4 de julho de 2020

Cesto da Gávea

Tele…quê?

A Grécia Antiga foi uma civilização mediterrânica que marcou o mundo em muitos aspetos que perduram até hoje, nomeadamente nas línguas europeias. Foi assim na Linguística, como na Cultura e na Ciência em geral, abundando por todo o lado as palavras de origem grega, quer na sua composição total, quer parcial. Um exemplo com que constantemente se depara é “tele”, palavra helénica que significa longe ou distância, trazendo consigo a noção de separação ou afastamento. A presente pandemia tornou corriqueiro o uso de palavras como teletrabalho ou teleconferência e ressuscitou em moldes tecnologicamente mais avançados a telescola, mas no campo médico a telemedicina é termo há muito representativo do que é o presente e será o futuro desta área fundamental para a Saúde. Para que todas estas “tele-coisas” funcionem é indispensável uma rede operacional de telecomunicações, mais ainda quando a internet se tornou indispensável e avança a passos de gigante rumo a um futuro que se avizinha tão promissor, quanto inquietante.
Inquietante ou não, o facto é que o negócio das telecomunicações é hoje um dos mais rentáveis, apetecidos e provavelmente mais poderosos politicamente, seja a nível nacional ou global.  O pódio 2020 das maiores companhias de telecomunicações mundiais é ocupado pela AT&T-American Telephone and Telegraph Company (1ª) a China Mobile (2ª) e a Verizon (3ª, outra americana). Juntas, as Três Grandes somam uma capitalização de mercado da ordem dos 660.000 milhões de dólares, com 40% desta soma a pertencerem aos americanos da AT&T. Mas não tenhamos ilusões: o crescimento dos proventos da China Mobile foi estrondoso nos últimos 2 anos: de 96.400 milhões USD, subiu para 164.200, um aumento de 70% que relegou a Verizon para o 3º lugar. Tal mudança diz muito da dimensão dos mercados de origem, pois se a AT&T está presente em 200 países e a Verizon em 150, à China Mobile bastam os 950 milhões de clientes chineses para bater recordes de crescimento. As telecomunicações globais são uma “selva” altamente competitiva, onde os predadores de grande porte devoram sem dó nem piedade os de menor dimensão, um pouco à imagem e semelhança do que acontece no mundo financeiro. A expansão geométrica das comunicações móveis, onde a tecnologia de hoje é remetida para a prateleira amanhã, envolve um mercado de dimensão colossal, daqueles capazes de fazer e desfazer fortunas em curto espaço de tempo. Inversamente, as multinacionais que apostam no cavalo certo, no momento certo, conseguem acumular conhecimento, clientela e lucros que lhes conferem sucesso.
Aliás, lucro é a palavra chave dos gigantes globais das telecomunicações, pois as 54 companhias de telecomunicações analisadas pela Forbes em 2018, que somavam ativos conjuntos de 3.400 milhares de  milhões (biliões) de dólares, tiveram rendimentos de 1,5 biliões no ano anterior. Um negócio destes é obra, visto ter proventos destes relativamente aos ativos é raro em qualquer setor, exceto na economia especulativa da finança global. A AT&T, uma empresa pública que sucedeu à Bell Telephone nos finais do século XIX, teve em 2019 ativos superiores a 550.000 milhões e lucros líquidos de 14.000 milhões USD, prevendo-se que este ano, como aliás acontecerá com a generalidade das telecoms, as exigências da pandemia Covid-19 elevem estes números para patamares superiores. Os confinamentos do nosso penar, são um esfregar de mãos para estas empresas do “tele”, as quais começam a perceber que se abre um mundo novo de negócios chorudos, para os quais grande parte da impreparada população vai ser presa fácil. Estabelecendo um possível paralelismo com o universo financeiro, onde as letrinhas pequeninas dos contratos levam à certa os incautos ou os descuidados, também as operadoras da “telecom jungle” são peritas na forma de aliciar clientelas. Que, depois de entrarem na rede, vêm com desagrado as propostas de alterações tarifárias (quando não dão por elas já aplicadas) e todo o tipo de “telepressões” via net ou telemóvel. Chega-se ao ponto de considerar o cliente como um simples número a explorar para rendimento, fenómeno geral a que Portugal se habituou.
Como integram no ADN uns genes de arrogância, as telecom portuguesas usam a ameaça de gabinetes jurídicos, à semelhança daquele que usa um e-mail tipo “contenciosodasilhas” para se dirigir aos clientes. Pejorativo inqualificável aparte, são posições destas que explicam porque 50% das reclamações dos consumidores, quanto a produtos e serviços, dizem respeito às telecomunicações (Deco Proteste, fev.2020). É demasiado surpreendente que, existindo uma entidade reguladora intitulada ANACOM, destinada a evitar abusos das operadoras e equilibrar os serviços de telecomunicações, ainda se esteja num patamar tão elevado de reclamações. Até porque na maioria dos casos, é fácil chegar a acordo com o consumidor: soube de um, em que pediram ressarcimento de 400 euros e contentaram-se em receber 250. Tele..quê?!  
 

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Categorias: Opinião

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