30 de junho de 2020

Estudar rigorosamente o passado para construir um futuro melhor

 Recentemente, alguns articulistas têm expressado opinião elogiosa sobre a proposta do movimento planetário antiracismo, porque no seu entender visa despertar para a realidade da discriminação racial e também proceder a uma análise crítica ao passado de colonialismo e esclavagismo. Simultaneamente afirmam ser através de um estudo rigoroso do passado que construiremos um futuro melhor, em que Portugal se orgulhe da sua capacidade em garantir a igualdade e os direitos fundamentais de todos os seus habitantes.
Todavia, a forma como analisam o palpitante tema está eivada de preconceito politicamente correcto, carece de visão planetária e parece não revelar o rigor do estudo do passado que preconiza. Lamentavelmente, tenta reduzir cinco séculos de colonização portuguesa ao período da escravatura, escamoteando que esta era praticada desde a antiguidade pelos vencedores sobre os vencidos, nomeadamente em África pelos próprios africanos e pelos árabes antes de os portugueses e outros povos europeus ali chegarem. Ignoram a estreita interação existente entre a Política, a Estratégia, a Táctica e a Técnica, mais uma vez demonstrada quando a invenção da máquina a vapor eliminou a necessidade do trabalho escravo, tal como, na antiguidade, os progressos na arte da navegação à vela haviam dispensado os remadores acorrentados nas trirremes.
Para documentar o que afirmo, sugiro a leitura da biografia do General Henrique Augusto Dias de Carvalho, profundo conhecedor do interior de Angola no Século XIX, em especial as províncias de Malange e da Lunda, escrita pelo Coronel João Dias de Carvalho, impressa pela Liga dos Combatentes, publicada em 1975. Na página 232 pode ler-se um episódio deveras curioso, em que Noegi, o Imperador dos Lundas, se lamenta a um plantador de Golungo Alto, na qualidade de embaixador português, Rodrigues Graça, sobre os efeitos da proibição do comércio de escravos, decretada pelo Rei de Portugal. Segundo o Imperador, era prática ancestral escravizar os que cometiam crimes de assassínio, roubo, adultério, desobediência e feitiçaria. Se não fosse permitido vendê-los, teria de os mandar matar, disse Noegi.
É mais conhecido outro episódio na História de Angola, demonstrativo da escravatura exercida pela Rainha Ginga. Tendo sido recebida em audiência pelo Governador de Angola, como este não a convidasse a sentar-se, chamou uma escrava, colocou-a de gatas e sentou-se sobre as suas costas. Terminado o encontro, a Rainha levantou-se e dirigiu-se para a saída, deixando a escrava na mesma posição. Sendo alertada para esse facto, respondeu, imperturbável, que nunca se sentava duas vezes no mesmo assento. A nefanda prática da escravatura, que hoje repugna a qualquer pessoa civilizada, continua lamentavelmente a ser praticada na actualidade pelos próprios africanos no interior de alguns Estados, como a República Democrática do Congo, a Líbia, entre outros.
O citado movimento planetário antiracismo tem uma forte componente anarquista e iconoclasta, cujo verdadeiro objectivo não é eliminar o racismo mas outrosim destruir a identidade nacional portuguesa que está indissoluvelmente ligada aos Descobrimentos iniciados no dealbar do Século XV, genialmente plasmada por Camões nos Lusíadas. O que na realidade se pretende é facilitar a criação de uma sociedade internacional inculta, facilmente manipulável através do consumo de conteúdos sintéticospreviamente sujeitos ao lápis azul, propalados nas redes sociais digitais por um punhado de falsos progressistas iluminados.
A presença colonizadora lusa, com relevo para o papel missionário da Igreja Católica, fez evoluir os povos na Índia, em África, na América do Sul, na China e na Oceania, incentivando o casamento com nativas, proibindo o canibalismo e as guerras tribais, bem como, em Gôa, por Afonso de Albuquerque, o “Sati”, isto é, a queima das viúvas na pira crematória dos maridos.
Foram desbravados grandes espaços, erigiram-se cidades modernas, demarcando, cartografando e defendendo à custa de esforços inauditos de portugueses e africanos, as fronteiras dos vastos territórios, assegurando o seu reconhecimento internacional  mediante a celebração de Tratados. Repare-se na vastidão de Angola, Moçambique e Brasil. Na colonização espanhola, por exemplo, apenas se lhes comparam em dimensão, o México e a Argentina.
