28 de junho de 2020

Coisas do Corisco

O milagre do Alqueiva (dois)


Penso que a questão do respeito que deveria haver, por parte de nós humanos, para com o bem essencial para a vida na terra como é a água, é hoje em dia, muito mais uma questão educacional do que outra coisa qualquer. Por isso estou convencido que a água como recurso imprescindível da humanidade é visto levianamente por nós humanos com um desrespeito enorme que atemoriza e choca qualquer pessoa mais sensível para as questões que se  relacionam com os recursos ambientais.
A nossa falta de respeito pela água, como recurso imprescindível, é tal que, mandamos pela sanita, diariamente, dezenas e dezenas de litros de água pura, bebível, como um produto de limpeza das fezes nas nossas  casas de banho. Percebe-se isso? Percebe-se que não haja forma de reutilização das águas de banhos para servirem as águas utilizadas nas sanitas em vez de se o fazer com água pura, criadeira?
A propósito da água e do respeito que deveria haver por ela, tenho que, em abono da verdade dizer, que nós em São Miguel sempre olhámos para a água, dada a nossa grande pluviosidade, como um bem quase sem valor, e isso faz-me recordar algo fantástico que assisti, na cidade de Benguela, em Angola, onde vi uma jovem mãe lavar um bebé, com um pouco mais de um ano de idade, com a água de uma garrafa 0,33 de cerveja Sagres.
Enquanto me recordar daquilo que vi, chamar-lhe-ei um poema da destreza e do bem fazer: ela começou por depositar um pouco de água na ponta dos dedos os quais, molhados, passava na pele da criança. Depois de limpar toda a pele do seu bebé, terminou vazando um fio de água por todo o seu corpo. Quando terminou, o corpo da criança brilhava num castanho admiravelmente puro, toda a sua beleza.
Perante aquela cena, lastimei quanta água tinha desperdiçado , até então, deixando as torneiras sempre abertas enquanto lavava os dentes, ou ensaboava o corpo quando tomava duche.
Já existem alertas distintos nos Açores sobre a falta de água quando o Verão decorre seco; por isso a mãe natureza está a chamar-nos  à atenção para corrigirmos o tratamento que damos às nossas águas, e o investimento nela que tem que ser urgentemente feito como uma aposta de futuro; temos que reconquistar o império da água que tínhamos nos nossos antigos matos, bem perto das nossas cumeeiras, nas inúmeras turfeiras que lá voltarão a residir se olharmos atentamente para o fenómeno da água. Quanto custará essa reconversão? Muito pouco se considerarmos o valor da água que essa reconversão nos vai trazer, como um bem que simplesmente não se pode avaliar, tal é a sua riqueza.
Por exemplo, o Alentejo era uma região agricolamente  pobre, de sequeiro, de onde as pessoas fugiam para os grandes centros urbanos, e onde só a agricultura extensiva poderia trazer algum rendimento que compensasse explorar a terra. 
Por isso um dos grandes e salutares exemplos da visão do valor que a água tem no conceito global terrestre, foi a construção do Alqueiva, o maior lago artificial da Europa. 
Depois de muita polêmica, nasceu a criação do maior e mais importante projecto de regadio de Portugal, projecto esse que modificou completamente o paradigma da agricultura no país. Por isso, depois do Alqueiva começar a funcionar, o Alentejo tornou-se, essencialmente, numa região onde a pequena agricultura passou a ter o lugar que até então não tinha, auxiliada pela água de  regadio,  tornando o Alentejo numa província com uma enorme premissa no presente e do futuro, por trazer uma agricultura promissora e nova que outrora, sem água para rega, era impossível ter.
Com a rega apareceram novas culturas e plantações de regadio, com um poder enorme de fixação de gente nova, com projectos novos, com culturas novas, dos mais variados produtos, impensáveis produzirem-se antes da construção daquela enorme bacia irrigável.
Nasceram promissores olivais de regadio, prados imensos para a produção de leite e principalmente de carne, culturas como o milho, o tomate, e muitas outras de grande valor. A produção de arroz quase duplicou e as leguminosas passaram a ter lugar, assim como muitas outras culturas, entre as quais algumas árvores de frutos sub tropicais. Para além, dissofixou-se no Alentejo muita gente nova, pondo-se termo ao êxodo habitual do campo para os grandes centros urbanos.
Mas o Alqueiva não se tornou apenas numa zona de regadio, tornando-se, também, numa zona turística de lazer importantíssima, fruto do imenso lago em que se tornou.
Por isso a diversidade cultural que criou, o número de pessoas que lá se fixaram, e a riqueza subjacente que a água promoveu na agricultura daquela região, trouxeram uma nova vida ao Alentejo, assim como o exemplo de que a água  estabelecida produz na fixação das pessoas, e na riqueza que faz nascer nas suas  terras refrescadas pela benção das águas que generosamente as irrigam.
Com o Alqueiva, com a sua água, com os seus benefícios e alternativas, não foram necessários muitos anos para que o Alentejose tivesse tornado num pacote de premissas convidativas que levam a que as pessoas por lá se encantem e lá se fixem.
            (Continua) 

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Categorias: Opinião

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