28 de junho de 2020

O fundador do Correio dos Açores e as ligações aéreas para as ilhas (1919-1937)

À partida de Ponta Delgada da esquadra italiana de aeronaves comandada pelo marechal Balbo em 1933, ocorreu um desastre com um dos hidroaviões, à descolagem, provocando a morte do seu piloto. Esta tragédia provocou grandes manifestações de pesar na população micaelense e teve enorme repercussão na imprensa. O Correio dos Açores publicou diversas notícias sobre o acidente, incluindo crónicas de colaboradores do jornal: em 11 de agosto, “O DESASTRE O I-RANI: O Tenente Enrico Donelli fala ao ‘Correio dos Açores’ das causas prováveis do acidente e da sua gratidão pela população de S. Miguel” e “O FUNERAL DO TENENTE SQUAGLIA – A grandiosa manifestação da cidade de Ponta Delgada à memória do malogrado aviador”, concluído na última página; no dia 13, “AQUELE AVIADOR QUE MORREU...” por Guilherme de Morais, na 2.ª página, e “A MORTE DO TENENTE SQUAGLIA – Uma interessante carta do Sr. Dr. António Câmara”, na página 3. Este desastre que provocou a morte de um dos pilotos de Italo Balbo, ensombrou o sucesso da sua passagem pelos Açores. Não é de estranhar, por isso, que encontremos no Correio dos Açores do dia 27 seguinte, no âmbito duma entrevista dada por Balbo, não só uma menção à perda da vida do piloto como uma crítica às condições do porto de Ponta Delgada. Como seria de esperar, tal crítica provocou reações que se veem refletidas nos artigos do jornal. Eis alguns dos títulos no Correio dos Açores, já depois da partida da esquadra italiana de hidroaviões comandada pelo general Italo Balbo: em 18 de agosto, “O SIGNIFICADO DA VIAGEM DE BALBO: Um técnico vê nesta façanha dos italianos um exemplo das possibilidades estratégicas da aviação”; em 27, “OS AÇORES E A AVIAÇÃO: Uma entrevista de Italo Balbo – O desastre do ‘I-Rani’ – O pôrto de Ponta Delgada e a Esquadra Aérea Italiana – Os Açores perante a aviação transatlântica – Os aeroportos do Arquipélago – O que nos disse o Comandante A. Couceiro, Capitão do Pôrto de Ponta Delgada”; em 6 de setembro, “OS AÇORES NA AVIAÇÃO: Ainda a entrevista dada por Italo Balbo – As condições dos portos dos Açores”; a 13, “OS AÇORES NA AVIAÇÃO: O Marechal Balbo defende o aproveitamento dos Açores para a navegação aérea transatlântica – PONTA DELGADA poderá ser um bom porto aéreo; UMA BASE AÉREA nos Açores para as linhas regulares – A ESTAÇÃO DOS AÇORES NÃO PODE FICAR À ESPERA”; em 1 de outubro, “OS AÇORES NA AVIAÇÃO: OS ARTIGOS DE BALBO”; em 8 seguinte, “OS AÇORES NA AVIAÇÃO: AS CONSIDERAÇÕES DO MARECHAL BALBO”,  e a 10,  “OS AÇORES NA AVIAÇÃO: As reclamações de Italo Balbo”. 
As opiniões de Italo Balbo nem sempre provocavam reações críticas: até serviam para reforçar as reclamações dos que vinham defendendo a necessidade de melhorias na operacionalidade de Porto de Ponta Delgada. Conforme veio a explicar Carla Benedetti, em setembro, a imprensa micaelense deu muita visibilidade às declarações de Balbo sobre o porto de Ponta Delgada, dado que as opiniões do marechal italiano reforçavam as reivindicações daqueles que insistiam na necessidade da sua ampliação.
Para além da questão relativa ao porto, o evento da passagem da esquadrilha serviu para alimentar outros oportunismos, desde que ficasse à vista a urgência de investimentos para que as ilhas, particularmente as duas, Faial e São Miguel, que acolheram nas suas baías a frota da força aérea italiana, pudessem ter melhores condições para serem e permanecerem parceiros indispensáveis nas rotas aéreas entre os continentes europeu e americano. As grandes iniciativas da navegação aérea tiveram o objetivo essencial de apresentarem aos mercados estrangeiros o produto da indústria aeronaval italiana. Nunca existiram dificuldades de financiamento para estas gigantescas ações de marketing, conclui Benedetti.
A adoração da imprensa ao astro Italo Balbo foi interrompida pela atitude de consternação perante a súbita notícia do acidente em que perdeu a vida o coronel Francesco de Pinedo que por aqui tivera idêntico palco seis anos antes: “Um grande desastre de aviação: Morreu o Marquês de Pinedo” é a notícia de 3 de setembro do Correio dos Açores, que a complementará dez dia depois, na 2.ª página da sua edição do dia 13, com “A morte do Marquês de Pinedo: Pormenores do desastre que vitimou o grande aviador”.
Os restos mortais do famoso coronel aviador italiano vieram a passar por Ponta Delgada, no dia 23, a caminho de Itália, a bordo do paquete “Vulcânia”, e foi-lhes prestada sentida homenagem, menos participada, contudo, do que aquela de que havia sido alvo o infeliz tenente aviador Squaglia, da esquadra Balbo, o que se compreende por este ter perdido a vida mesmo no porto desta cidade.

