5 de julho de 2020

O fundador do Correio dos Açores e as ligações aéreas para as ilhas (1919-1937)

Na 1.ª missão francesa, em 1935, que não era encomendada pelos fabricantes como fora a de Bossoutrot, mas pelo Estado Francês, Castex deslocou-se também à Terceira e a Santa Mariae, no ano seguinte, voltou, desta vez acompanhado do aviador Paul Codos, e completou o roteiro do Arquipélago.Procuram aquilo que é bem difícil de encontrar. Um plan d’eau sereno para cada quadrante de tempo. Estou convencido, porém que, não encontrando para todos os quadrantes, acabarão por se conformar ligando-se ao porto que lhe ofereça mais facilidades e mais largueza: Ponta Delgada. Se tivéssemos aqui um abrigo para casos de emergência, talvez que as suas vistas se voltassem para a Terceira, que na realidade bem merecia ter qualquer coisa que a desviasse por uma vez dos touros e das cracas, disserta José Agostinho1.
Já foi abordado no presente trabalho o tema da aliança do nosso país com a Inglaterra, bem como a transição da “proteção” inglesa para as forças navais e aéreas americanas. Já nos referimos ao papel da Alemanha e dos seus interesses nos Açores, desde os cabos submarinos à utilização da baía da Horta, e da sua implantação na incipiente aviação portuguesa através da Junkers, bem como do sucesso dos equipamentos de voo da fábrica Dornier, do Do-Wal ao Do-X. Igualmente foi aqui referida a exibição do poderio naval e aéreo italiano, de DePinedo a Balbo. Sobre o poder aeronáutico francês, aflorou-se a questão não despicienda de as ligações aéreas de Portugal à Europa não irem, nos anos 1920 e 1930, além de Espanha, por falta de acordo com os franceses, bem como a do empenho de capitais gauleses na criação da SPELA/CPA, e da vitória do seu lobby, ao ganhar a concessão do monopólio das linhas aéreas portuguesas, e a das viagens transatlânticas de Costes e Bellonte. As ligações entre Paris e New York afiguravam-se, na altura, simbólicas para aferir do sucesso da navegação aérea transatlântica. Na década de 1920, a França, para além de já ser líder mundial da aviação e de ter fabricantes como a Blériot e a Farman, tinha governantes que ofereciam os mais generosos prémios a quem batesse recordes, utilizando aeronaves francesas. 
Explica-se, naturalmente, assim o acompanhamento próximo, pelo Correio dos Açores, das ações desenvolvidas pelos franceses para estudar a viabilidade de explorar as travessias aéreas do Atlântico Norte. As visitas de estudo aos Açores, designadamente a de Bossoutrot e a chefiada pelo aviador Nomy, em 1935, são assuntos a que o Correio dos Açores dedica muita atenção: vejamos os títulos que dedicou a essas notícias. “OS AÇORES E A AVIAÇÃO: Ponta Delgada, base de uma missão de estudo das futuras carreiras entre a Europa e a América – Os primeiros membros da missão chegam na próxima terça-feira, 26 do corrente”, na 2.ª página do dia 24 de novembro; “OS AÇORES E A AVIAÇÃO: Chegou ontem a Ponta Delgada a missão francesa que vem estudar as condições do arquipélago para futuras linhas aéreas entre a Europa e a América do Norte”, na 2.ª página de 27; “A MISSÃO AERONÁUTICA FRANCESA continuou ontem os seus estudos, tendo o capitão Nomy poisado e descolado na lagoa das Furnas com a maior facilidade. O Vale das Furnas fez aos nossos visitantes uma carinhosa manifestação”, a 29; “A MISSÃO AERONÁUTICA FRANCESA, continuando, ontem, os seus estudos, visitou as instalações da Radio-Marconi, tendo também feito uma digressão turística a alguns pontos da nossa ilha e visitado o Hospital – O avião não evolucionou, tendo o dia de ontem sido destinado a limpeza do motor e reparação da T.S.F.”, na página 2 do dia 30; “A MISSÃO AERONÁUTICA FRANCESA EM PONTA DELGADA continuou ontem os seus estudos, tendo o hidroavião voado sobre a Praia de S. Roque”, no dia 1 de dezembro (2.ª página); “A MISSÃO AERONÁUTICA FRANCESA EM PONTA DELGADA. O comandante Nomy foi ontem de manhã ao Faial regressando à tarde – O avião levantará vôo amanhã às 7 horas em direcção à Terceira”, na página 2 do dia 3; “A MISSÃO AERONÁUTICA FRANCESA EM PONTA DELGADA: O comandante Nomy recebeu ontem a visita do sr. Governador Civil – O avião voará hoje em direcção à Terceira”, na 2.ª página do dia  seguinte; “A MISSÃO AERONÁUTICA FRANCESA EM PONTA DELGADA: O comandante Nomy foi ontem de manhã à Terceira, no seu avião, regressando à tarde – Continuando os seus estudos, a Missão visita hoje o Porto de Ponta Delgada”, na 2.ª página do dia 5; “A MISSÃO AERONÁUTICA FRANCESA EM PONTA DELGADA: A visita à doca – Um jantar – Outras informações”, na página 2 do dia 6; “A MISSÃO AERONÁUTICA FRANCESA EM PONTA DELGADA: O PASSEIO ÀS FURNAS oferecido à Missão pelo chefe do Distrito”, no dia 10, também na 2.ª página; “OS AÇORES NA AVIAÇÃO TRANSATLÂNTICA: A organização da linha aérea Europa-América do Norte – Ouvindo o comandante Nomy sobre a sua missão nos Açores”, no dia imediato; “A MISSÃO AERONÁUTICA FRANCESA EM PONTA DELGADA: O jantar oferecido pelo comandante Nomy”, a 14 (página 2); “AS COMUNICAÇÕES AÉREAS ENTRE A EUROPA E A AMÉRICA DO NORTE: Os três caminhos sôbre o norte do Atlântico – Ilhas flutuantes – A rota dos Açores”, a 29, e “OS AÇORES E A AVIAÇÃO: A CAMINHO DE REALIZAÇÕES”, a 31. 
José Agostinho, no artigo que publicou em A UNIÃOde 17 de dezembro de 1953, sintetizou a informação acima citada, no referente à Terceira: - Em dezembro de 1935 veio por aqui o aviador Nomy, num hidro, de Ponta Delgada, e pouco depois o comandante Louis Castex, cuja ação mais tarde, no estudo do campo das Lajes, havia de ficar memorável. (...) Desde a sua primeira viagem à Terceira, o comandante Castex não abandonara mais a ideia de promover a construção do campo das Lajes. Em 1936, acompanhado pelo grande piloto Codos, que, em 1933, juntamente com Rossi, batera o recorde da distância, voando de Nova York a Kayak, na Síria, (5.675 milhas sem escala) e juntamente com o engenheiro português Inácio da Silva, especializado na construção de pistas de aterragem, Louis Castex percorreu todo o arquipélago. Foi visitada a ilha de Santa Maria, onde aquela extensa planura, onde hoje está o aeroporto, oferecia condições tentadoras. Por fim fixaram-se os três na Terceira e procederam, conforme as instruções que tinham, ao estudo do futuro aeródromo das Lajes, cujo plano foi inicialmente elaborado pelo engenheiro Inácio da Silva e veio depois a ser executado, segundo os moldes por ele indicados.
Parece ser oportuno procurar contribuir para clarificar este aspeto: conforme já foi lembrado no presente trabalho, na secção relativa ao Campo da Achada, a zona das Lajes já tinha sido identificada como a ideal, se bem que mais cara, para localização de uma pista de aviação. A opção pela Achada não se deveu ao desconhecimento das Lajes, que Castex julgou ter sido o primeiro a descobrir, mas à conjugação do parecer, de 1918, do major inglês Maurice Buckland, com a orientação de Cifka Duarte, no sentido de serem os municípios a garantir a construção dos aeródromos, e com a determinação da Junta Geral de Angra do Heroísmo em seguir essa orientação, aproveitando o facto de ser relativamente baixo o investimento a fazer para abrir uma pista na Achada, para o que orçamentou 50 contos para o efeito, a contar que o Estado não deixaria de cobrir a parte que viesse a ser excedida. Assim, ficaria a Terceira com o primeiro aeródromo terrestre.

