Antropóloga trabalha hoje no Plano Nacional das Artes

Entre os Açores e Lisboa, Maria Emanuel Albergaria concretizou sonho de trabalhar no Museu Carlos Machado e amenizar desigualdades

É a mais velha de cinco irmãos que, juntos, passaram uma infância feliz e privilegiada numa quinta localizada no Pópulo, junto ao mar. Em conjunto com os irmãos, vivia também com os pais e com os avós maternos, sendo o avô oftalmologista em Ponta Delgada e a avó, natural de Coimbra, “uma pessoa muito especial”, recorda.
Como irmã mais velha, Maria Emanuel Albergaria sentia, de certa forma, “uma grande responsabilidade” relativamente aos irmãos, mesmo que essa responsabilidade não lhe fosse directamente imposta, refere, recordando algumas das memórias mais felizes dos tempos que passavam juntos a encenar peças de teatro ou a ver o nascer do sol.
No entanto, quando tinha 17 anos, viu a família emigrar para o Canadá à procura de concretizar “aquele sonho do El Dorado americano” que tinha o seu pai, bancário de profissão, e que por sua conta e risco decidiu levar a família para o estrangeiro.
Maria Emanuel Albergaria ficaria em São Miguel, uma vez que engravidara daquele que viria a ser o seu primeiro marido aos 16 anos de idade, optando assim por se dedicar ao crescimento e acompanhamento da sua primeira filha, vindo a juntar-se à restante família aos 19 anos de idade, altura em que para o Canadá com um visto de estudante.
“A minha filha nasceu em Setembro e antes disso passei nos exames e fiz tudo direitinho. Depois veio o ano propedêutico e era fantástico porque as aulas passavam na televisão, o que acaba por ter alguma relação com o que está a acontecer agora.
Os meus pais foram para o Canadá em 1980, depois de a minha filha ter um ano de idade eu fiquei com ela e com o meu então marido na enorme casa dos meus pais. Mais tarde, as coisas não estavam a funcionar muito bem e o meu pai veio buscar-me a mim e à minha filha. Como o meu marido estava na tropa não podia ir”, relembra.
À chegada, e tendo em conta que sempre foi uma pessoa sonhadora e criativa, optou por ingressar num curso de Belas Artes numa espécie de escola profissional, onde considera ter-se integrado bem desde início e manter o padrão de “boa aluna” que tinha levado dos Açores.
No entanto, confessa ter tido alguma dificuldade em adaptar-se a toda a prática que o curso envolvia, carecendo “da parte teórica” a que estava habituada das disciplinas de filosofia ou sociologia. Por esse motivo, e também pelo facto de ter uma filha ainda pequena, optou por seguir um rumo diferente no segundo ano em que esteve no Canadá, frequentando assim um ano em pedagogia.

A escolha da antropologia
Regressaria a São Miguel depois de dois anos no Canadá, até porque era onde se encontrava o seu marido, mas partiria depois para Lisboa, onde se viria a licenciar em antropologia.
A escolha do curso, conforme explica, foi amplamente motivada pelo facto de ter passado os dois anos anteriores no Canadá, onde se interessou “pela cidade cheia de bairros étnicos”, despertando-a para a multiculturalidade que ali existia e para o estudo do ser humano de uma forma geral.
“Nessa altura a minha filha tinha quatro anos de idade e foi comigo para Lisboa. Havia uma amiga minha que tinha tido um filho também e fez parte deste conjunto de pessoas que veio estudar para Lisboa. Nós apoiávamo-nos mutuamente. Levava-a ao infantário, ia para a faculdade e ainda conseguia conviver com os meus amigos. Às vezes lembro-me de ter alguma ansiedade para sair à noite, mas os meus irmãos também começaram a chegar do Canadá para estudar em Lisboa e ajudavam a cuidar da minha filha”, relembra.
Na altura, conta, uma licenciatura em antropologia era significado de uma carreira ligada ao ensino, por isso, assim que terminou o curso regressou à ilha em que nasceu, concorreu e ficou, assumindo o papel de professora de geografia na Lagoa, na Escola dos Frades. 
No entanto, admite ter sempre tido uma paixão por museus e que durante vários anos tentou que essa experiência acontecesse, embora sem sucesso: “Sempre tive uma paixão por museus, queria muito trabalhar em museus ou numa autarquia. Tentei várias vezes mas a questão da antropologia era muito pouco conhecida e havia muito pouca sensibilidade para esta área. Tinha sempre que explicar o que era porque confundiam muito com arqueologia”, conta.
Contudo, hoje esta profissão está “muito mais valorizada”, adianta, referindo que quer em Lisboa quer em São Miguel “já há lugares para os antropólogos nos quadros”.