Voos de ensaio da Marinha nos Açores com hidroaviões Junkers

Entretanto, a nossa aviação naval, mesmo que incipiente, ensaiava a ligação às Ilhas Adjacentes: três hidroaviões Junkers K43 W realizaram, em julho de 1935, um voo de ensaio, integrados em manobras no Atlântico de uma divisão naval da Marinha Portuguesa. Foi a primeira operação em voo de grupo e efetuaram o percurso Lisboa-Funchal-Ponta Delgada-Horta-Ponta Delgada-Funchal-Porto Santo-Lisboa. 
A edição do Correio dos Açores de 27 desse mês de julho reflete essa operação da Armada Portuguesa com o seguinte título: “NA ORDEM DO DIA: OS AÇORES NO FUTURO DA AVIAÇÃO – ENTREVISTA COM O COMANDANTE DA ESQUADRILHA DE AVIÕES EM MANOBRAS NOS ARQUIPÉLAGOS DA MADEIRA E AÇORES, 1.º TENENTE GOMES NAMORADO”. A entrevista é mais de simpatia do que de conteúdo. Mesmo assim, é significativa ao refletir a tendência da época para se apostar na aviação naval: perguntado sobre o tipo preferível de aparelho a empregar para as ligações Europa-América, o aviador, sempre tão parcimonioso nas suas afirmações, deixa, no entanto, escapar: - “decerto os hidroaviões”. 
A opinião do oficial aviador da Armada Portuguesa não é isolada: segundo escreve José Agostinho no seu artigo “A Aviação e os Açores”, em A UNIÃO de 17 de dezembro de 1953, os franceses mantinham-se “agarrados à ideia do hidroplano” e tinham enviado à baía da Praia da Vitória, em 1928, “o navio ‘Antarés’, trazendo a bordo o aviador Sala”, em missão de estudos.

A missão francesa de 1935 nos Açores

Ora, a visão francesa nesta matéria não era irrelevante. Os franceses estavam muito à frente na corrida pela exploração da aviação emergente nas décadas de 1920 e 1930: tinham construído das maiores e melhores aeronaves, que forneciam também aos outros parceiros europeus. Em 1929, como se viu um pouco atrás no presente trabalho, o engenheiro francês Anglejan por aqui andara em estudos sobre as possibilidades de utilização de aeronaves para ligar as nossas ilhas. Aeronaves, na altura em que ainda não havia por cá aeródromos terrestres, só podiam ser hidroaviões. Os exploradores franceses que estiveram nos Açores em 1935 e 1936 pretendiam estudar as condições destas ilhas para servirem de plataforma de apoio aos voos transatlânticos, fossem eles realizados por hidroaviões ou por aviões de rodas. No primeiro caso era primordial a avaliação das baías da Horta e de Ponta Delgada. Para a aviação terrestre punha-se a questão de estudar as condições de utilização do Campo da Achada, único aeródromo então existente nos Açores, ou encontrar outro terreno mais conveniente e vantajoso para ser construída uma pista. A missão de Lucien Bossoutrot analisou a parte correspondente às necessidades dos hidroaviões. Já Henri Nomy e Louis Castex pretenderam, além dessa avaliação aeronaval, estudar também a possibilidade de localização de um aeroporto terrestre. Castex ficou entusiasmado com as potencialidades dos terrenos cultivados do Ramo Grande, na Terceira, onde viria a ser construído o Campo das Lajes, então ainda Lagens, e também identificou a zona do atual aeroporto de Santa Maria. Este é um resumo que se pode tirar da consulta do Correio dos Açores da época, bem como das descrições de José Agostinho em A União de 17 de dezembro 1953.
Vejamos: a edição do Correio dos Açores de 6 de junho de 1935 publica “UMA ENTREVISTA SENSACIONAL: OS AÇORES NA AVIAÇÃO TRANSATLÂNTICA – Dentro de 2 anos, o máximo, será um facto a linha aérea transatlântica que ligará os Açores ao Velho Continente e ao Novo Mundo – O ilustre aviador francês M. Bossoutrot faz ao Correio dos Açores, sobre o assunto, importantes e interessantíssimas declarações”. 
Como se verá mais à frente, a missão francesa, que viria a estar nos Açores no fim desse ano, é, de algum modo, continuadora dos trabalhos de Lucien Bossoutrot, que viera aos Açores em representação dos fabricantes Blériot e Breguet, para estudar que tipo de hidroavião seria mais adequado de recomendar para a Air France estabelecer uma linha cruzando o Atlântico Norte. A França foi um dos primeiros a pretender realizar voos transatlânticos via Açores. 
Como se pode ler em “Apontamentos para a História da Aviação nos Açores”, publicado em 1986por Carlos Ramos da Silveira e Fernando Faria, em 1935, uma missão francesa sob o comando do capitão HenriNomy, acompanhado de Louis Castex, deslocou-se às ilhas de S. Miguel e Faial, para estudo das possibilidades de utilização das ilhas como base de hidroaviões.
Na verdade, nesta missão, que não era encomendada pelos fabricantes, como fora a de Bossoutrot, mas pelo Estado Francês, Castexe  Nomy deslocaram-se também à Terceira e a Santa Maria, como consta na notícia da 2.ª página do número do Correio dos Açores de 5 de dezembro de 1935, que ilustra o início do presente texto.

José Adriano Ávila

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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