho efervescente dessa mística que percorre o tempo e os homens sem data marcada e sem destino convencional. Uma família com legado histórico que nasceu, cresceu e se multiplicou sob a atmosfera de um sentimento comum: o nosso “Santa Clara”
Uma sociedade que se preza necessita de clubes. Representativos da vontade dos cidadãos. Com muitas modalidades se possível. Com muitas equipas de preferência.

Equipas há muitas. Clubes há poucos. 
O nosso preito, a nossa homenagem, aos que se lembraram de erguer uma colectividade de homens simples, honrados operários e marítimos, em prol da cultura, do lazer e da recreação. E de uma só vez contemplar o que temos de melhor: a natureza, o mar e a terra, a pretexto da Mata da Doca, um local condizente e aprazível que o progresso também já levou. Jogava-se, então, no Campo Açores, primeiro de nascente para poente mas, depois, por causa do sol, de sul para norte.Com o Campo Açores nasce o do Liceu e, só mais tarde, o já velhinho e recuperado Marquês Jácome Correia.
Mas, o primeiro lugar onde se jogou à bola foi junto ao matadouro frigorífico e a culpa só se deve a um jesuíta do colégio Fischer que trouxe a primeira bola e pelos vistos entusiasmou toda a rapaziada. 
O sacrifício daquela gente ao longo dos tempos. As primeiras camisas eram de meia tingidas a vermelho. As peúgas eram de lã de Santa Maria. Botas de couro de bezerro e a bola com atacadores pesados como burro. E os próprios jogadores procuravam no lixo junto ao farol de Santa Clara solas e sapatos velhos para fazerem em casa os tacos para as suas botas de atleta. O sapateiro local (e só este) dava sempre um jeitinho. E quando chovia, o vermelho das camisolas tingidas ficava pregado à pele. Tempos em que se suava a camisola e se jogava por amor a esta.
Sinto-me pequeno demais para falar do passado. Deste enraizamento hereditário contido em nós. Desse contágio que nem o Tempo consegue apagar.
A culpa é de meu pai, Capitão Bettencourt, que muito cedo me obrigava a almoçar cedo ao domingo para não perdermos a entrada da equipa em campo no velho Jácome Correia. Normalmente em dia de sessão dupla. Nos jogos da tarde. As claques perdidas e organizadas pelos quatro cantos do recinto. Meu pai ensinou-me a não perder esse ritual de cumplicidade perfeita entre os atletas e a massa associativa enquanto, uns atrás dos outros, descascávamos amendoins bem torrados e o homem dos gelados se fartava de encher de frio as nossas gargantas quentes e ressequidas. E as namoradas, as mulheres, rezando orações na Igreja de Santa Clara, para os “outros” perderem…
Que saudades dos velhos derbies, da infância, de uma certa cidade.
Que saudades do velho Marquês, do tempo em que todas as ruas limítrofes se enchiam de povo e cheirava a morcela frita pelos quatro cantos do rectângulo de jogo. As claques ainda sem fumos, bombinhas e música instrumental deslocavam-se de um lado ao outro para se colocarem nos tradicionais locais estratégicos que haviam de reconhecer na respectiva cor a dinâmica dos aplausos. A visível cor das claques. A expressão única e desconcertante de Daniel Raposo vigiada de perto pelo Dr. Benjamim Viveiros. E aqui, lembro o picoense Orlando Quaresma, Humberto Moniz, Paulino Pavão, que levou ao patamar mais alto do futebol português, os Engenheiros Primitivo Marques ou Dionísio Leite, um homem com um coração do tamanho do mundo que durante dezenas de anos, desprendida e generosamente, contribuiu como um reconhecido benemérito do clube.
Todos nós temos a memória preenchida de nomes, de histórias, de vitórias, de golos e de viagens tenebrosas, de imensas alegrias, entre as ilhas, a bordo do navio motor Ponta Delgada, por esse país fora, por essas Américas adentro.
Todos nós temos saudades. Repito saudades. Inventamos, seja a que pretexto for, a renovação do nosso imaginário.
Jamais esquecerei o golo marcado pelo Tiago em Câmara de Lobos na Madeira e a narrativa gritada, entoada, emocionada, aos microfones da TSF, na subida à Liga de Honra do Futebol Profissional. É o golo da minha vida profissional. E pouco tempo depois a subida à 1ª Liga do Futebol profissional, nos comentários explosivos no golo derradeiro do Eurico frente ao Desportivo das Aves.
Às vezes saímos danados do campo, às vezes feridos, desgostosos. Rasgamos inadvertidamente o cartão de sócio e proibimo-nos de voltar a entrar na Sede do Clube enquanto o treinador não for para a rua… enganados, no domingo seguinte, lá estamos na primeira fila da bancada e a bater palmas ao primeiro sinal do altifalante na entrada da equipa no relvado…s omos uns tristes e pobres “Diabos Vermelhos”. Porque será que tudo isto acontece longe, quando estamos mesmo, muito longe daqui?
Nas ruas de Toronto, de Montreal, de San Diego, de FallRiver, de New Bedford, ou no Rio de Janeiro, como já me aconteceu, caminhamos pelo domingo dentro à espera de um resultado pela rádio, pelos jornais, pela net. Colocados na rádio ou correndo pelos jornais de segunda. Longe daqui, corremos para saber o resultado e deixar um alívio de contentamento ou um suspiro de preocupação. Que raio de bicho é este que nos morde entre o coração, a distância e o arranha - céus?!
Sempre entendi o “Santa Clara” como um clube de bairro com alma grande. O jornal “O Santa Clara”, de aparecimento esporádico, foi o espelho de alguma memória colectiva, expressa em alguns títulos dos quais, propositadamente, refiro este “O Santa Clara”: Retrato da alma popular, milagre de vontade”.
Não devemos ter vergonha do passado. Não devemos nunca descurar o presente por que de outra forma nunca teremos futuro.
Ficaria aqui o tempo todo a contar histórias que fazem a cor, o cheiro, a alma, do glorioso Santa Clara, histórias com a típica charanga que faz falta no estádio na melodia característica do hino, e que explicam esta relação de amor devotado por uns, e rejeição sem benevolência por parte de outros.
Todos os anos ouvimos: “O Santa Clara está cada vez pior” “O Santa Clara é uma desgraça”  “qualquer dia o Santa Clara fecha a porta”.  Puro engano! A deferência só nos enaltece. Somos e seremos sempre o motivo referencial de comparação. 
Quando não somos campeões somos finalistas. E quando não ganhamos coisa alguma mantemos a cabeça bem erguida para continuar a luta incessante por este ideal: “Mens Sana In Corpore Sano”–  “ Mente Sã Em Corpo São”.
Da vitória de uma equipa pode nascer a grandeza de um clube ou de uma região por inteiro. Como noutros tempos o sonho está entre mãos, no compromisso desta geração que continua a abrir cada vez mais as portas para encher a “nossa pobre casinha” onde se movem dirigentes, técnicos, jogadores, funcionários, colaboradores, sócios, simpatizantes, adeptos e carolas.
O Santa Clara está vivo. Bem vivo, ao serviço dos Açores e das suas causas. Viva o Santa Clara.

 Sidónio Bettencourt
(Sócio nº 14)
 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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