Primeira greve nos Açores teve 99% de adesão

Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica queixam-se que “são das poucas carreiras discriminadas pelo Governo”

Durante a manhã de ontem, à semelhança do que aconteceu em todas as ilhas do arquipélago, devido à primeira greve dos Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica (TSDT) nos Açores, cerca de 60 profissionais de Saúde da Unidade de Saúde da Ilha de São Miguel e do Hospital do Divino Espírito Santo (HDES) reuniram-se junto ao Palácio de Sant’Ana para mostrarem o seu desagrado perante o encerramento das negociações com a Secretaria Regional da Saúde, devido à pandemia, que tinham como objectivo conferir uma maior estabilidade e facilitar a progressão na carreira.
De acordo com Júlio Carvalho, delegado no arquipélago do Sindicato dos Técnicos Superiores de Diagnostico e Terapêutica (STSDT), apesar dos efeitos da pandemia no Serviço Regional de Saúde, levando a que muitas das actividades destes profissionais fossem reduzidas e levando à diminuição do seu volume de trabalho, a realidade é que “os profissionais de saúde não podem continuar assim”.
O facto de esta greve ter contado com uma adesão a rondar os 99%, conforme adiantou, revela o pensamento geral destes profissionais de saúde que – apesar de pedirem desculpas pelos entraves que a greve colocou durante o dia de ontem – se sentem injustiçados, principalmente quando em comparação com as carreiras de profissionais de saúde de outras categorias.
“Estão a cometer uma injustiça muito grande, a nova carreira foi publicada, as transições e os posicionamentos não estão a ser feitos e aquilo que se está a pensar fazer é injusto e é errado. Atribuírem-nos um ponto por ano em vez de 1,5 não está a ser equacionado.
A Região Autónoma da Madeira fez uma discriminação positiva aos seus TSDT, com um ponto e meio, e assinou um acordo que não contempla só esta questão, daí que o nosso objectivo seja também, enquanto Região Autónoma dos Açores levarmos a bom porto esta negociação, que contemplará de certeza melhorias para estes profissionais”, diz.
Assim, o representante sindical na Região aponta que os profissionais não estão satisfeitos com a proposta de reunião marcada com a Secretária Regional da Saúde para o próximo dia 31 de Julho, por se considerar já que “é tarde” para que surta efeito até ao fim desta legislatura.
“É tarde, há muita coisa feita e não são necessárias mais duas ou três semanas. Queremos uma reunião o mais rápido possível e a pandemia não pode servir de desculpa para tudo (…) e queremos que ainda nesta legislatura haja um compromisso para que na próxima legislatura tenhamos alguma coisa palpável”, refere o representante.
De um modo geral, estas são questões que têm vindo a desmotivar os profissionais, adianta, “uma vez que há pessoas que trabalham há 18 anos e que vêem colegas novos a entrar e que auferem o mesmo vencimento”.
Deste modo, adianta que existe “uma má interpretação daquilo que está publicado”, e que não tem havido a recepção ideal da parte da Secretaria Regional da Saúde face às vontades do sindicato e dos profissionais de saúde que representa.
No Palácio de Sant’Ana, adianta foi entregue um manifesto destinado a Vasco Cordeiro, que se encontrava no Faial, bem como “um conjunto de documentação que foi fruto daquilo que já foi a negociação do passado com a secretaria regional e uma cópia da documentação e do acordo feito na Madeira”.
Com a chegada da pandemia aos Açores, as negociações com o Governo Regional não foram a única coisa a paralisar, havendo “muitas áreas que ficaram em segunda linha com a questão da pandemia, como a questão oncológica ou as cirurgias urgentes, e é importante lembrar que há também outros doentes. Há muito diagnóstico que ficou por fazer e muitos exames complementares de diagnóstico que terão que ser repostos”, adianta Júlio Carvalho.
Por isso, neste momento, “regressar à normalidade é uma incógnita”, principalmente tendo em conta que os profissionais de saúde e os respectivos serviços se preparam para combater a eventual segunda vaga do novo coronavírus na Região.
 