O desafio de trabalhar numa escola localizada num bairro social
Entretanto, depois de uma separação, viria a conhecer o seu segundo marido e o seu destino cruzar-se-ia de novo com Lisboa, onde foi professora durante alguns anos. A experiência que mais a marcaria neste âmbito seria a passada no Monte de Caparica, numa escola localizada num bairro social.
“Era uma escola muito complicada com miúdos de etnias muito diversificadas, mas aí eu sentia que estava a fazer também o trabalho de antropóloga e isso foi interessante. Foi uma escola muito exigente, uma escola para a vida mas com professores muito dinâmicos e com muita vontade de dar respostas àquelas crianças que, no fundo, tinham problemas por estarem numa espécie de submundo, quase num gueto”, realça.
Para tentar dar essas respostas de que as crianças necessitavam, durante os seis anos em que lá esteve, acabou por ser a responsável por um projecto inovador, que consistia em criar uma ludoteca na escola, um espaço onde as crianças pudessem brincar e participar em actividades recreativas.
“Senti que aqueles alunos precisavam de brincar, que era o que não faziam em casa. Eles não tinham brinquedos nem espaço para brincar como as outras crianças e ali fazíamos tudo: tínhamos jogos, tínhamos livros, tínhamos um grupo de teatro, concursos... era um pólo cultural na escola”, diz.

O percurso no Museu 
Carlos Machado
Porém, num “ano atípico”, conforme o chama, regressaria aos Açores para leccionar na Escola Básica Integrada Canto da Maia, coincidindo com o ano em que não conseguiu colocação no continente e com o ano em que a filha mais velha, já a terminar o secundário, estava a estudar em São Miguel. Após três anos conseguiria concretizar um grande sonho, o de vir a trabalhar para um museu.
“Fiquei colocada na Escola Canto da Maia, onde estive três anos, e fiquei efectiva. Ao fim desses três anos o Padre Duarte Melo convidou-me para ir para o Serviço Educativo do Museu Carlos Machado, numa altura em que ele tinha acabado de assumir a Direcção do museu”, relata.
Maria Emanuel Albergaria viria a conhecer o Padre Duarte Melo ainda no ano de 1996, ao preparar um trabalho para apresentar na então Convenção para a Nova Autonomia, em que o grupo que explorava a área da educação, ao qual pertencia, se debruçava sobre o que se passava na Região em termos educativos.
“Fiz o trabalho em torno da minha escola e dos problemas sociais ligados ao bairro do Lajedo. Dentro da própria escola reproduziam-se as desigualdades sociais. Havia as turmas dos meninos que vinham do colégio e as turmas dos meninos que vinham do Lajedo. Eu contestava isso e continuo a contestar.
As turmas da tarde eram sempre as piores turmas, as que ficavam com os professores que não eram do quadro ou que eram mais recentes e mais vulneráveis. Ou seja, a organização estava feita de modo a reproduzir desigualdades ainda maiores”, adianta a antiga professora.

O Museu Móvel
Numa primeira fase, Maria Emanuel Albergaria acabaria por trabalhar para o Museu Carlos Machado durante “cinco anos bastante dinâmicos”, começando logo por se deparar com a necessidade de encontrar uma solução para manter o museu vivo com o anunciado encerramento do núcleo de Santo André para dar início às obras que apenas agora se encontram a decorrer.
“Quando cheguei ao museu houve a questão de encerrar o núcleo de Santo André para iniciar um projecto de remodelação e ampliação, o que só agora está a ser concretizado. (…) Precisava mesmo de uma reestruturação, e então decidiu-se mesmo encerrar o museu e começou-se a transladar as colecções todas para outros sítios porque estava tudo nos conformes com a Direcção Regional da Cultura.
Como o museu estava encerrado, a criação do Museu Móvel foi uma resposta porque assim continuávamos a trabalhar e a levar o museu às pessoas. Foi isso que despoletou esse projecto, mas para as pessoas de São Miguel o museu é o edifício do Museu Carlos Machado. Simbolicamente o núcleo de Santo André é o museu, e é difícil fazer perceber que o museu não era só aquilo”, recorda a antropologista.
Dos tempos em que trabalhou lado a lado com o ainda Director do Museu Carlos Machado, Maria Emanuel Albergaria adianta que os dois estavam “completamente alinhados” e numa “dinâmica contagiante”, levando a que quer a equipa do museu quer a própria Direcção Regional da Cultura estivessem “super empenhadas no projecto”.
Entre os trabalhos que desenvolveu através do Museu Carlos Machado está também a exposição “Caminhos do Chá”, trabalho pelo qual continua a ser reconhecida e procurada, adiantando que ainda hoje há várias pessoas que lhe pedem para escrever artigos sobre o chá.
Ainda assim, mudanças na sua vida pessoal fizeram com que em 2011 decidisse que estava na hora de aceitar novos desafios, abrindo no entanto as portas para que voltasse uma segunda vez a trabalhar para o Museu Carlos Machado, embora tivesse uma missão diferente.
“O tempo no museu foi muito rico, não parávamos e dinamizávamos muita coisa. Era um serviço bastante ambicioso. (…) Mas em 2011 decidi ir para Lisboa, senti que não aguentava estar nos Açores, tive que fazer uma mudança na minha vida e então fui para o Museu de História Natural e da Ciência, onde estive dois anos no Serviço Educativo.
Gostei imenso porque aprendi outras coisas ao nível da ciência. Trabalhava no jardim botânico e foi também uma experiência muito interessante que me enriqueceu bastante, mas entretanto chega a crise e o museu deixa de ter dinheiro para me pagar, por isso volto aos Açores e volto para o Museu Carlos Machado”, conta.
Esteve de novo ao serviço do museu micaelense durante quatro anos, o que lhe deu a oportunidade de coordenar uma nova área, nomeadamente a área do Património Cultural e Imaterial, no qual conseguiu desempenhar a sua profissão de antropóloga e investigadora, resultando na já mencionada exposição “Caminhos do Chá”.

