Ontem foi Dia Mundial da Alergia e ouvimos o imunoalergologista Rodrigo Alves

Alergia aos ácaros do pó é a mais frequente na Região, onde a rinite atinge mais de 25% dos açorianos

Correio dos Açores - De acordo com a Organização Mundial de Saúde, as doenças alérgicas estão entre as seis doenças mais frequentes do mundo. Como estão os Açorianos em termos de alergias? 
Rodrigo Alves (Imunoalergologista) - Efectivamente, segundo a Organização Mundial de Saúde, estima-se que 12% da população mundial sofra de algum tipo de alergia. A nível nacional, bem como nos Açores, a prevalência destas doenças é ainda mais elevada. A rinite é a patologia mais prevalente, atingindo mais de 25% dos Açorianos, afectando a asma brônquica e o eczema atópico cerca de 10% da população. Infelizmente estes números tendem a aumentar, não apenas a nível mundial, mas também na nossa região. Os factores que justificam este crescimento estão relacionados com aspectos genéticos, factores ambientais (como a poluição), mudanças de estilos de vida (como o sedentarismo) e alterações nos hábitos alimentares (como a ingestão de alimentos processados e hipercalóricos). 

Quais as alergias mais comuns nos Açores? Há quem tenha alergias e não saiba ou não trate delas?
Qualquer substância do meio ambiente pode, em teoria, ser responsável por uma reacção alérgica. Dentro dos alergénios do ar (aeroalergénios) podemos ter alergia aos ácaros do pó, aos pólenes, aos fungos ou aos epitélios dos animais. Nos Açores, a alergia aos ácaros do pó é, de longe, a alergia mais frequente, seguida pela alergia aos pólenes. Tal como acontece em relação aos ácaros do pó, também a alergia a fungos ou bolores surge com frequência na nossa Região como consequência dos níveis elevados de humidade. Em relação a outros tipos de alergénios podemos destacar, por exemplo, a alergia alimentar, a alergia a insectos ou a alergia medicamentosa.
A população Açoriana e os profissionais de saúde estão cada vez mais despertos para as doenças alérgicas, não obstante as mesmas sejam ainda frequentemente subvalorizadas, sub-diagnosticadas e sub-tratadas.

As alergias desenvolvem-se logo em criança ou é algo que pode desenvolver-se em qualquer altura da vida?
As doenças alérgicas podem surgir em qualquer fase da vida. É de salientar, no entanto, que estas patologias são mais frequentes nas faixas etárias pediátricas e apresentam um grande impacto na qualidade de vida da criança e da restante família. Este facto, aliado às possíveis sequelas e às limitações terapêuticas inerentes a esta faixa etária tornam imperativo o diagnóstico o mais precocemente possível. 

As alergias apenas se manifestam em determinadas alturas do ano?
As doenças alérgicas, mesmo as relacionadas com os alergénios ambientais, surgem em qualquer altura do ano. Alguns alergénios, como por exemplo os pólenes, têm um predomínio estacional evidente, mas outros alergénios, com os ácaros do pó ou os epitélios animais, permanecem relevantes ao longo de todo o ano. 

Quais os sintomas de alerta em relação às alergias? São apenas tratadas com medicamentos?
A rinite caracteriza-se pela presença de sintomas como o nariz tapado ou a pingar, os espirros e a comichão no nariz. Em 70% dos casos pode acompanhar-se de conjuntivite, caracterizada pela presença de comichão nos olhos, olhos vermelhos ou a chorar, sintomas estes que surgem após o contacto com os alergénios, designadamente os ácaros, os pólenes, os fungos ou os epitélios de animais. A asma brônquica tem como principais sintomas a tosse, a falta de ar, a pieira e o aperto no peito. O eczema atópico, por outro lado, caracteriza-se por lesões avermelhadas e descamativas na pele acompanhadas de muita comichão. Adicionalmente existem ainda outros tipos de alergias como, por exemplo, a urticária, o angioedema ou a anafilaxia – uma reacção alérgica grave e potencialmente fatal.
Globalmente, o tratamento da alergia assenta em três vectores: medidas de controlo ambiental (para reduzir os factores desencadeantes), tratamento farmacológico (para controlar a longo prazo a inflamação alérgica e controlar as cri¬ses e os sintomas) e, em alguns casos, a vacina antialérgica (também designada de Imunoterapia Específica). Esta última terapêutica, quando indicada, reveste-se de uma grande utilidade pois tem uma enorme eficácia, desde que instituída correctamente e sob vigilância estrita de um especialista em Imunoaler¬gologia, sendo o único tratamento que pode alterar o curso natural da doença alérgica, ou seja, “curar” as alergias.

Há forma de prevenir crises alérgicas?
A melhor forma de prevenir as crises alérgicas é a evicção do alergénio a que o indivíduo é alérgico, seja este um alergénio inalado, alimentar, medicamentoso, ou de qualquer outra origem. Nalguns tipos de alergia, como por exemplo na asma brônquica, é também fundamental efectuar uma medicação preventiva para controlo da inflamação brônquica. Adicionalmente, é também fundamental fornecer ao doente um esquema terapêutico de emergência, que o mesmo deverá utilizar aquando do surgimento da crise alérgica.

Quais as alergias mais “perigosas”? Há alergias que podem causar a morte?
A reacção alérgica mais grave e potencialmente fatal é a anafilaxia. Este tipo de alergia pode ser desencadeada por vários agentes, sendo os alimentos a causa mais frequente nas crianças e os medicamentos e os insectos (abelhas e vespas) a causa mais frequente nos adultos.

Nas alergias alimentares, quais os alimentos mais comuns de causarem alergia? Este tipo de alergias tem aumentado?
Qualquer alimento pode causar uma alergia alimentar e, em alguns casos mais graves, até nem é preciso ingeri-lo para se obter uma reacção de hipersensibilidade, basta o simples contacto ou inalação. Na idade pediátrica, os alergénios alimentares mais frequentes são o leite, o ovo, os cereais e o peixe, enquanto nos adolescentes e adultos, os principais causadores de alergia alimentar são o marisco, os legumes, os frutos frescos e as oleaginosas. Efectivamente, nas últimas décadas tem-se documentado um aumento deste tipo de alergia, com especial destaque nas reacções de maior gravidade.

Com a pandemia terá havido algum aumento de pessoas a sofrer com os alergéneos que se encontrem nas casas? Ou, agora no desconfinamento as pessoas estarão mais sensíveis a pólenes, por exemplo?
Ambas as situações verificaram-se. Durante o período de confinamento, a permanência prolongada dentro das habitações provocou um agravamento da sintomatologia nos doentes sensibilizados a alergénio indoor, como os ácaros, os fungos e os epitélios. Por outro lado, os doentes sensibilizados a alergénios do ambiente exterior, como os pólenes, agravaram as suas queixas alérgicas aquando do desconfinamento, com a subsequente maior exposição a este tipo de alergénios, até porque a mesma coincidiu com o período de polinização dos pólenes com maior potencial alergénico – a Primavera.                           

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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