Correio dos Açores: Vivendo fora dos Açores, tem o coração na tua ilha?
Carlos Massa: Sim, é natural que tendo nascido e vivido parte da minha vida nos Açores, tendo a minha família, alguns amigos, muitos conhecidos também por aí e não esquecendo de que quando aí vivi fiz a minha história, que por aí ficou, traga sempre guardado no meu coração tudo o que tenha a ver com a terra onde eu nasci e vivi intensamente.
Qual o sentimento que experimentaste ao escutar “9 ilhas” no concerto “Todos juntos na música por Paulão”?
Foi como se tivesse a nascer a concretização do meu sonho, de quanto estava a compor essa canção, que era: “estou a fazer uma canção para todos os açorianos, que será de todos os açorianos e que será cantada por todos”.
Como se fosse quase uma bandeira musical imaginária em que todos os açorianos se identificassem, gostassem e cantassem. No concerto do Paulão teve uma carga energética muito boa, tanto no palco como na plateia mas, infelizmente, a coisa ficou só por aí pois é como diz o ditado: “longe da vista, longe do coração”. E este ditado serve, não só para esta música, como também para a minha pessoa enquanto músico naquela que se diz a minha terra.
Como assiste o Carlos Massa a uma actuação do artista Massimo Massa?
É uma bonita pergunta, mas difícil de sintetizar, de qualquer das formas vou tentar fazer o meu melhor.
Olhar para o Massimo a actuar, ou mesmo quando ele está ao piano a estudar ou a criar alguma coisa, é, para mim, como um fogo de artifício emocional.
Fale-nos como começou a paixão pela música.
Provavelmente, ou com certeza, o facto do meu avo materno tocar violino despertou-me atenção por instrumentos, por sons e música.
Não sei se este terá sido o único motivo por ter essa grande paixão pela música, ou se terá sido uma vocação que já trouxe de fábrica. Não consigo concretizar, mas há de ter sido alguma coisa deste género.
Como define a sua relação com a guitarra?
Com muito respeito e carinho. É um instrumento encantador em termos sonoros, sobretudo para quem consegue um bom nível de execução, coisa que eu, infelizmente, não consigo.
Mas é, sem dúvida, um instrumento muito importante para eu compor.
Quando teve o primeiro instrumento musical?
Aquele que eu posso considerar o meu primeiro instrumento musical foi um violão que eu construí nas aulas de trabalhos manuais, no ciclo preparatório, tinha eu 10/11 anos. Obviamente que não ficou uma obra-de-arte à escala mundial, mas foi como se tratasse da minha jangada para alcançar a credibilidade dos meus pais para me comprarem um violão a sério, novinho em folha e, por sinal, de muito boa construção. Fabricado em Espanha e da marca “Raimundo” (isto para quem entende alguma coisa do assunto) e que na altura custou 5500 escudos.
Qual o tipo de música que gosta mais de tocar?
Não sei se existem músicos que gostem de tocar somente um tipo de música e se houver eu respeito. Poderei dizer que gosto de tocar só aquele tipo de música que mexe com os meus sentimentos e se, a intenção é falar de género ou estilo, aí podemos estar a falar de uma “salada” que junta o Jazz com o Funk, fusão, algum Pop e mais uns condimentos (não vou revelar a receita toda), pois o importante é tocar o que me faz bem à alma.
Dos originais que já compôs, qual o título que mais destacas?
Provavelmente “Estamos perto de um fim” e “Ame”.
Quais os objectivos enquanto músico?
Continuar a compor e a escrever o que me vai na alma e poder gravar para que possa ter a oportunidade de partilhar o meu trabalho com quem tiver curiosidade e vontade de o conhecer.
Nos dias de hoje é possível nos Açores ser profissional da música?
Bem... nos dias de hoje, concretamente, não é possível de todo. Mas, pandemia à parte, acho que já respondi várias vezes a essa pergunta e vejo que é uma questão que parece ser preocupante, mas que na verdade acho que se trata somente de mera curiosidade. De qualquer das formas não estou a ver um músico açoriano a andar de Ferrari comprado com o dinheiro ganho com a música, talvez nos próximos 100 anos.
Existe algum movimento de crescimento da música original nos Açores?
Daquilo que me apercebo claro que sim, mas tenho a certeza que tanto eu como muitos desconhecemos muita e boa música que se faz nos Açores e digo isso com muita tristeza, porque gostaria que a música que se faz em todas as ilhas fosse mais divulgada, pelo menos a nível nacional.
