Guilherme Figueiredo levanta uma série de questões

Médico alerta para eventuais novas ondas de Covid-19 nos Açores com o aumento dos voos do estrangeiro

 A abertura dos Açores, a partir de hoje, a voos internacionais, alguns provenientes dos Estados Unidos, Canadá e Alemanha, suscita uma série de questões em jeito de alerta às autoridades regionais de Saúde, com alguns especialistas a recearem uma série de ondas de Covid-19 sobretudo, nas ilhas que são porta de entrada na Região. 
Um dos médicos ouvidos pelo Correio dos Açores, Guilherme Figueiredo, passa a mensagem de que é fundamental assegurar, a vários níveis, um controlo exímio da entrada do vírus na Região, impedindo que se formem cadeias de transmissão. Neste contexto, fica o alerta de que a saudade de familiares pode ser demasiado forte que faça esquecer as preocupações individuais que é preciso ter.  

A falta de rede...

Quando questionado sobre se receia uma nova vaga da Covid-19 nos Açores, Guilherme Figueiredo responde que “são as autoridades de saúde que receiam o aparecimento de múltiplas ondas. E os peritos falam que este cenário é até o desejável: que sejam ondas múltiplas que permitem gerir a situação. Isto é dito pelos peritos e é o que seria desejável que acontecesse. Nunca um pico”, afirma.
O médico chama a atenção para os novos surtos de Covid no continente “e já começamos a ver de novo alguns casos na Região, sempre com um impacto menor, como é evidente”.
Mas, o facto é que o arquipélago só está imune ao vírus quando está isolado e, não podendo estar por razões económicas, terá de estarem alerta máximo. É que, como afirma Guilherme Figueiredo,  “se o impacto se torna maior, isto descamba com facilidade porque não temos a capacidade do Continente de diluir o impacto por várias estruturas de saúde. No continente há um espaço interligado que permite compensar qualquer momento de ruptura numa unidade hospitalar por outra que exista ao lado. No continente é possível construir uma rede. Já em São Miguel, por exemplo, não há rede absolutamente nenhuma. Aqui há um hospital que leva com os casos todos. E não há alternativa, ou se há, desconheço. Já foi apresentado algum plano de acção para o caso do Hospital do Divino Espírito Santo deixar de ter capacidade de resposta? Se existe, eu desconheço”, palavras do médico.

Gripes que podem ser
confundidas com Covid

Guilherme Figueiredo não tem dúvidas é de que, a haver ondas de Covid-19 nos Açores, “o que seguramente vai acontecer é que, somado a isto, vai aparecer o surto da gripe sazonal aí por Outubro a Novembro e Dezembro. Ora, os sintomas que a gripe produz nas pessoas vão criar um cenário em que, muito eventualmente, as pessoas podem julgar-se com Covid-19 pelos sintomas que apresentam. E isto vai determinar um conjunto de atitudes dos serviços de saúde, quer públicos, quer privados, de extrema defesa e de necessidade de testar e de, até, recomendar recolhimento. E, depois, estabelecer as relações daquela pessoa com o seu agregado familiar ou com as pessoas com quem trabalha. Este (a partir de Outubro) vai ser um período de grande instabilidade. E, portanto, julgo que vai – mesmo que não determine do ponto de vista governamental e oficial, um confinamento – vai haver confinamento de novo, causando bastante perturbação na sociedade”.
Como explica o médico, “apanhamos o primeiro surto de Covid-19 já na fase de resolução da gripe sazonal 2019-2020. Portanto, já não havia gripe ou havia muito pouco quando surgiu a pandemia nos nossos territórios. E, logo, não temos esta experiência”. Agora, continua a explicar, “no final deste ano e princípio de 2021 vamos ter esta experiência. Como é que, a olho, se consegue diferenciar uma pessoa com febre, com tosse, com dores no corpo e a espirrar, de ser ou não um caso positivo de Covid ou ser uma gripe sazonal? E, nestas situações, as pessoas vão pretender um teste e vão dirigir-se à Linha Covid. Vai ter que seguir todos os procedimentos que agora estão determinados. E, portanto, julgo que as autoridades se estarão a preparar para isto”. 
Neste contexto, segundo o médico, “vai haver necessidade de dotar as linhas de saúde com mais meios humanos para responder a um maior número de casos. Depois, os Centros de Saúde vão ter que ter mais gente para rastrear. Os próprios testes vão ter que existir em maior número. Os laboratórios vão ter que responder em maior quantidade em maior volume e mais rapidamente. E, depois, a sociedade e, digamos, a estrutura da economia, também tem que se preparar para estas respostas”, alerta Guilherme Figueiredo. 

Ter o controlo das
diferentes variáveis

A questão já se coloca a curto prazo com a realização de mais voos para os Açores e o aparecimento de mais turistas. O médico não foge à questão. “Repare que estes últimos casos de Covid identificados nos Açores são de pessoas que acabaram de chegar. E, portanto, foram identificados. Mas, vamos continuar a poder manter um ritmo de identificação eficaz e eficiente se começar a vir muita gente para a Região? Estamos preparados para isso? Esta questão deve ser colocada a quem está a trabalhar neste domínio”, afirma.
E Guilherme Figueiredo prossegue: “Eu tenho algumas dúvidas. Em minha opinião, eu dava como perdido o ano. Aliás, vai ser considerado perdido mesmo que venham turistas que serão sempre poucos para aquilo que são as expectativas e as necessidades dos empresários. As empresas conseguem fazer face às suas despesas e ganham dinheiro no turismo se tiveram taxas de ocupação, no Verão, entre os 75 e os 80%. Isto porque no Inverno, a taxa de ocupação quebra muitíssimo. Ora, ninguém está à espera de ganhar dinheiro este ano no turismo. Todos estão à espera de manter as suas estruturas e infra-estruturas e recursos humanos para poderem ultrapassar esta fase, esquecê-la e partir para outra. Acho que é esta a posição sensata da maior parte dos empresários”, realça. 
A questão que se coloca é: será que, com mais turistas, vamos conseguir manter e controlar o surto de Covid na Região. Ou isto vai ser um factor de modificação do padrão do comportamento de Covid na Região com um expectável agravamento da situação e, eventualmente, dificuldades e alguma perda de controlo? Isto nós não sabemos. Espero que as diferentes variáveis deste problema – que são múltiplas – estejam a ser equacionadas. Estou confiante que estarão a ser, mas não tenho informações”, conclui o médico.                        
                                           

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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