30 de junho de 2020

Racismo – iniquidade e vergonha

 


Que os negacionistas persistam e teimem em alimentar que não existe. Dizer-lhes que ainda vão a tempo de rever posições, em nome da solidariedade entre os Homens, que em comum têm todos o vermelho do sangue que os faz viver.
Há quem defenda que existe um Portugal, que sempre foi “estruturalmente racista, e por isso mesmo, totalmente inconsciente disso”.
Estudo recentemente divulgado pelo “European Social Survey” revela que 62% dos portugueses manifestam alguma forma de racismo, estando entre os povos europeus que mais acreditam que existem raças naturalmente superiores a outras.
Dito isto, é com alguma dificuldade que se aceitam afirmações, tais como “ não há racismo na sociedade portuguesa. Ainda ficamos racistas com tanta manifestação anti-racista”.
 Ademais quando proferidas por um líder partidário com legítimas aspirações a ser o futuro primeiro ministro de Portugal. 
O Dr. Rui Rio, autor da afirmação acima referida, conhecido pelo rigor e disciplina e por ser “bom em números”, ou não fosse um brilhante aluno do colégio alemão e formado em “económicas”, o tal que, por altura das eleições para o parlamento europeu, sentenciava que os “Açores apenas valiam 12.000 votos”, deixando, não só os seus companheiros do PSD local, assim como uma grande parte dos açorianos, bastante desagradados. Valeu o bom senso político dos seus mais reputados militantes locais.
Conceda-se que tal afirmação não é apenas do Dr. Rio, ela é habitual no cidadão comum, proferida amiúde no café da esquina, numa corrida de táxi ou à saída duma igreja.
Nesta posição o presidente do PSD não está só, também o PCP pela voz do seu secretário geral Jerónimo de Sousa, fez afirmações no mesmo sentido. 
O PSD com receio de perder votos em vários estratos sociais, dada a militância interclassista que o caracteriza. O PCP para agradar a algum do seu eleitorado operário das cinturas industriais das grandes cidades e do Alentejo profundo.
Sabe-se da existência de algumas formas de racismo disseminadas por estes grupos sociais.
Como já tem sido divulgado ambos os partidos estão a perder eleitorado para o novo partido “Chega”, que sem hesitações, assume não existir racismo em Portugal. 
Reconheça-se pelo menos a flagrante coerência paradoxal, nomeadamente do seu líder e o discurso populista de agrado geral, daí o estar a subir nas sondagens.   
Se por um lado nega existir racismo, por outro profere expressões racistas e xenófobas, próprias dum certo radicalismo de direita, que vemos e ouvimos por esse mundo fora, que Trump e Bolsonaro, são os exemplos mais evidentes, muito bem secundarizados por Abascal, Salvini ou Marie Le Pen.
O painel ficará mais ilustrado se se acrescentar os campos de concentração do império comunista chinês do Sr. Xi, para onde são enviados milhões de chineses da etnia uigur, assim como a limpeza étnica a que estão sujeitos os rohingyas em Myanmar (ex- Birmânia), obrigados a fugir ao genocídio da sua raça.
Em Portugal o racismo não está institucionalizado, como acontecia com o regime da África do Sul e a sua política de segregação racial conhecida como “apartheid”ocorrida entre 1948 e 1994.
Contudo, quem de entre nós já não assistiu à verbalização de expressões de teor racista? Não só nos campos de futebol, como em muitos outros espaços públicos. De forma directa por palavras ou acções, e pior, por omissões e pela indiferença.  
Banalizou-se e normalizou-se, cínica e hipocritamente. Negar a evidência, é branquear uma “anomalia”, que tem raízes históricas, sendo as mais recentes as que nos foram deixadas pelo regime colonial do Estado Novo. 
Mesmo após a abolição da escravatura, mantiveram-se os trabalhos forçados não remunerados até aos anos 60 do século passado, embora continuassem de forma encapotada até ao 25 de Abril de 1974.
São conhecidas as exposições sobre a matéria dos Professores Doutores Adriano Moreira e Marcelo Caetano, manifestando discordâncias sobre a forma como eram tratados os pretos no Ultramar.
Não se pode deixar que apenas sejam os extremistas e radicais de esquerda a fazerem da luta anti-racista a sua bandeira, porque o que mais não fazem é dar argumentos aos que se opõem à causa do combate à discriminação racial. A luta tem de ser de todos os democratas, da esquerda à direita. Tem de admitir-se que existe um problema de racismo em Portugal. Não é negá-lo que estamos a ajudar a encontrar soluções justas.
Sublinha-se que não deixa de ser inquietante que prestigiados académicos defendam que “ciganos e africanos não pertencem a uma qualquer entidade civilizacional que denominam de cristandade e não descendem da Declaração Universal dos Direitos do Homem”. 
Em Democracia são livres de terem as opiniões que entenderem, não estão é a contribuir para uma discussão desapaixonada do tema, dando respaldo aos extremismos que só conhecem a violência como argumento, independentemente do lado em que se situem. Até porque violência gera sempre mais violência.
Ainda agora o conhecido liberal de direita Pedro Norton, escrevia “…O racismo não precisa de ser comparado com absolutamente nada para ser inequivocamente rejeitado. É intrinsecamente perverso e deve ser combatido sem olhar a quem o promove ou pratica…”.
Afinal é no MEIO que continua a estar a VIRTUDE!

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Categorias: Opinião

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