Qual o festival de música que elege na Região e no país? Porque?
No que diz respeito aos festivais que se realizam nos Açores não me posso pronunciar, ou seja, não vou eleger nenhum dos festivais regionais, uma vez que não os conheço (e porque também nunca fui convidado a participar em algum festival dos que se realize na Região).Por isso, não vou opinar sobre o que desconheço. Em Portugal continental, sem dúvida, o Rock in Rio.
Lembras-se como foi a primeira vez que pisou um palco?
Sim, lembro-me perfeitamente. Eu tinha 13 anos e foi com a minha primeira banda que se chamava Ácidos & Rock. Foi nos Mosteiros, numa sala de espectáculos, e de cinema também, julgo eu, tinha público o que já não era mau, o som era uma coisa tenebrosa e a felicidade que eu sentia era enorme.
Qual o tipo de música com que mais se identifica?
Esta é mesmo fácil... a minha, sem dúvida!
De todas as músicas que já tocou qual foi aquela que mais te marcou?
Não há uma música que tenha tocado e que seja a que mais me tenha marcado. Quando penso na sua pergunta começo logo por questionar-me se terá sido alguma das minhas ou de outros artistas, ou até mesmo algum dos bons momentos de improvisação.
Qual foi o melhor concerto e como correu?
Eu teria de falar de muitos concertos inesquecíveis (e cada um deles por motivos diferentes) mas isso seria uma tortura para quem estiver a ler uma vez que nunca mais sairíamos daqui. Acho que, neste aspecto, sou um felizardo, mas prefiro dizer que foram todos aqueles que me fizeram viajar mais e sentir que o público também viajou comigo.
Que tipo de público gosta mais das suas actuações?
Traçar o perfil do meu público não é uma tarefa simples mas, de uma forma muito ligeira, eu diria que não são, com certeza, as grandes massas nem um público fútil. Normalmente reconheço muitos músicos no meu público.
Na sociedade moderna há valores que se perdem. Acha que no que diz respeito à música acontece o mesmo?
Eu acho que quando diz “sociedade moderna” está a referir-se à “sociedade actual” e, para mim, moderno não significa ausência de valores. Respondendo à pergunta, e tendo em conta que os músi cos e a música actual fazem parte da sociedade, obviamente e infelizmente que sim.
Quais os artistas que mais o inspiram?
Os artistas ou projectos que mais me inspiraram, começando pelo panorama português são, por exemplo, o Jorge Palma, Sérgio Godinho, Fausto, Trovante, Paulo de Carvalho, Rui Veloso, Rão Kyao e também os Construção (para aqueles que não conhecem ou nunca ouviram falar trata-se de um magnífico projeto açoriano que nasceu no final dos anos 70 que deixou um disco gravado que, para mim, é uma obra de arte que fica no património da música feita nos Açores. Inspiração estrangeira dou como exemplo: Queen, Supertramp, Police, Pink Floyd, Genesis, Marillion, Serge Gainsbourg, Alan Carron, Stanley Clarke, Marcus Miller, Stuart Hamm, Steve Vai, Miles Davis e mais alguns cromos.
Quais os grupos que já integroue ou integra ainda?
Bom, a minha intenção é de me lembrar do máximo possível, sabendo que lembrar-me de todos não vai acontecer. Aqui vão: Ácidos& Rock, Stress, Amadeus, Gente da Ilha, Trio, Zás-trás Trio, Carlos Massa e a Banda de Cá, Jorge Palma, Olavo Bilac, Nuno Barroso, “Sal” com Nuno Norte e José Carlos Pereira, Trio-Ângulo (Onda Jazz); fiz parte de vários projectos de Jazz com formações em trio, quarteto, quinteto até Big Band e, nesta área, também acompanhei varias cantoras, cantores portugueses e estrangeiros. Há muitos mais mas acho que chega.
Fale da composição para o Festival da Canção.
Há erros que cometemos que se fazem pagar muito caro. “Maldito seja o tempo” é um tema muito forte que aproveitei para o incluir no meu disco com um arranjo diferente e o resultado final é muito bom.
Como estás a viver esta pandemia?
Vivo-a da forma mais atenta possível para tentar perceber ao máximo tudo o que possa estar relacionado com a mesma.