A entrada no Plano Nacional 
das Artes
Ao fim destes quatro anos, voltou de novo para Lisboa, onde trabalhou como assessora para a directora pedagógica do Conselho Nacional da Educação, reactivando assim a ligação que tinha com as escolas e com o ensino, tendo a oportunidade de se debruçar sobre o projecto Novas Rotas, em São Miguel, incluído no relatório anual de 2018 elaborado por esta entidade.
Entretanto, surge ainda a oportunidade de trabalhar no Plano Nacional das Artes, onde hoje se mantém, sendo esta uma estrutura do Ministério da Educação e do Ministério da Cultura que há um ano lançou o seu manifesto e conta com três eixos de intervenção, nomeadamente o político e cultural, a capacitação e educação e acesso.
“Na educação e acesso trabalhamos com escolas no sentido transdisciplinar, de valorizar de outra forma as artes, a cultura e o património dentro da escola como áreas transdisciplinares, não propriamente criando mais disciplinas, mas aproveitando esta capacidade transformadora das artes e do património para levar a escola a uma transformação”, explica.
Isto dá-se porque, de acordo com o Plano Nacional das Artes, “a escola não é um sistema fechado” e “o mundo não está dividido em caixinhas”, incentivando por isso a que também os professores, as escolas, os pais e os alunos tenham “uma visão sistémica e transdisciplinar” que permita algumas mudanças no horizonte da educação.
Em cada território há cultura e todos os seres humanos são portadores de cultura. Mas há que valorizar também o que está no local e não só dizer que o que é bom é o que vem de fora. Estamos sempre a receber contactos de estruturas e de artistas que querem trabalhar connosco, com visões muito interessantes, (…) muitas vezes até propomos aos artistas para pensarem e conceberem formações para professores diferentes”, diz.
Contudo, dos Açores o Plano Nacional das Artes recebeu ainda apenas uma proposta do Museu Carlos Machado, dizendo respeito ao projecto “De Fenais a Fenais”, que conta actualmente com duas escolas envolvidas, nomeadamente a EBI de Rabo de Peixe e a EBI da Maia, “escolas que aderiram ao projecto cultural de escola mas que com a questão da Covid se fecharam bastante”.
Neste aspecto, lamenta apenas o facto de ter já feito muita publicidade do Plano Nacional das Artes para os Açores e escolas açorianas e que desta não tenha resultado adesão: “Até agora foi o museu que chamou as escolas. Os professores estão muito resistentes aos e-mails e não respondem, queríamos que eles percebessem que isto pode ser facilitador do trabalho deles, mas havemos de chegar lá. É também fundamental a direcção das escolas estar implicada, senão sabemos também que as coisas falham”, acrescenta.
Quanto à possibilidade de voltar a trabalhar ou a viver nos Açores, Maria Emanuel Albergaria afirma que nada está fora de questão, uma vez que carrega a sua terra natal no coração, tendo em conta que para além da mãe e da filha, também os netos estão em São Miguel, ilha onde, aliás, passou também a quarentena.
Para além da proximidade maior que São Miguel lhe permite ter com a família, adianta que sente “quase um chamamento de missão” em relação aos Açores, e embora tenha já trabalhado por dentro das questões da pobreza e das desigualdades sociais, gostaria de “poder contribuir para transformar os Açores numa Região ainda melhor do que aquilo que é, pois ao nível social há muita desigualdade”.

 

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