Injecção de capital na companhia açoriana analisada por várias personalidades

“Esses 163 milhões de euros não resolverão os problemas estruturais da SATA”, diz Gualter Furtado

Gualter Furtado – “Se houver
 um enquadramento externo 
favorável não tenho dúvidas 
de que a SATA tem solução”

O economista Gualter Furtado desafiado a comentar os últimos acontecimentos  relativos à companhia aérea açoriana começa por destacar que o apoio pedido pelo Grupo SATA não se constitui como uma novidade perante o cenário presente.
“A SATA adoptou o mesmo procedimento do que outras empresas publicas e mesmo algumas privadas. Face à situação de quebra monumental de receita, de paragem da actividade, nalguns casos mesmo total, como é o caso da SATA, aproveitar as circunstâncias que foram abertas pelo Estado e pela União Europeia no sentido de avaliar e, de certo modo, apoiar essas empresas pelas quebras de receita e falta de liquidez provocadas por essa quebra de actividade”, realça.
Apesar disso, Gualter Furtado realça que este empréstimo não resolverá os problemas estruturais com que o Grupo SATA se depara.
“Isto não pode ser confundido com uma solução estrutural para a SATA que é muito mais vasta. Essa solução passa por um plano de reestruturação da empresa que é o passo que se deve seguir a este. Evidentemente que isto é um passo, um primeiro passo para uma solução numa companhia que é estratégica e indispensável para a Região Autónoma dos Açores”, afirma.
O economista acredita, apesar de todas as dificuldades pelas quais a companhia aérea atravessa, que ainda é possível salvar a SATA.
“A solução passa exactamente pelo apoio do dinheiro que venha e, por conseguinte, tem de haver um compromisso por parte da União Europeia com a SATA e um plano de reestruturação da empresa. Se houver um enquadramento externo favorável, um apoio do Estado e da UE a par de um plano de reestruturação muito exigente, não tenho dúvidas de que a SATA tem solução. 
Agora é fundamental que estes três factores se conjuguem: Ajuda de Estado, Apoio da União Europeia e Plano de Reestruturação”, defende.
O economista e Presidente da Comissão Executiva do Novo Banco dos Açores, assim como Presidente do Conselho Económico e Social dos Açores, Gualter Furtado afirma, porém, que o Plano de Reestruturação terá provavelmente como consequência a dispensa de trabalhadores.
“Ninguém acredita que não vá haver reestruturação a nível de pessoal. Isso seria um milagre”, afirma o economista.
Mário Fortuna –  “É preciso
 segurar financeiramente 
a instituição”

O Presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada, por seu turno,  regista que este pedido de auxílio ao Estado é compreensível perante a actual situação em consequência da pandemia de Covid-19.
“Estamos aqui numa situação similar à da TAP, em que o Governo da República vai assegurar um empréstimo de 1,2 milhões. Isto é para ajudarem as empresas a irem ao mercado fazer o seu financiamento em condições normais”, salienta.
Mário Fortuna lembra no entanto que a actual situação financeira da companhia não é apenas consequência do momento que atravessamos e que o Governo Regional já disponibilizou uma verba à SATA para fazer face aos efeitos da pandemia de Covid-19.
“O Governo já disponibilizou 50 milhões de euros na revisão orçamental para ajudar a SATA a compensar os prejuízos desta paragem.
 Portanto, aquilo que estamos a falar relativamente à SATA será um pouco mais vasto do que isso e vai para além daquilo que é a pandemia. É evidente que a pandemia complica qualquer solução, mas aquilo que está em causa é, no fundo, refinanciar a SATA para que esta possa dar os passos seguintes de reestruturação para uma situação de equilíbrio”, afirma.
Para o empresário, a solução pedida pela SATA é a única possível no actual contexto.
“Não vejo outra via nem tão pouco outra alternativa que não pedindo ao Governo da República, porque 163 milhões de euros não estão previstos em nenhuma parte do orçamento regional. É preciso segurar financeiramente a instituição e este empréstimo seria uma das poucas opções que haveria e, porventura, a única com alguma viabilidade de implementação. Todas as outras implicariam alterações orçamentais e são questões que não estão em cima da mesa”, realça o empresário.
Mário Fortuna admite também que face à reestruturação pela qual a empresa terá obrigatoriamente de passar, que será necessário repensar as rotas existentes e não coloca de parte a dispensa de alguns funcionários.
“A restauração vai implicar tudo aquilo que é preciso fazer ao nível de revisão de rotas, de estruturas de pessoal ou de estruturas de outros custos e partir daí, acho que devemos manter o espírito aberto relativamente à necessidade de efectivamente fazer alguma coisa para que não fique tudo igual num modelo que não funcionou e que produziu resultados negativos e de forma sistemática, nos últimos anos”, afirma o presidente da Câmara do Comércio de Ponta Delgada.