Os relatos dos profissionais de Saúde

Carla Porto é terapeuta ocupacional há 17 anos no Hospital do Divino Espírito Santo e garante que os Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica são das poucas carreiras que são realmente discriminadas pelo Governo Regional.
Sendo uma das cerca de 60 pessoas que estiveram ontem presentes na manifestação que se realizou em frente ao Palácio de Sant’Ana, a terapeuta – em conjunto com todos os colegas – reivindica a subida de 1,5 pontos na carreira, ao invés de apenas um ponto, como prevê o Governo.
“Estes pontos são mesmo essenciais para nós mas parece que o Governo tem dois pesos e duas medidas. Trabalho há 17 anos no hospital e há muitos na mesma situação, até há mais anos. Colocaram-me em Novembro no mesmo índice base, a ganhar o mesmo que alguém que chegou ontem”, desabafa.
Por esse motivo, considera que as decisões que têm vindo a ser tomadas em relação a este grupo de profissionais “não são correctas”, principalmente porque se está a falar de um conjunto de 18 profissões das quais dependem o serviço nacional e regional de saúde.
Destaca que durante a pandemia houve colegas que estiveram sempre na linha da frente, tal como os que trabalham com radiologia e com cardiopneumologia, com análises e com fisioterapia, e que por isso é importante que as pessoas entendam que para fazer este tipo de exames é necessário passar por estes profissionais.
Por seu turno, Sílvia Rodrigues é técnica de anatomia patológica há cerca de 35 anos, e desde o início que se recorda dos desafios que sempre foram impostos a estes profissionais. “Somos várias profissões englobadas no mesmo nome e acabamos por ser poucos. Não temos aquele impacto que têm as carreiras de enfermagem ou de medicina, e acabamos por ser esquecidos”, diz.
Em termos de respostas concretas para melhorar as condições em que trabalham, Sílvia Rodrigues refere que, à semelhança do que aconteceu na Região Autónoma da Madeira, “deveria haver uma valorização da carreira diferente daquela que o Governo Regional nos quer dar, porque sendo nós importantes no Serviço Regional de Saúde, não devemos ser tratados de uma forma diferente das outras carreiras que fazem parte do SRS”.
No entanto, apesar de estar num nível “um pouco mais diferenciado”, tendo em conta os anos de carreira, nota que “a transição para a nova carreira não me vai beneficiar em praticamente nada porque não contando os pontos como deve ser eu não evoluo na carreira”, algo que, conta, não acontece desde o ano de 2002.
Magda Moreira é também licenciada em anatomia patológica, citológica e tanalógica, mas exerce a profissão de TSDT há cerca de oito anos. Apesar das duas pós graduações que possui actualmente, a realidade, conta, é que “quando era estudante não sabia qual a realidade da nossa carreira, que é quase inexistente”.
Por esse motivo, apenas quando começou a trabalhar no Hospital do Divino Espírito Santo é que percebeu “que realmente somos das poucas carreiras em que somos ignorados, parece que ninguém nos conhece ou valoriza, só se lembram dos médicos ou dos enfermeiros”, refere.
“Os médicos e os enfermeiros são mais em número mas não há tratamento sem diagnóstico e há também muitos tratamentos que não existem sem terapêutica, e nós somos técnicos de diagnóstico e terapêutica, embora cada um esteja na sua área. 
É revoltante ver que ao fim de 11 anos nós continuamos quase na mesma, porque nos últimos dois anos houve pequeníssimos avanços, mas a sensação que fico é que são avanços “para nos calar”, desabafa.
Em causa está também o vencimento que estes técnicos auferem, pois apesar de serem agora chamados de técnicos superiores “continuam com salários inferiores”, diz a jovem.
Espera então, tal como os restantes participantes, “que esta manifestação seja o primeiro passo para perceberem que já nos chega de estar calados e invisíveis. Estamos nas costas da saúde: auxiliamos no diagnóstico, auxiliamos na terapêutica, mas parece que estamos escondidos por trás de uma capa, de um SRS que tem só médicos, enfermeiros, auxiliares e administrativos”.
Com a pandemia, salienta, muitas consultas, exames e rastreios ficaram adiados, tal como as biopsias que não foram feitas. “Algumas cirurgias oncológicas continuaram a ser feitas, tivemos que continuar a trabalhar mas no meu caso específico estamos à espera para saber como vai ser. Durante a Covid houve uma redução mas esses doentes vão ter que ser vistos. Vai haver um aumento louco do volume de trabalho e aí vamos sentir muito mais”, conclui.

 

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