Marco Bicho: “As pessoas estão mais despertas para a importância do exercício físico”

Trabalha no mundo da musculação/fitness há mais de vinte anos. Como é que se enfrenta uma situação destas, de contornos desconhecidos e que obriga todos a um enclausuramento compulsivo?  
É, de facto, um acontecimento análogo, que ninguém conta passar na sua janela temporal de existência, mas a verdade é que está a acontecer, e temos de arranjar formas de o contornar. Nós, como habitantes deste planeta, não estamos isentos de culpa, e há, nesse sentido, uma reflexão profunda a fazer.

Focando-nos na sua área específica, os ginásios: é viável aguentar tanto tempo de porta fechada?   
Faço parte de uma marca consolidada. O Atlantis é não só o maior e mais antigo ginásio dos Açores, como um dos mais credenciados e respeitados do nosso país, referência para grandes atletas e grupos empresariais que nos olham como um exemplo de estudo no que toca ao modelo de gestão. Não bastasse, há um enorme espírito de camaradagem e união, que faz com que sejamos quase família.
No Atlantis, a prioridade cimeira é o bem-estar de quem nos procura: o melhor método de treino, o melhor staff, o melhor ambiente, o melhor equipamento e como não podia deixar de ser, o melhor momento do dia.
Estabelecemos objectivos realistas e adequados à condição física de cada um, sem promessas milagrosas, mas com a garantia de que estaremos lá para ajudar a concretizá-los, seja na vertente treino ou na vertente extra treino, que engloba por exemplo, a componente alimentar.
Esse selo de qualidade e confiança proveniente de 25 anos a formar campeões e campeãs deixa-nos numa situação privilegiada em relação à concorrência, que tem um longo caminho a percorrer até garantir a consolidação no mercado.

De que forma esta paragem forçada impactou na preparação dos atletas? 
É óbvio que há um decréscimo de produtividade que terá agora de ser compensado. O corpo está habituado a uma determinada cadência e fica sem ela da noite para o dia, o que causa alterações não só físicas, como psicológicas, uma vez que é preciso não esquecer que o exercício físico é também garante de boa saúde mental.

Ao nível das alterações sanitárias impostas: estão a alterar o normal funcionamento dos ginásios?
Há, de facto, alterações significativas, como por exemplo a limitação do número de utentes, ou mesmo a tão proliferada distância de segurança, que no nosso caso é facilmente cumprível em razão da amplitude do espaço onde laboramos.
O Atlantis conseguiu fazer uma transição pacífica para o denominado «novo normal», em grande parte - é justo referi-lo - por ter um perfil de cliente bem definido, que é informado, educado, sensato, respeitador e conhecedor dos protocolos, o que nos dá, como é óbvio, confiança reforçada para acreditar que tudo correrá pelo melhor. 

Como comenta, sendo um profissional do meio, o facto de recentemente terem mandatado para as aulas de tele-escola uma professora de Educação Física que nem conseguia chegar com as mãos aos pés? 
É um caso paradigmático, que tem sido, a meu ver por motivos errados, muito comentado. A educação física é uma disciplina da maior importância e pode ser leccionada por qualquer pessoa credenciada para o efeito, independentemente de ser magra, gorda, bonita ou feia. 
O problema a sinalizar é quando isso - no caso a obesidade - interfere com a forma como os exercícios são executados, passando um mau exemplo - diria mesmo de desleixo - a miúdos que estão a aprender.
Perdeu-se a noção do ridículo e a culpa é, em grande parte, dos órgãos decisores, que com a sua displicência dão azo a que situações como esta aconteçam. E o pior: em directo para todo o país! 
Nos ginásios, por exemplo, somos obrigados a ter professores de Educação Física que, sem qualquer experiência prática no ramo fitness têm prioridade sobre excelentes profissionais, com muitos anos de sala e aclamados no meio.
Para o efeito, criam-se legislações hipócritas, redigidas por políticos que desconhecem completamente, o sector e nada mais querem, a não ser beneficiar certos interesses corporativistas!

No que toca a hábitos saudáveis: estamos melhor ou nem por isso?
Parece-me que sim. As pessoas estão mais despertas para a importância do exercício físico no combate ao mais diverso tipo de enfermidades, e isso faz com que recorram ao ginásio já não para remediar, mas para prevenir. 
Há uma mudança de mentalidades que é salutar e se traduzirá, com toda a certeza, em pessoas mais saudáveis e, como consequência, numa sociedade mais preparada para enfrentar todo o tipo de adversidade.
O que é que podia ser feito para potenciar e incentivar ainda mais a prática de exercício físico? 
Medidas simples, como por exemplo o custo das mensalidades poderem entrar como despesas para IRS. Noutro plano, as entidades patronais facultarem aos seus funcionários condições - dentro da própria empresa, em espaço criado para o efeito, ou através de protocolos estabelecidos com os Ginásios - a possibilidade de se exercitarem duas a três vezes por semana, em horário laboral, como aliás é já prática comum em países como a Suécia, Dinamarca, Canadá, etc.
Não menos importante levar o exercício - com planos devidamente adaptados - às pessoas mais idosas. Seja nos lares, nos hospitais, nas clínicas, ou mesmo nas suas residências, é fundamental que todos se mantenham activos, porque isso garantirá que possam viver mais tempo, com maior qualidade de vida.

Que mensagem lhe apraz deixar à comunidade fitness, em particular e às pessoas em geral?
Que mantenham a paixão pela actividade física e pelo desporto, e não tenham medo de regressar, porque trabalhámos - e continuaremos a trabalhar - arduamente para garantir que tudo correrá pelo melhor.
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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