 Em meu entender, o ensino da História de Portugal às novas gerações, não deve escamotear as vertentes negativas da colonização, como a época do trabalho escravo, mas precisa de sublinhar, numa perspectiva planetária, os importantes aspectos positivos de que nos devemos orgulhar, ao fazer evoluir os povos do tribalismo, uma galáxia de mundos humanos isolados, eivados de ódios étnicos, algum canibalismo e esclavagismo, onde a comunicação é feita apenas oralmente com um número reduzido de vocábulos, para uma cultura hegemónica utilizando o português, idioma avançado, com milhares de palavras, capaz de alargar o pensamento para além do horizonte e de exprimir muito mais ideias, catalizando o acesso do ser humano à evolução e à cidadania plena em direção a um mundo unitário, global.
A História deve ser apresentada aos jovens à luz de um quadro da evolução da Humanidade, explicando os aspectos positivos e também, evidentemente, os negativos, criando a emulação que os motive a serem cidadãos ainda melhores do que os seus avoengos. Os portugueses querem-se descomplexados e motivados para continuar a cooperar com os povos dos actuais Estados independentes lusófonos que ajudaram a criar à custa de laboriosas fadigas e com enormes sacrifícios.  
Como disse o cientista israelita Yuval Noah Harari no seu livro “Sapiens, História Breve da Humanidade”, é preciso olhar a História alcandorando-nos ao ponto de vista de um satélite espião cósmico, analisando milénios em vez de séculos, percebendo como se desenvolveram as culturas que há cerca de 70.000 anos os organismos pertencentes à espécie “Homo Sapiens” começaram a formar. Veríamos então como os impérios colonizadores conseguiram unir diversos grupos étnicos sob uma só alçada política, fundindo assim segmentos cada vez maiores da espécie humana e do planeta, na senda de uma evolução unificadora. Nos últimos 2.500 anos a maior parte dos seres humanos viveu sob égides imperiais. Os nossos antepassados, habitantes da península ibérica, por exemplo, foram colonizados pelo Império romano, adquirindo uma língua mais abrangente, o latim e o direito romano, sendo o primeiro a raíz da língua portuguesa e o segundo a base do conceito de cidadania, onde se fundam a nossa Constituição e as leis que dela decorrem.
Quando o Estado português resolveu, após 25 de Abril de 1974, conceder a independência às colónias, particularmente a Angola e Moçambique, é importante salientar que o grau de desenvolvimento alcançado nos campos da educação multicultural, da saúde, da economia, dos transportes rodo e ferroviários, quando comparado com o dos países africanos limítrofes, é francamente favorável à colonização portuguesa, como pude observar “in loco” há cerca de dez anos, quando visitei a República Democrática do Congo, os Camarões, o Kénia e o Zimbabwe. Enquanto a colonização inglesa e a holandesa, elitista, gerou o odioso sistema do “Apartheid” na África do Sul, pactuando também na Índia com o sistema de castas e aniquilando os aborígenes na Austrália e os Índios na América do Norte,a colonização lusa apostou na miscigenação e criou sociedades multirraciais, embora imperfeitas. Respeitou as autoridades tradicionais e foi incentivando a aculturação através do trabalho das Missões Católicas e das Escolas Regimentais do Exército Português. Em 1990, no “Royal College of Defense Studies” em Londres, tive o prazer de ouvir um distinto conferencista, professor universitário nigeriano, penso que terá sido AbiodunAlao, que também leciona no King’sCollege, ao dirigir-se a uma plateia maioritariamente anglo-saxónica, analisando a colonização da África, afirmar que a colonização portuguesa havia sido a mais humana de todas.
Concluindo e ao contrário dos articulistas que incensam o movimento antiracismo penso que os portugueses se devem orgulhar do seu passado, dos seus construtores do Império, do enorme contributo, de saldo largamente positivo que deram à humanidade e que continuam a dar, contribuindo para o avanço do Homem na senda do progresso.  


João Nobre de Carvalho
 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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