Padre Carlos Simas, pároco da Lomba da Maia e São Brás

“As nossas comunidades terão de perceber que a fé é que nos leva a receber o sacramento e não o contrário”

Daquilo que conhece, que parecenças têm ambas as paróquias (Lomba da Maia e São Brás), do ponto de vista social e religioso?
Poderei dizer que são contrastantes e semelhantes. Não existem comunidades iguais como não existem comunidades completamente diferentes umas das outras. 
Do ponto de vista social são comunidades rurais onde todos se conhecem o que facilita o conhecimento das necessidades de cada família. Ambas as comunidades, em grande parte, vivem da pecuária e da agricultura mas onde se nota as dificuldades causas pelo desemprego. Cujo é uma das preocupações das instituições nomeadamente as juntas de freguesia que tentam colmatar o mesmo através de programas governamentais principalmente para as pessoas com baixa escolaridade. Mas o desemprego será sempre uma preocupação que estará à flor da pele. Contudo não existem casos de pessoas desalojadas. A Ouvidoria tem um Núcleo Cáritas que dá resposta aos casos de pobreza já sinalizados, embora o ideal é de chegar mesmo àqueles que vivem uma «pobreza envergonhada». Todo o trabalho do núcleo da Cáritas é feito em pleno anonimato por forma a preservar a integridade e o direito de cada pessoa ou de cada lar. É um serviço gratificante em que a Igreja terá sempre o seu lugar porque ainda existem pessoas que procuram o apoio da Cáritas. 
Trata-se de comunidades com baixa taxa de natalidade. Onde já se nota um envelhecimento populacional. Os jovens que estão a estudar em universidades no exterior da ilha ou mesmo cá, uns acabam por regressar à terra, outros ficam ou por Ponta Delgada ou até mesmo pelo continente. 
É outra preocupação que já tenho vindo a transmitir fraca taxa de natalidade é mesmo preocupante nestas comunidades. No que respeita ao religioso digamos que a taxa de frequência à eucaristia, tendo em atenção os dados da visita pastoral de D. João a estas paróquias no final do ano de 2019, varia: Praticantes 80%-60%; Prática Dominical – 30%-20%; Prática nas Festas (Natal, Páscoa, Padroeiro) – 60%-45%; Não Praticantes – 34%-13%.
Digamos que são comunidades ainda com algum impacto religioso, mas nota-se um certo comodismo em relação à prática e ao compromisso para com a fé. Há uma visão errada que tenho vindo a trabalhar para que as pessoas entendam que a Igreja está para servir mas não podem ficar somente pelo acontecimento de um pedido de sacramento como se fosse um acontecimento social. A vivência dos sacramentos na Igreja ultrapassa esta mentalidade. É a expressão da fé de quem recebe e de quem o quer viver. As nossas comunidades terão de perceber que a fé é que nos leva a receber o sacramento e não o contrário. É um caminho que a Igreja tem feito e muito bem em esclarecer a dimensão vivencial dos sacramentos na pessoa e na comunidade. Com o tempo certamente iremos amadurecer e aprofundar esta consciência muito frutífera do cristianismo.

Entretanto, veio a pandemia da Covid-19. Sentiu a população preocupada?
Sim. Sem dúvida. Senti que todos acompanhamos de perto toda a informação epidemiológica que o país foi apresentando. Assim como todas as orientações que nos foram faculdades pelos organismos públicos. 
Posso dizer que senti nas minhas comunidades um confinamento responsável onde a maior parte da população se sentiu co-resposnsável pelo bem-estar do outro. Típico de uma zona onde todos nós conhecemos quem reside ao nosso lado. É como se as preocupações de um fosse a de todos. Óbvio que falo sempre a nível geral, quando tocamos no particular acabamos sempre por vislumbrar as diferenças, mas poucas neste caso. 

Como viveu os dias de confinamento devido à pandemia?
Respondendo estritamente á sua pergunta, confinado! No dia-a-dia mantive sempre ocupado com as orações diárias, com celebração da eucaristia tendo sempre presente as intenções das melhorias dos que estavam hospitalizados, pelos profissionais de saúde e infelizmente, por aqueles que foram vítimas mortais desta pandemia, porque mesmo longe uns dos outros geograficamente, não deixamos de ter uma consciência de irmãos que partilham a «Casa comum». 
Por outro lado, ocupei-me das aulas da faculdade e dos trabalhos para entregar no segundo semestre que ainda deram que fazer. 
Tentei manter-me informado, o mais possível, sobre as necessidades da freguesia articulando com algumas instituições as necessidades das comunidades. 
Por outro lado ainda fiz a «pastoral do telefone», liguei a pessoas mais idosas da freguesia e aproveitar para me inteirar do estado de saúde, das suas preocupações, assim como tentei transmitir confiança no futuro contribuindo com uma palavra de ânimo. 