A missão francesa em 1936

Na sua edição de 18 de fevereiro do ano seguinte, 1936, o Correio dos Açores reproduz, com o título “OS AÇORES NA LINHA DO ATLÂNTICO NORTE – A IMPRENSA DE PARIS ANUNCIOU UM ACORDO LUSO-FRANCÊS pelo qual é dado à aviação francesa o direito de fazer escalas nos Açores”, um artigo do diário parisiense Excelsior, que dá como certa a obtenção de um acordo que volta a colocar a aviação francesa na frente das negociações com Portugal, apesar do fiasco que tinha sido o negócio relacionado com a atribuição do exclusivo das ligações internas portuguesas à empresa SPELA, dominada pela Aéropostale. Mesmo assim, entre a obtenção de um entendimento e a sua concretização, ia uma certa distância. Salazar controlava tudo e fazia “orelhas moucas” aos apelos franceses, tendo que os conjugar com idênticas pretensões alemãs e anglo-americanas. Neste caso concreto, o pretexto para “enterrar” o projeto francês, de ter escala nos Açores, ignorando a sua pretensão de construir um aeroporto nas Lajes, foi o resultado das eleições francesas desse ano de 1936, que se traduziu na formação de um governo de FrontPopulaire. Assim se compreende que a aplicação prática do “acordo” luso-francês para a utilização dos Açores como escala para as ligações transatlânticas, ou seja, a anuência formal das autoridades portuguesas, só tenha ocorrido dois anos depois.
De novo, o Correio dos Açores destaca, na sua edição de 9 de outubro de 1936, “LIGAÇÃO AÉREA DA EUROPA COM A AMÉRICA DO NORTE: Chega no ‘Lima’ a missão aeronáutica francesa”, e, no dia 14 seguinte (2.ª página), “AS CARREIRAS AÉREAS EUROPA-AMÉRICA DO NORTE: A Missão Aeronáutica Francesa seguiu ontem para as ilhas de oeste no ‘Lima’, depois de realizar vários estudos nesta ilha sobre as possibilidades de estabelecimento de uma base terrestre. O fim da Missão, segundo um comunicado do Ministério do Ar francês”. Esta segunda deslocação de Castex, agora com o aviador Codos, já foi em representação da Air France, de que foi dirigente. A primeira missão francesa, com o comandante Nomy, como atrás ficou descrito, foi autorizada pelo Ministério do Ar Francês, que submeteu o pedido a Lisboa, como não podia deixar de ser. Tanto o consentimento de Salazar, que tutelava diretamente o Conselho Nacional do Ar, para a deslocação da missão francesa, como a posterior autorização para a Air France escalar os Açores nos seus voos transatlânticos, foi muito lenta, provocando enorme bruit na imprensa francesa.


José Adriano Ávila

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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