Tomaz Dentinho – “A solução 
de estarem a colocar mais
 dinheiro na SATA não faz sentido”

O professor universitário é aquele que entre todos os entrevistados, tem uma posição mais “dissonante” relativamente ao futuro da SATA. Tomaz Dentinho acredita que a empresa já não vai a tempo da salvação.
“A solução de estarem a colocar mais dinheiro na SATA ou na TAP não faz sentido”.
Tomaz Dentinho vai mais longe e afirma que a solução para a companhia aérea açoriana, no estado em que se encontra actualmente, terá de passar pela falência.
“Quanto mais depressa a SATA abrir falência e se recriar, como aconteceu com a Swiss Air e com a SABENA, melhor. Agora empurrar com a barriga e contrair mais um empréstimo que no fundo não vai resolver nada, não faz sentido. Vai apenas servir para manter os salários das pessoas. Empurrar para a frente irá agravar muito mais a situação actual e a situação das gerações vindouras que terão de acarretar com os erros da gestão”, destaca.
Tomaz Dentinho acredita que a empresa, depois do processo de falência, poderia reinventar-se e voltar a operar de uma forma mais competitiva.
“Tem de funcionar e fazer com que a SATA seja uma companhia low-cost de grande competitividade no Atlântico. Isso é possível, se os outros são capazes de fazer nós também somos”, realça.
O professor universitário refere que a solução para o problema dos transportes aéreos nos Açores terá obrigatoriamente de passar pela liberalização completa do sector e pela abertura do espaço aéreo à concorrência.
“Os açorianos já têm essa certeza de que a concorrência entre empresas resulta em preços mais baixos. Isto não é uma opinião, é uma certeza. Também no transporte aéreo já percebemos que a concorrência é a melhor solução”, afirma Tomaz Dentinho.

Francisco Pimentel – “Não
podem ser os trabalhadores o 
bode expiatório de uma má gestão” 

O sindicalista Francisco Pimentel refere que, apesar de estarmos a atravessar uma situação extraordinária fruto da pandemia de Covid-19, a questão da SATA já não é recente e que se trata de um problema de gestão.
“O que nós temos constatado é que à medida que o tempo vai passando, a gestão da SATA tem sido pouco eficiente. É preciso procurar, e o Governo já o fez, um gestor qualificado que vai agora a começar a dar provas. 
É necessário que exista uma gestão correcta em termos de rotas, em termos de empresa e que a empresa seja gerida enquanto empresa pública. De preferência que a empresa continue a ser uma empresa pública regional com uma boa gestão”, reforça o sindicalista.
Francisco Pimentel destaca igualmente o papel fundamental que a empresa desempenha em duas vertentes.
“A SATA é estrategicamente importante quer para aquilo que é a função de transporte aéreo entre o continente e os Açores e também dentro dos Açores. É também importante como uma empresa que sustenta uma área importante da actividade económica dos Açores que é o turismo”, afirma.
Para o Presidente da UGT nos Açores, é imperativo que a empresa avance como o processo de reestruturação mas que o mesmo, não pode passar “sistematicamente” pela dispensa de trabalhadores.
“Sempre que as empresas públicas dão prejuízo por má gestão a primeira reacção que existe é olhar para os trabalhadores e imputar-lhes a responsabilidade por má gestão. Não pode ser. Há também aqui uma obrigação das empresas públicas, uma obrigação social que passa por alguma adaptação, mas não podem ser os trabalhadores o bode expiatório de uma má gestão da empresa pública seja ela qual for”, defende Francisco Pimentel.     

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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