Carlos Morais – Sócio-Gerente do Hotel Horta

“O Verão tornou-se num Inverno com taxas de ocupação mais reduzidas do que o próprio Inverno”

O Hotel Horta, na Ilha do Faial esteve, à semelhança de todas as outras unidades hoteleiras dos Açores, encerrada em virtude da Pandemia de Covid-19, tendo optado por mandar para lay-off 23 dos seus 25 funcionários.  
A estrutura hoteleira reabriu as suas portas no passado dia 15 de Junho e segundo o gestor, o cenário é tudo menos animador.
“Neste momento o que acontece é que temos mais cancelamentos e a procura é nula. Já no mês de Julho teremos provavelmente uma taxa de ocupação na ordem dos 20%. Recordo que ainda estamos no início do mês e que provavelmente irão ocorrer mais cancelamentos”, refere Carlos Morais.
O sócio-gerente indica igualmente que a procura tem sido baixa e que por isso, não tem entrado muitas novas reservas.   
“Muito poucas reservas. Não tem expressão. Relativamente à questão das reservas de grupos o que aconteceu é que muitos cancelaram e passaram essas marcações para 2021”, afirma.
Carlos Morais referiu-se igualmente à Campanha “Viver os Açores”, lançada no decorrer deste mês de Junho, adiantando que tem existido pedidos de informação mas que nenhum desses pedidos foi ainda concretizado.
“Tem havido alguma pesquisa nesse sentido, mas ainda não tivemos reservas sobre esse programa concretamente”, confessa.
O empresário faialense considera que a Campanha “Viver os Açores” tem como principal objectivo abranger o maior número de pessoas possíveis, mas admite que o programa, criado para fomentar o turismo regional, poderá colocar alguns entraves a quem não tenha grande experiência informática.
“Penso que a parte burocrática pode limitar pessoas com menos experiência informática, a não ser que recorram a uma agência de viagens que poderá ajudá-los neste processo. Tem de pagar para depois receber. Também a própria questão da reserva ter de ser feita 21 dias antes, penso que não faz muito sentido”, afirma Carlos Morais.
O empresário do Faial admite igualmente que os mais jovens e os açorianos com menos capacidade financeira poderão ter alguns problemas em usufruir desta Campanha.
“Penso que vai haver muita gente que irá utilizar, agora o número de pessoas exactamente é um bocado difícil neste momento de perceber. Há muitas pessoas em lay-off, há pessoas que também tem de perspectivar o que é que vai acontecer no futuro”, realça.
Apesar de considerar que a Campanha tem o intuito de cobrir sectores como a hotelaria, alojamentos locais, rent-a-cars ou mesmo a restauração, o sócio-gerente do Hotel Horta considera que, para além desta campanha, poderia ter-se avançado numa outra direcção. 
“Se tivesse havido uma tarifa aérea única dentro dos Açores provavelmente poderia ter outro incremento”, afirma.
Para além de estar ligado ao Hotel Horta, Carlos Morais pertence também a uma sociedade que está encarregue da gestão das Pousadas da Juventude nos Açores. Também aqui as perspectivas para os próximos tempos não são animadoras.
“As perspectivas nas pousadas na juventude e não só, também no próprio alojamento local, são muito baixas. Neste momento a procura é muito pouca e existem mais cancelamentos do que novas reservas. Nós tínhamos taxas de ocupação muito boas de Maio até Outubro e neste momento estamos com taxas de ocupação abaixo dos 20%. Está complicado. O verão tornou-se num Inverno com taxas de ocupação mais reduzidas do que o próprio Inverno”, desabafa.
Carlos Morais que é igualmente o actual Presidente da Associação de Turismo dos Açores (ATA), acredita que a recente decisão tomada pelo Governo Regional de realizar os testes de despiste à Covid-19 no local de origem da viagem é benéfica para impulsionar o turismo vindo do continente Português.
“Neste momento o mercado que poderia reagir é o mercado nacional. Penso que a questão do teste feito na origem foi uma medida importante. Não nos podemos esquecer que o mercado nacional representava mais de 40% das dormidas regionais, mas nunca chegaremos a números destes durante este ano”, realça.   
     
Swiss Air cancela operação

Sobre as novas rotas aéreas que estavam programadas para este Verão, Carlos Morais confirma que a Swiss Air, que tinha previsto iniciar as viagens a 6 de Julho, cancelou a sua operação para Ponta Delgada.
“Fomos informados a 2 de Julho do seu cancelamento mas ficou a porta aberta para mesmo número de rotações para o ano. Não está ainda confirmada, mas iremos sentar-nos à mesa para tentarmos que se mantenha a operação para o próximo ano. Não estava a ter a procura que desejava na rota Genebra-Ponta Delgada”, afirma o Presidente da Associação de Turismo dos Açores.
Já sobre a operação da TUI Bélgica, oriunda de Bruxelas, Carlos Morais afirma que “apesar de ter sido adiada”, deverá arrancar em meados de Julho.

Futuro incerto

O empresário faialense mostra muita preocupação perante o cenário económico que se projecta para os próximos tempos.
“Como é que iremos fazer depois nos 6 meses de inverno, meses que já eram complicados por si só, mas que se irão tornar ainda mais complicados para a sobrevivência e subsistência das próprias empresas?”, questiona.
Para Carlos Morais e mantendo-se a actual conjuntura, o cenário de encerramentos e de despedimentos de trabalhadores estão em cima da mesa.
“Não quero ser profeta da desgraça mas é evidente que há empresas que vão passar por grandes dificuldades e que poderão ter de passar por essa situação”, refere.
Carlos Morais apresenta como exemplo um negócio do qual é proprietário e que tem no turismo o seu principal sector de actividade.
“Tenho uma agência de viagens e no mês de Agosto se eu não tiver serviços, tenho 12 pessoas que não sei o que é que lhes vou dar que fazer. Apesar de eles virem trabalhar, mesmo com horário reduzido, é uma questão complexa. Se em Agosto já não tem que fazer, não vai ser em Novembro e Dezembro que vou ter trabalho para eles”, desabafa o empresário da Ilha do Faial.   

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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