Durante esse tempo, muitos dos seus colegas aderiram às ferramentas on-line para transmitir as celebrações. Aconteceu o mesmo consigo, ou nem por isso?
Sim. Celebrei e transmiti as missas on-line e foi aí que me senti acompanhado não só pelos meus paroquianos, mas também pelos nossos emigrantes que, no meio disto tudo, revisitaram a sua Igreja por esta via, assim como também reviveram a celebração da eucaristia na sua «igreja-mãe», isto é, na igreja onde foram baptizados. Foi um processo gratificante de onde brotou uma partilha através dos comentários que foram sendo feitos ao longo das eucaristias. 
Também temos de ter noção que não podemos ficar somente pelo on-line e criar «cristãos de sofá», como advertia D. António Moiteiro, Bispo de Aveiro, numa entrevista à Ecclesia. 
A Igreja poderá e deverá estar nas plataformas digitais, que será sempre uma mais-valia, mas consciente que jamais poderemos prescindir de um encontro comunitário «tu a tu», onde se toma consciência da presença de uma comunidade física, palpável, que vive a sua fé ao redor da «mesa do Senhor». 

Foram três meses sem poder celebrar as eucaristias com a presença de fiéis nos templos. Após a reabertura das igrejas, o número de presenças manteve-se ou aumentou?
Para já não posso dizer que aumentou. Sinto ainda alguma resiliência e preocupação por parte de alguns fiéis. Outros não se sentem bem com o uso da máscara. Enfim… existem inúmeras situações que nos fazem perceber que tudo terá o seu tempo e que não podemos obrigar ninguém a estar presente, principalmente neste tempo em que estamos a viver. Mas com tudo isto não me posso queixar acerca da participação dos fiéis. Posso dizer que a nível geral não diminuiu muito a presença de fiéis. Acredito que tudo virá ao seu lugar, precisamos dar tempo ao tempo e, este acabará por nos dar a sua resposta. Neste momento precisamos confiar e continuarmos a ser responsáveis nesta matéria. 

Confirma que este ano não deverão realizar-se as festas em ambas as paróquias?
As festas irão realizar-se! Agora a forma como se irão realizar é óbvio que serão em moldes diferentes por forma a mantermos todos as orientações que estão estabelecidas. 
Se me perguntar se este ano não se deverão realizar as festas com arraiais e procissão. Sim, Não deverão, haver! Mas, celebrarmos as festas não é somente isto. As festas ultrapassam estes condicionalismos. A festa faz-se em primeiro lugar no coração de cada um. É o que partilho todos os anos com as minhas comunidades. Acho que um dos desafios que esta pandemia nos veios trazer, a este respeito, foi tomarmos consciência que a religiosidade popular necessita de uma verdadeira purificação. Teremos de aprender a celebrar e a vivenciar a nossa fé como cristãos e não como pagãos. O cristão celebra a festa no coração e faz festa, o pagão faz festa e não a vive no coração. 

Que Versículo da Bíblica que mais gosta?
Tenho alguns preferidos mas partilho aqui um que para mim tem feito muito sentido na minha caminhada de fé: «Bendigo-Te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelastes aos pequeninos» (Mt 11,25).

Que mensagem poderia deixar aos nossos leitores, nestes tempos, que são indubitavelmente diferentes, pelas razões que se conhecem?
Ninguém pode mudar o mundo de um dia para o outro. Mas podemos marcar sempre a diferença pelo compromisso, pelo bem mútuo que se pode construir no mundo. Precisamos confiar e acreditar mais uns nos outros. Esta semana partilhava com as minhas comunidades que precisamos ser médicos uns dos outros. Cuidar, zelar pelo bem comum. Rebuscarmos valores já perdidos como interajuda, a caridade, a compaixão. 
O Papa Francisco, aquando da oração Urbi et Orbi, na Praça de São Pedro em Roma, relembrou-nos que «estamos todos no mesmo barco». Precisamos aprender a confiar mais no Mestre. A ter mais fé e a sentir a segurança que Cristo nos transmite. 
Deus não está a dormir. Nós é que andamos adormecidos para os sinais que Ele nos comunica. Perceber os «Sinais dos Tempos», é olharmos para a nossa realidade e não a vermos como um desprezo de Deus pelos homens, mas dos homens por Deus. 
Relembro ainda as palavras do Santo Padre numa das suas homilias que partilhou que «Deus pode tudo, só não pode uma coisa, viver longe do ser humano». Esta imagem transmite-nos uma segurança tão bela e ao mesmo tempo apaziguadora. 
Há dois domingos atrás Jesus partilhava com as multidões dizendo: «vós valeis mais que todos os passarinhos» (Mt 10,31). São precisamente com estas palavras que termino esta mensagem. 
 

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