28 de junho de 2020

Dos Ginetes

Cumprimento da Promessa em tempo de pandemia

Não fora a realidade bem presente e respectivas consequências da Covid-19, neste fim-de-semana estaríamos em plena festa de São João aqui nos Ginetes. Como já várias vezes descrevi ao longo dos anos nas minhas crónicas, na realidade a mesma está ligada a uma promessa feita pelos antepassados desta terra ao “Divino Espírito Santo” mas que a popularidade atribuída a São João alcançou um protagonismo de tal forma que reteve de um modo especial a atenção do nosso povo. Ao longo de mais de duzentos anos variadas situações partidas da imaginação fértil da nossa gente contribuíram para a criação de um mito que ainda hoje parte da população mais idosa, mas já não tanta como outrora, acredita piamente como se de um “dogma de fé” se tratasse. 
Durante muito tempo também fui embalado com uma história que não é mais do que um excerto do livro “Lendas e Outras Histórias” da autoria de uma senhora, Angela Furtado Brum, como descreve o Dr. António Ferreira Leite antigo Pároco desta terra na obra que nos deixou “Um Olhar de Observação Sobre os Ginetes”, homem de uma grande inteligência com quem mantive uma forte amizade, apesar da diferença de idades. Sei que colocou todo o seu empenho ao serviço da verdade e para tal procedeu a uma minuciosa pesquisa pois queria que o seu livro ficasse como um testemunho verdadeiro da religiosidade e diversas tradições do povo dos Ginetes que sei ter levado no coração para a eternidade apesar de nascido numa outra localidade da Ilha de S. Miguel. 
O que por aqui se passou foi em 17 de Junho de 1810, Domingo da Festa da Santíssima Trindade. A terra tremeu e os abalos mais frequentes e fortes destruíram casas e danificando parte das igrejas nos Ginetes, Várzea, Sete Cidades, Candelária e Mosteiros. Toda esta crise sísmica se estendeu até 31 de Janeiro de 1811. Após tantos meses de medo e sofrimento o povo dos Ginetes por consenso unânime, prometeu realizar todos os anos o Império em Honra do Divino Espírito Santo no dia 24 de Junho, a que naturalmente deram o nome de Império de São João.
As solenidades constavam de Missa e sermão, distribuição aos pobres de esmolas de pão, carne e vinho. É evidente que como em tudo com o decorrer dos anos perdeu-se parte do sentido da festa que nasceu de tal promessa e que hoje muito pouco se fala sobretudo porque no passado entrou-se em contradição com datas e eventos da própria história dos Ginetes que “não batiam certo”.
A determinada altura nesses longínquos anos do início do século XIX surge igualmente no mar o aparecimento de uma pequena Ilha chamada Sabrina à distância de perto de uma milha da Ilha de S. Miguel. Passados poucos meses desapareceu mas não sem deixar marcas na memória da população dos Ginetes.
Porque a memória do nosso povo é fértil em emoções a determinada altura falou-se mesmo de um vulcão que nunca existiu no Pico das Camarinhas em 1810 relacionando-o com a formação da Fajã da Ferraria, alimentando durante quase duzentos anos uma história que não é verdadeira e que descrevia a ida do Pároco dos Ginetes com a Bandeira do Divino Espírito Santo, acompanhado pela população ao encontro da lavra do vulcão e que chegado perto a mesma recuou até à cratera e se expandiu para o mar formando a Ferraria.
Segundo Gaspar Frutuoso a verdadeira erupção vulcânica que formou a Ferraria deu-se antes da descoberta da Ilha de S. Miguel, não ocorrendo qualquer erupção no Pico das Camarinhas em 1810. O que na realidade sucedeu foi uma erupção submarina frente à costa marítima dos Ginetes como acima referi.
Depois de recordar mais uma vez o que levou há mais de duzentos anos os nossos antepassados a uma promessa ao Divino Espírito Santo, neste Domingo a pequena Comunidade dos Ginetes não vai esquecer o dever de cumpri-la, mesmo de uma forma simples, dentro das normas de segurança impostas pela autoridade responsável da saúde. Sei que a Igreja como Instituição tem sido exemplar. 
Não vai haver festa grande, nem caminhos ornamentados, iluminação, barracas de comes e bebes ou arraiais, mas sim um pouco de recolhimento através da Celebração da Eucaristia, com a presença dos Mordomos do Império de S. João e a tradicional coroação realizada de forma muito simples. É o possível no momento.
Talvez para o próximo ano possamos estar de volta para uma vida normal, para nos rirmos e passar alguns dias felizes com os amigos.
São em momentos como estes que vivemos agora que valorizamos o dom da vida, a saúde e liberdade que possuímos. Neste mundo que não cessa de nos surpreender com injustiças, crimes e muito mais é a hora de cada qual contribuir, à sua maneira porque não somos todos iguais, para uma sociedade mais justa e melhor equilibrada. É tempo de pensar o que queremos para o futuro, esse tempo que já é curto para os da minha geração mas que os jovens necessitam lá chegar e viver melhor do que este presente que vivemos agora infelizmente marcado por uma grande interrogação.
 

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Categorias: Opinião

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