28 de junho de 2020

Entre o passado e o futuro

Retoma Política em 3 andamentos, allegro, vivace e presto

Allegro. Ainda Ministro da Finanças, Mário Centeno por palavras e por silêncios com significado manifestou a sua vontade e disponibilidade para assumir a governação do Banco de Portugal. 
O Primeiro Ministro sem rodeios consolidou os indícios: e porque não?... Na quinta-feira formalizou a indigitação. O Presidente da República que criticara o Ministro em público afirmou que o Ministro das Finanças podia ser Governador do Banco de Portugal, ponto final.
Recordo-me duma conferência, realizada há uns anos e em cujo principal painel intervinham 4 ex-ministros das finanças de Portugal. Um deles, muito conhecido pelo seu fino sentido de humor, no início da sua intervenção e querendo separar as águas afirmou que havia algo que o distinguia dos três outros participantes. Quase gelou a assembleia que o ouvia. Esgotada a pausa, e olhando os seus pares disse: sou o único que não fui governador do Banco de Portugal. Durante muito tempo o Banco de Portugal também serviu como a próxima estação dos Ministros das Finanças, e a administração dos bancos públicos como próximo apeadeiro para os secretários de Estado do ministério das finanças. Ciclos da vida do português governante financeiro de então.
Porém, logo se formou na oposição política, um coro de objeções vagas à sua ida para o Banco de Portugal. E de supetão surgiu uma proposta de lei apresentada pelo PAN na Assembleia da República. A proposta visa a imposição dum período de 5 anos em que é vedada a possibilidade do trânsito do Ministro das Finanças para o Banco de Portugal. Obviamente, uma lei com um destinatário bem determina do num calendário que denuncia o seu propósito oculto: impedir Centeno de chegar ao Banco de Portugal. É uma lei particular que visa um caso específico. Não é geral nem abstrata. É inconstitucional, como toda a gente sabe, exceto os proponentes. É bom para Portugal que Mário Centeno competente, com um prestígio internacional como não me lembro doutro ministro das finanças português o ter conseguido, assuma o Banco de Portugal. Especialmente nos tempos difíceis que a economia nacional atravessa, no topo da gestão do interesse nacional deve estar um gestor financeiro respeitável e respeitado interna e externamente. Contudo, todos parecem ter esquecido o Banco Central Europeu, o dono da batuta que definirá o compasso. Já disse precisar de 4 semanas para definir as regras. Qual Constituição portuguesa?!
Vivace. A TAP vai receber uma ajuda financeira do Estado. Todavia, a programação futura dos voos da TAP discrimina negativamente o aeroporto do Porto pois concentra porção significativa das operações de e para Portugal no aeroporto de Lisboa, um erro estratégico. De supetão, também, foi interposta uma providência cautelar no tribunal administrativo destinada a impedir a TAP de receber a ajuda financeira de Estado que estava a ser preparada e necessária à sua sobrevivência. Providência que a obter vencimento fará ruir a TAP. Não é só um erro estratégico. A desproporção entre os interesses que a providência visa acautelar e os que serão prejudicados com a queda da TAP é incomensurável. É pura insensatez que o tribunal condenará. Contudo, a TAP precisa de mais do que 1.2 mil milhões. A Comissão Europeia, a dona da batuta, marca o compasso: mais não! O problema da TAP vem dum passado sem Covid-19.
Presto. Na grande Lisboa o modo de desconfinamento em modo idêntico ao resto de Portugal continental provocou um inesperado surto pandémico. Fez com que o Sul ultrapassasse o número de infetados contados no Norte onde até há poucos dias sempre fora superior. Logo, irrompeu na comunicação social um presidente de Câmara do Centro com desapropriada combatividade para exigir que Lisboa fosse objeto de cerca sanitária. Segundo aquele presidente, a cerca evitaria que o seu concelho e outros a Norte “importassem” o Vírus que se espalhava na Capital. Quando a situação no Norte era bem pior do que na região de Lisboa o mesmo autarca criticou duramente a cerca sanitária instalada nos limites do seu Concelho. Pareceu agora querer vingar através de castigos infligidos a outros cidadãos o anterior sofrimento dos seus munícipes. À sua narrativa desabrida respondeu o presidente da Câmara Lisboa que também subiu ao “palco”e não poupou na rudeza e vacuidade do seu contraditório. A nossa sorte é que a decisão política sobre o combate ao Covid-19 tem de respeitar a verdade científica, neste caso, a maestrina.
Voltaram os políticos: perdulários no discurso e quezilentos no relacionamento; quando só têm de ser poupados nas palavras, solidários no fazer e assim ajudarão o povo a sofrer menos. 


 

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Categorias: Opinião

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